4.1 A VIS MOT AVIS ANNO 2020
4.1.1 Artikkelutvalg 12.03.2020
Confiança é um conceito-chave na presente tese. Não à toa, trata-se do primeiro dos três termos que compõem o título da pesquisa: confiança, conhecimento e poder. Seu caráter essencialmente sociológico faz com que o termo ganhe uma multiplicidade de significados e usos. Misztal (1996), autora de Trust in Modern Societies, um compêndio bastante abrangente sobre confiança, afirma que o conceito é altamente problemático, embora seja um elemento bastante recorrente nas relações sociais. De acordo com a autora, as teorias sociais tendem a definir confiança por meio do alcance de seus benefícios e não pelo que ela realmente seja. Comprovando essa afirmação, em um levantamento feito por Mollering (2001), a confiança pode servir de base para diversas funcionalidades, dependendo do autor: comportamento de assunção de riscos individuais (James Coleman), cooperação (Diego Gambetta), redução da complexidade social (Niklas Luhmann), ordem (Barbara Misztal) e capital social (David Putnam).
Segundo Misztal (1996, p.13-14), a confiança foi compreendida historicamente pela literatura sociológica sob três formas: propriedade dos indivíduos, propriedade das relações sociais e propriedade do sistema social. A primeira abordagem enfatiza sentimentos, emoções e valores individuais. Na segunda, a confiança é vista como um atributo coletivo aplicado à fabricação institucional da sociedade. A terceira concepção define a confiança como um bem público valioso sustentado pelas ações dos membros de determinada sociedade. Para a autora, uma conceitualização adequada da confiança como noção sociológica deveria compreender a confiança como um mecanismo social, fazendo uma ponte entre os níveis de análise interpessoal e sistemático.
Uma visão da confiança como uma propriedade emergente do sistema social tanto quanto um atributo pessoal permite a essa abordagem aplicar a confiança como um conceito valioso para superar a distinção micro/macro (MISZTAL, 1996, p.14, tradução livre minha).
Isso significa dizer, em consonância com Luhmann (1979), autor também de uma obra seminal sobre o tema, que a construção de confiança em um nível micro contribuiria para elevar a confiança abstrata no nível macro. Para o sociólogo alemão, a confiança é um mecanismo de redução de complexidade da vida social. Misztal
(1996, p.98-102) incorpora essa intuição e apresenta sua própria contribuição para o tema: um conceito complexo e elaborado, em que a confiança desempenha o papel de um mecanismo protetivo que previne o caos e a desordem ajudando-nos a lidar com o volume e a complexidade da informação. A confiança reduz a ansiedade causada pela ambiguidade e a incerteza de muitas situações sociais, tornando-se uma condição necessária para que a rotina da vida social seja possível. Nesse sentido, segundo a autora, a confiança possuiria um caráter multidimensional formado por três tipos de ordem: estabilizadora (incluindo hábito, reputação e memória), coesiva (constituída pelos afetos entre familiares, amigos e sociedade) e, por fim, colaborativa (formada por políticas de solidariedade, tolerância e legitimação).
A busca pela ordem remonta aos primórdios da reflexão sociológica sobre confiança, haja vista que o conceito surge em um contexto de profundas transformações em que as convicções até então pré-existentes são solapadas diante de novas práticas e configurações sociais e históricas no que se convencionou denominar de modernidade. Segundo Giddens (1991, p.10), "os modos de vida produzidos pela modernidade nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedentes". Compreender tais transformações com o intuito de intervir e aprimorar a sociedade é, na verdade, uma tarefa incrustada no próprio cerne da constituição da sociologia e objeto de reflexão teórica dos patriarcas fundadores da disciplina: Marx, Weber e Durkheim.
As relações de parentesco, a comunidade local, as cosmologias religiosas e a tradição, denominadas por Giddens como contextos localizados de confiança, passam por profundos abalos diante da alteração radical nas relações-tempo trazidas pela modernidade. De acordo com o sociólogo inglês, "o impacto das três grandes forças dinâmicas da modernidade — a separação de tempo e espaço, os mecanismos de desencaixe e a reflexividade institucional" alterou as formas básicas de relações de confiança, tornando a vida pessoal e os laços sociais envolvidos por ela "profundamente entrelaçados com os sistemas abstratos de mais longo alcance". Três novos contextos localizados de confiança passam, então, a emergir na modernidade:
Relações pessoais de amizade ou intimidade sexual como meios de estabilizar laços sociais,
Sistemas abstratos como meios de estabilizar relações através de extensões indefinidas de tempo-espaço; e
Pensamento contrafatual orientado para o futuro como um modo de conectar passado e presente (Giddens, 1991, p.90, grifo nosso).
