Os anos que encerraram a década de 1970 foram cruciais para a retomada do movimento operário, que, em função da precarização das condições de vida da classe trabalhadora, associada a uma crescente insatisfação popular contra o regime político, irão lançar como protagonistas de “um novo sindicalismo” lideranças sindicais combativas que encontrarão, na corporativa estrutura sindical brasileira, uma velha ferramenta de controle. Tal ferramenta, apesar de impor limites, ao mesmo tempo, irá conferir, ao movimento, uma postura mais agressiva, intensificando a contrariedade à estrutura sindical tutelada pelo Estado. Em torno disso, novas propostas de organização da classe operária ganharão terreno, conferindo ao movimento sindical brasileiro uma nova roupagem.
Será da emergência de “novos agentes”, inseridos em um cenário político-econômico adverso, que o movimento sindical brasileiro tomará a dianteira da história política brasileira, passando a assumir o papel de movimento social ativo, transformando a reivindicação imediatista do plano econômico em luta política, luta esta declarada contra o oligopólio automobilístico brasileiro, concentrado na região do ABC paulista. Nascia, assim, o movimento que ficou conhecido como novo sindicalismo.
As bases do milagre econômico brasileiro19se mostraram insuficientes tão logo o período de entusiasmo com a dinâmica da conjuntura econômica mundial se encerrou, com a crise do petróleo em 1973, o que significou o encerramento de uma fase de farta liquidez internacional que, entre outros atributos, garantia os níveis de investimentos para a economia brasileira. Juntamente, de forma geométrica, a dívida externa do país se elevou, demonstrando o elevado grau de subordinação e dependência à economia internacional principalmente no tocante aos níveis de investimentos necessários para garantir um elevado padrão de acumulação, assim como a estruturação do setor de bens de capital e intermediários necessários à efetivação do parque industrial brasileiro.
19 O milagre econômico brasileiro ficou conhecido pelo período de seis anos, que se estendeu de 1968 a 1973,
Quadro 3 – Evolução da taxa de crescimento do PIB e da dívida externa líquida (dívida
externa bruta – reservas internacionais) 1968 – 1973 (US$ bilhões)
Ano PIB % Dívida externa líquida
1968 9,8 3,5 1969 9,5 3,7 1970 10,4 4,1 1971 11,3 4,9 1972 11,9 5,3 1973 14 6,2
Fontes: Banco do Brasil, Banco Central e FMI (apud REGO e MARQUES, 2006).
A economia brasileira, tendo à frente, como ministro da Fazenda, Delfim Netto, que tinha como slogan “fazer o bolo crescer para depois dividir”, elevou o potencial de acumulação da burguesia internacional e de setores da burguesia nacional, ao passo que a classe trabalhadora viu seu poder de compra diminuído, sofrendo uma redução, no ano de 1974, de 42%, quando comparado ao poder de compra de 1964.
Isso ocorreu muito em função da diminuição do salário mínimo, o que só intensificou o abismo na distribuição de renda, tendo em vista que a “renda apropriada pelos 50 % mais pobres passou de 17,6 % da renda total em 1960 para 15% em 1970, ao passo que a renda dos 10% mais abastados aumentou de 39,7% em 1969 para 47,8% da renda total em 1970” (REGO e MARQUES, 2006, p. 125).
Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo real obteve perda do seu poder de compra na faixa de 22%, em 1969, comparativamente a 1964.
Os números demonstram que, no período de intenso crescimento econômico, os salários, ao invés de acompanharem a elevação das taxas de crescimento, seguiram em sentido inverso, muito em função do cerceamento das atividades políticas e sindicais, o que garantiu amplo espaço para que o capital, principalmente oligopolista, intensificasse a exploração da classe trabalhadora.
Contudo, cabe a indagação: qual foi então o êxito do milagre econômico brasileiro? Precisamente em ter propiciado, ainda que por um curto prazo, uma fase, um período de acumulação. Atendeu às demandas naturais de acumulação de capital. Sob a atrofia e sacrifício de tudo o mais, é verdade, mas realizou uma fase de acumulação. Aproveitando uma disponibilidade financeira
exterior e achatando violentamente os salários das massas trabalhadoras, sob o pretexto, aliás real, porém isento de novidade, de ter de levar ao mercado externo produtos e preços competitivos, cujo significado concreto é vender barato e comprar caro, que é a marca estrutural dos países economicamente subordinado.