Como resultado de todo esse processo, a confiança em um contexto de modernidade assume novas feições. A reflexão do sociólogo inglês põe em relevo o caráter precário e permanentemente negociado das relações de confiança na atualidade. Ainda segundo Giddens (1991, p.108),
a confiança em pessoas não é enfocada por conexões personalizadas no interior da comunidade local e das redes de parentesco. A confiança pessoal torna-se um projeto, a ser "trabalhado" pelas partes envolvidas, e requer a abertura do indivíduo para o outro. Onde ela não pode ser controlada por códigos normativos fixos, a confiança tem que ser ganha, e o meio de fazê- lo consiste em abertura e cordialidade demonstráveis (grifo do autor).
Georg Simmel tinha plena consciência da nova configuração da confiança nas sociedades modernas quando lançou as bases de sua reflexão sociológica sobre o tema. Em “A Filosofia do Dinheiro”, publicado originalmente em 1900, o sociólogo alemão afirma que a maioria dos relacionamentos entre pessoas pode ser interpretada como formas de troca: “Cada interação tem de ser vista como uma troca; cada conversação, cada afeição (até mesmo se ela é rejeitada), cada jogo, cada olhar para outra pessoa” (SIMMEL, 2004 [1900], p.79, tradução livre minha). Sendo a troca a base das relações pessoais, o valor econômico dos objetos, por conseguinte, é estabelecido por meio de uma relação de intercâmbio entre os agentes e não por uma característica inerente aos objetos em si. O dinheiro, por sua vez, é compreendido por Simmel como a encarnação e mais pura expressão do conceito de valor econômico. Há, no entanto, um componente fundamental de reciprocidade nessa relação que irá sedimentar a existência ou não de confiança em uma relação pessoal mediada pela troca. Para Simmel, uma interação não é capaz de se sustentar quando uma das partes oferece algo que não possui ou quando oferece algo que só pertence a ela, ou seja, a troca, nessas duas condições, se torna inviável. Situação similar envolve a forma metalizada do dinheiro cuja transação ocorre por meio do objeto físico que é trocado, a moeda, mas sob a garantia de que aquele objeto é verdadeiro e que poderá ser trocado pelo mesmo valor posteriormente. Para descrever essa necessidade da crença a fim de que a troca se mantenha, Simmel se vale de uma inscrição latina da moeda que circulava em Malta à época: “non aes sed fides”, ou seja, “não o dinheiro, mas a fé”. O sociólogo alemão observa, portanto, que há na transação monetária um ato originário de crença. O que vale para o dinheiro também vale para o nosso sistema de relações pessoais como um todo. Sem um sentimento
generalizado de confiança das pessoas umas nas outras, acrescenta Simmel, a sociedade mesma se desintegraria. Um aspecto central no raciocínio simmeliano é de que há uma gradação no conhecimento que temos do Outro e que isso nunca ocorre de forma plena. As ações de cooperação necessitam de um certo grau de confiança, haja vista não dispormos de uma certeza absoluta sobre as intenções alheias.
Ao retratar a forma como a crença perpassa a própria economia, o sociólogo alemão apresenta como exemplo um fazendeiro que precisa ter confiança na produtividade de seu terreno para poder plantar ou de um comerciante que acredita no potencial de interesse de seus produtos perante os consumidores. Sem que haja essas pré-condições, nem o primeiro sujeito irá plantar e nem o segundo irá adquirir bens para revenda. Tais ações são levadas adiante a partir de uma experiência pretérita bem-sucedida que se espera ver efetivada novamente. Por causa disso, Simmel classifica esse tipo de confiança como uma “forma fraca de conhecimento indutivo”. Simmel (2009 [1905] , p. 226) afirma ainda que a confiança atua como uma condição intermediária para o conhecimento e o desconhecimento do Outro: "A posse de todo o conhecimento poria fim à necessidade de confiança, enquanto a completa ausência de conhecimento tomaria a confiança evidentemente impossivel".