O “milagre”, pois, é um milagre sobretudo para o capital financeiro internacional, sob a condição de que veja constantemente assegurada a certeza de que os mecanismos econômicos montados produzam e reproduzam a captação dos dólares necessários para “remunerá-lo”. (CHASIN, 2000, p. 70)
A forma de desenvolvimento do milagre brasileiro demonstrou ser contraditória, tão logo os índices inflacionários apresentaram altas em conjunto com o nível de endividamento da economia, tendo em vista o progressivo aumento na importação de bens de produção que evidenciava o grau de atrofia da indústria nacional no interior de uma economia dependente e associada, não conseguindo, nesse período, criar uma simbiose entre os dois departamentos da economia. Assim, reafirmando a incompletude da industrialização brasileira, o II Plano Nacional de Desenvolvimento de Geisel, iniciado em 1974, demonstrou ser mais uma tentativa fracassada de potencializar o departamento I.
Será sobre esse panorama econômico e político que, em 1974, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema20 realizará seu I Congresso, tendo como principal bandeira a liberdade e autonomia sindical, somado à participação e organização dos trabalhadores no interior das fábricas, conforme palavras do então candidato à presidência do sindicato Lula da Silva:
[...] clamava-se por liberdade e autonomia sindical, pela participação e organização dos trabalhadores dentro das fábricas. Acho que pela primeira vez se fazia uma análise de conjuntura da situação da indústria automobilística no Brasil. Foi uma experiência muito rica, com os trabalhadores dizendo o que tinha que ser feito, o que sentiam, ao contrário da maioria dos sindicatos que fazem as coisas sem conversar com o trabalhador, sem saber o que ele está pensando. Já havia nesta época trabalhadores dentro da fábrica querendo se mobilizar. A Ford, em 74, ameaçava fazer uma greve, a Mercedes também, e a gente resolveu partir daí. Nós tínhamos assumido a direção do sindicato, resolvemos que não era
20
Criado oficialmente em 23 de setembro de 1933, congregando várias organizações operárias independentes de orientações ideológicas anarquistas e comunistas, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC terá, até 1959, sua sede em Santo André. A partir dessa data, ocorre uma separação devido à ampliação das bases sindicais, em São Bernardo do Campo, em função da implantação da indústria automobilística na região. Criou-se, assim, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de São Bernardo do Campo e Diadema, atuando em outra base territorial até a reunificação com o antigo Sindicato em Santo André no ano de 1993, quando foi criado de fato o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC). Em 1996, por divergências políticas e ideológicas, voltará a se separar, fazendo com que Santo André estenda sua base de representação com Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, enquanto o sindicato de São Bernardo e Diadema continuará sendo identificado como SMABC.
difícil fazer sindicalismo se a gente se dispusesse a falar a verdade à classe trabalhadora. Nós éramos uma das poucas diretorias de sindicato não heterogêneas, éramos muito homogêneos, ninguém tinha compromissos ideológicos, nem com grupos, nem com partidos. Isso fez com que resolvêssemos fazer o jogo da verdade com a categoria, o lema básico era “nunca mentir e nunca ser paternalista diante do trabalhador”. (LULA in ANTUNES, RAGO, PRADES e BARSOTTI, 1982, p.14)
Lula passará a fazer parte do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, a partir de 1972, quando da reeleição de Paulo Vidal à presidência do sindicato, após o período de intervenção militar de 1969, representando setores da esquerda embora mantivesse uma postura de conciliação com a ordem imposta pelos militares, combinando “a luta legalista pela defesa de direitos no interior da estrutura sindical atrelada com um grau de mobilização que potencializava a organização e ação coletiva” (IASI, 2006, p. 363).
Embora Vidal demonstrasse disposição em colaborar com o governo, algumas conquistas frente ao patronato fizeram com que seu sindicato começasse a ser reconhecido por sua postura combativa. Um exemplo de tal enfrentamento à ordem, foi a vitória na justiça pelo pagamento do adicional de insalubridade na fábrica da Ford, a conquista de um dia de descanso semanal e a diminuição das horas extras a duas horas por dia.
Embora algumas conquistas tenham sido obtidas pelo sindicato sob a presidência de Vidal, o fato de ele ter a conciliação como opção política causou descontentamento entre a direção do sindicato que reivindicava maior mobilização no trabalho de base e apoio aos anseios operários. A organização desses dirigentes em torno dessas reivindicações criou o Conselho de Coordenação dos Trabalhos de Base, representando uma instância intermediária, um elo entre a luta e reivindicação dos operários no interior do chão de fábrica e a organização sindical, fatores que ficaram claros no I Congresso, marcando decisivamente um distanciamento em relação à Federação dos Metalúrgicos de São Paulo, de tendência conciliadora, reconhecido como pelego21.
O discurso de conciliação se transforma de vez em contestação quando, em 1975, Lula é eleito presidente do sindicato em São Bernardo, compondo, em sua diretoria, representantes combativos que passarão a estreitar cada vez mais a distância que separava os trabalhadores no chão da fábrica do sindicato.
Se Lula representa um novo personagem combativo, diferenciando-se do seu antecessor, isso por certo não pode ser explicado através de uma radicalidade política e
21 Para maiores detalhes sobre a organização do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo ver: Sader (1988) e
ideológica com que interpretava o modo de produção capitalista, mas ao contrário no didatismo que a realidade imprimiu a essa nova liderança, refletindo ao mesmo tempo a formação de uma nova classe operária, composta em sua maioria por imigrantes, sem antecedentes de militância política e, na maioria dos casos, com baixo nível de escolaridade. Lula, nesse sentido, identifica-se com sua base e é identificado por esta, o discurso de sua posse como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema ilustra o posicionamento político da nova liderança:
O momento da história que estamos vivendo apresenta-se, apesar dos desmentidos em contrário, como dos mais negros para os destinos individuais e coletivos do ser humano. De um lado vemos o homem esmagado pelo Estado, escravizado pela ideologia marxista, tolhido nos seus comezinhos ideais de liberdade, limitado em sua capacidade de pensar e se manifestar. E no reverso da situação encontramos o homem escravizado pelo poder econômico explorado por outros homens, privados da dignidade que o trabalho proporciona, tangidos pela febre do lucro, jungidos ao ritmo louco da produção, condicionados por leis bonitas, mas inaplicáveis, equiparados as máquinas e ferramentas. (IASI, 2006, p. 363)
Nas palavras de Iasi: “Este é o tipo de discurso que deixaria a ordem ao mesmo tempo orgulhosa da criação e preocupada com o produto” (Ibid., p. 364).
Ocorre que, se o pano de fundo econômico não apresentava minimamente tendência de progresso, o político menos ainda, e o êxito de Lula estava em se apropriar da realidade e demonstrá-la à sua categoria, indicando alternativas:
Trata-se de um diagnóstico cruel, que longe de nos desanimar, nos impele a uma ação decidida e obstinada para inverter este quadro triste e inaceitável. Temos consciência do longo caminho que nos aguarda (...). Sabemos que a vitória final será construída com êxitos parciais; com avanços e recuos e, acreditamos mesmo que nossa geração ainda amargará muitas decepções. Mas temos que legar aos nossos filhos senão um passado de glórias, pelo menos um passado de luta. (...) Um mundo melhor, melhores condições de vida é obra que nos compete construir. Nada cai do céu. Tudo se constrói com luta e com sacrifício. Em outras palavras: o futuro depende do presente, as vitória de amanhã serão frutos do que fizermos hoje. Com a certeza de que, somente pela nossa própria ação, conseguiremos atingir os objetivos almejados pela classe que representamos, apresento-lhe nosso programa. (RAINHO apud. IASI, 2006, pp. 366-367)