No que tange ao crédito e à confiança em relação ao Outro, Simmel (2004 [1900], p.178) revela haver um "elemento adicional difícil de descrever que é claramente incorporado na fé religiosa". Ao contrário dos dois exemplos anteriores, contudo, trata-se de um estado mental que é, ao mesmo, tempo menor e maior que o conhecimento. Ao estabelecer um paralelo com as relações monetárias, Simmel reconhece haver no crédito econômico um elemento sócio-psicológico de fé quase religiosa que se estenderia à confiança como uma espécie de fé nas pessoas. Há nessa interpretação a constatação de que elementos transcendentais compõem a confiança. Luhmann (1979) é um dos teóricos que reconhece essa dimensão da fé como algo intrínseco à confiança. Assim como Simmel, ele também estabelece um paralelo entre economia e sociologia para compreender a crença. Em sua obra “Trust and Power”, Luhmann (1979, p.33) argumenta que
a pessoa que confia em outra busca na sua imagem subjetiva do mundo algumas pistas objetivas a fim de saber se a confiança é ou não justificada. A confiança dificilmente é possível sem alguma informação prévia231.
231 Tradução livre minha do inglês.
Há nessa afirmação a descrição de um processo de produção de conhecimento, ainda que seja nas condições de uma “forma fraca de conhecimento indutivo”, parafraseando Simmel. Luhmann se vale, no entanto, de um termo bancário para expressar o modo como essa lacuna de informação é preenchida. A pessoa que confia realiza um "saque a descoberto de informação" com base na fé pré-existente em certas características gerais já anteriormente informadas, ainda que de forma incompleta e insegura. O saque a descoberto ocorre quando a ordem de pagamento emitida é maior que o valor existente em determinada conta. Traduzindo para uma linguagem sociológica, o crédito é estabelecido mesmo sem haver informação suficientemente disponível para aquele que confia. Isso leva a Luhmann (1979, p.33) a afirmar que:
As pistas empregadas para formar a confiança não eliminam o risco. Elas simplesmente tornam o risco menor. Elas não suprem a informação completa sobre o comportamento provável da pessoa a ser confiada. As pistas servem simplesmente como um trampolim para um salto em direção à incerteza, embora de forma limitada e estruturada232.
Lewis e Weigert (1985, p.970) afirmam, de forma complementar, que "o elemento cognitivo na confiança é caracterizado por um ‘salto’ cognitivo para além das expectativas que a razão e a experiência sozinhas poderiam garantir". De acordo com Mollering (2001, p. 411), tal definição ecoa a fórmula simmeliana de que a confiança combina boas razões com fé. A fim de tornar essa formulação mais operacional, o autor fraciona a confiança em três componentes: expectativa, interpretação e suspensão. O autor se vale de uma imagem geográfica para explicar como funciona essa interrelação:
A confiança pode ser imaginada como um processo mental de salto - ativado pela suspensão, sobre o desfiladeiro do incognoscível partindo do terreno da interpretação para o terreno da expectativa (MOLLERING, 2001, p. 412).
A expectativa é o ponto final da crença. Confia-se em algo ou alguém tendo em vista um resultado futuro. Para Lewis e Weigert (1985, p.969), a confiança é uma alternativa funcional para a previsão racional no que diz respeito à redução da complexidade. Conforme os autores, a confiança ocorre onde a previsão racional
232 Tradução livre minha do inglês.
sozinha falharia, porque confiar é viver como se certos futuros possíveis racionalmente não ocorressem. Tal confiança, contudo, não é fruto de um mero conhecimento racional ou calculista, mas envolve um componente emocional.
Confiança na vida cotidiana é um mix de sentimento e pensamento racional. Excluir da análise da confiança um ou outro leva somente a erros conceituais fazendo com que confiança seja confundida com fé ou previsão (LEWIS, J.D.; WEIGERT, A., 1985, p.972, tradução minha).
A interação do policial do Reservado com seus interlocutores baseia-se fortemente em componentes emocionais. Demonstrações de interesse ou de intimidação são recursos performáticos operacionalizados para se construir relações ou obter determinadas informações. Por meio dos relatos coletados durante a pesquisa, foi possível constatar um uso instrumental da confiança pelos agentes de inteligência. O modo como isso acontece, tanto do ponto de vista conceitual quanto nas práticas cotidianas dos PMs, será explicitado a seguir.