Lula, ao mesmo tempo que ganhava reconhecimento político, conquistava respeito junto à sua categoria, tornando-o único e muitas vezes insubstituível, dessa forma, passava a ser admirado como uma liderança operária que, talvez por sua história no chão de fábrica e
por sua aproximação ao cotidiano dos “companheiros”, recebia tratamento diferenciado, contando com o consentimento dos seus representados:
Na época tinha o Paulo Vidal, que era o presidente do sindicato, não tinha aquele impacto forte, a língua do Lula falava a linguagem daquela peãozada que tinha chegado do Norte a pouco tempo; o Lula falava a linguagem que eles gostavam de ouvir; já tava doendo a defasagem no bolso, acabou empolgando a moçada e o Lula virou a figura mais importante. Quando foi aumentando aquele empolgamento, com aquela fase do Lula, o Lula parecia um Deus, era um fanatismo muito grande dentro das empresas, o Lula mandava fazer qualquer coisa o pessoal fazia22. (Ibid., pp. 368-369)
A Organização sindical no ABC paulista contava agora com uma forte liderança que representava, para classe trabalhadora, um momento presente de novas perspectivas, criando uma nova esperança de mudança política e social que poderia romper com a sensação de paralisia política que a autocracia burguesa arbitrava:
Progresso social combatividade sindical não são apenas confluentes, mas se articulam como universalidade e particularidade. Em quanto o primeiro compreende uma infinidade de dimensões ou positividades virtuais, decorrentes da transformação e do desenvolvimento do país, irradiadas para o conjunto da sociedade, a segunda especifica benefício e beneficiário, concentrando esforços em favor das categorias sociais mais expostas à dominação e, no caso concreto, em grande medida excluídas. Ou ainda, a luta sindical, a luta cotidiana dos trabalhadores como autodefesa e combate de sobrevivência, no interior da estruturação societária que tem por lógica sua redução ao aviltamento material e espiritual, é uma forma aguda e particular, básica, embora delimitada, de dar início ao levantamento dos andaimes com vistas à construção do progresso social em sua multilateralidade genérica. (CHASIN, 1989, pp. 66-67)
O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema se constituiu, em função de sua própria história, em criador de sua liderança que se produziu organicamente. Se, para Lula, a ideologia não estava posta como núcleo central da luta de classes, essa foi substituída pela praticidade e imediatismo que configuravam as pautas das reivindicações econômicas durante sua presidência.
Dessa forma, as lutas e campanhas empreendidas a partir de sua posse no sindicato, em 1975, vão se avolumar e contribuir decisivamente para a formação política desse personagem. Alguns enfrentamentos ilustram tal processo. Como a chegada, em 1976, desse sindicato ao Tribunal Superior do Trabalho, quando recorreu de uma decisão do Tribunal
22
Depoimento de João Raimundo, operário metalúrgico, membro da Comissão de Fábrica e militante do PT de São Bernardo, 1999.
Regional do Trabalho, ficando decidido que as federações não representariam mais os sindicatos organizados, restringindo-se aos setores pouco organizados ou sem nenhuma organização. O sindicato conquistou, assim, certa autonomia em relação as federações que, no entender de Lula, era uma forma de “se livrar dos vícios que a federação impunha aos sindicatos que ela mantinha e mantém castrados” (LULA in ANTUNES, RAGO, PRADES e BARSOTTI, 1982, p.15).
Em 1977, outra decisão interna potencializou o sindicato no caminho para as mobilizações sem medo de cassação e/ou prisão dos dirigentes, já que estes tinham que entender seus mandatos de forma secundária, pois deveriam, em primeiro plano, conquistar os trabalhadores, colocando suas posições em risco. Criava-se a formação de um potencial político no plano estratégico e no plano da mobilização, ainda que os anos antecedentes estivessem carentes de experiência na luta sindical, pois, fundamentalmente, estavam separadas de seu meio principal, a greve.
Quando a primeira das grandes greves eclodiu, em maio de 1978, na fábrica da Scania, o sindicato confessadamente entendia sua inexperiência, já que foi uma greve iniciada potencialmente no interior da fábrica, fruto da organização dos trabalhadores que reivindicavam aumento salarial, já que a última campanha demonstrou resultado desfavorável23:
A greve nasceu de uma decisão espontânea do pessoal do diurno da ferramentaria. O pessoal do noturno estava saindo, quando o turno do dia entrou e não ligou as máquinas. Ninguém começou a trabalhar. Não se ouvia o menor barulho na fábrica. Eram sete horas da manhã do dia 12 de maio. Uma sexta-feira. Todo mundo marcou o cartão, mas ninguém trabalhou. Das sete até as oito horas nós ficamos de braços cruzados do lado das máquinas sem fazer nada. Às oito horas chegou o gerente geral. (...) Achou estranho, mas não pensou que era paralisação. Não entendeu nada, como também jamais poderia imaginar que ocorreria uma greve. Foi uma surpresa!24 (ANTUNES, 1988, p.13)
Lula sabia da insatisfação dos trabalhadores, no entanto, o sindicato atuou somente após os trabalhadores tomarem a decisão de parar, nas palavras de Lula:
Quanto à organização, nós não tínhamos nenhuma experiência de greve, nem eu, nem a minha diretoria tínhamos feito greve na vida, quanto mais liderado uma, quer dizer, era um desafio. A greve aconteceu no dia 12, e no mesmo dia a Scania e a Volkswagen convocaram uma reunião com a diretoria do
23 Para maiores detalhes a respeito da greve de 1978, ver Antunes (1988). 24
sindicato no Binder Hotel, com a presença do delegado regional do trabalho, que disse que eu tinha que ir lá na fábrica mandar o pessoal trabalhar. E eu falava, não vou porque eu não mandei parar, vá o senhor. E ele foi. Logo que chegou lá, tentou puxar papo com o peão e levou um esporro. O peão falou que ninguém ia voltar a trabalhar e quem tivesse pensando assim ia levar pau. Aí, ele deu no pé. O fato é que houve muita sacanagem, e percebemos o quanto estávamos despreparados para este tipo de negociação. (LULA in ANTUNES, RAGO, PRADES e BARSOTTI, 1982, p. 17)
Será a partir da greve de 1978 que o sindicato ganhará experiência de greves, passando a ganhar também repercussão nacional, caracterizando-se como sindicalismo de massas. Enfrentando suas lutas de forma isolada, ou seja, sem a adesão de outros sindicatos e sem o apoio da “Frente Democrática”, visto que esses políticos, concentrados no Movimento de Mobilização Nacional (MDB), estavam distanciados da realidade da classe trabalhadora, travando lutas na limitação dos bastidores do politicismo bipartidário, cujos representantes reprovavam a política de enfrentamento dos trabalhadores.
Alguns pesquisadores tecem críticas que apontam as limitações decorrentes do isolamento do sindicato:
Se de um lado, o movimento liderado pelo sindicato dos metalúrgicos revelava enorme capacidade de liderança e articulação – com a combatividade extraída de suas bases, com a consulta e deliberação democrática, com o estímulo à criação e organização de comissões de fábricas -, de outro, o refluxo do movimento sindical, com as prisões de suas principais lideranças e em que pese à resistência redobrada, não conseguiu o alargamento social e político das greves. Uma das debilidades do movimento grevista foi a de não buscar a unificação dos vários setores do trabalho que tinham em comum a superexploração e degradação de suas condições de vida. (RAGO, 2009, p.96)
A força do sindicato ganhará repercussão a partir dos enfrentamentos e da greve em 1979, quando esta ganha contornos políticos, principalmente a partir de março, quando o sindicato sofre intervenção federal, aparecendo como principais reivindicações: “A luta contra o intervencionismo estatal e pela democratização, autonomia e liberdade sindical, direito de greve, maior organização no espaço fabril, pela negociação direta, pela contratação coletiva” (ANTUNES, 1988, p. 27).
A partir daí, Lula enfatiza três pontos fundamentais que serão entendidos como eixo da greve, sendo: “1º garantia da volta à normalização do nosso sindicato; 2º reabertura das
negociações, pois há 11% em jogo e não vamos abrir mão desses 11%; 3º negociar os dias que estamos em greve.”25
É importante frisar que, após o acordo coletivo celebrado entre os capitalistas e os trabalhadores em maio de 1978, os empresários reagiram imediatamente no segundo semestre, demitindo funcionários e sendo orientandos, por intermédio da Fiesp, a reagirem contra as greves. Criava-se, assim, um cenário de tensão, por um lado pela reação explícita do empresariado e, por outro, pela repressão militar. Nesse sentido, a greve, no início de 1979, passa a ser encarada como um enfrentamento aberto ao regime bonapartista.
Inicia-se o ciclo de assembleias operárias, contando com a adesão massiva dos