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Na construção do novo projeto, o grupo procurou identificar quais foram as limitações enfrentadas em 2010, conforme relatado na “Historicidade do grupo”. Conforme já relatado, a falta de apoio da gestão e o não cumprimento das ações e combinados pelos educadores que constituíram o primeiro grupo foram decisivos para a não concretização do primeiro planejamento de ações sobre EA na escola. A partir delas, refletimos e procuramos verificar quais seriam as maneiras de que tais empecilhos se tornassem alternativas para as novas ações estabelecidas.

Foi possível identificar que o planejamento deveria ser interdisciplinar e com a participação de todos os integrantes, já que no ano anterior teria sido construído

apenas pelas educadoras Azul e Rosa, o que talvez tenha limitado as ações a al- gumas disciplinas e educadores (TURQUESA, Diário de pesquisa individual, 03/2011).

A educadora Rosa viu o grupo desse ano “mais comprometido com a causa

ambiental” (diário de pesquisa individual, 2011), pelo fato de os integrantes terem se

disponibilizado a participar dos encontros fora do seu horário de trabalho. Por ser uma das idealizadoras do projeto, concordou que era imprescindível sua reestrutu- ração coletivamente. Durante a reestruturação do projeto e do planejamento, surgi- ram muitos relatos esperançosos. Para a educadora Roxo:

O planejamento inspira a expectativa de realizar atividades viáveis; e que consigamos nos organizar de maneira que os planos sejam possíveis e possam ser postos em prática, associando-os aos interesses dos alunos (Diário de pesquisa individual, 18/03/2011).

A educadora Lilás compreende que é importante o planejamento e a prática coletiva das ações. A opinião dela vem acompanhada por sua crença e esperança em ser possível que as ações contribuam com um princípio de transformação das atitudes de seus educandos, compreendendo-os como possíveis multiplicadores:

Que a minha prática, aliada a de outros colegas conscientes e comprometi- dos com uma educação de qualidade, crie uma atitude transformadora e produza multiplicadores (Ibid., Diário de pesquisa individual, 2011, 03/2011, grifo meu).

Contribui a educadora Rosa:

O trabalho com os alunos vale a pena, porque eles podem multiplicar o conhecimento fora do âmbito escolar, o que é muito importante, passar para a comunidade (pais, amigos, vizinhos...) (Diário de pesquisa individual, 03/2011, grifo meu).

É possível verificar que as educadoras consideram o projeto importante por compreenderem que a tomada de consciência dos educandos e a prática de ações ecologicamente orientadas poderão influenciar outros sujeitos.

Colabora com tais questões, novamente, a educadora Lilás:

Acredito que através desse trabalho podemos formar cidadãos conscientes de seu papel na sociedade como pessoas que podem e devem evitar a po- luição e reproduzirem aos seus o que aprenderam (LILÁS, Diário de pes- quisa individual, 03/2011, grifo meu).

As propostas “certamente valem a pena, pois todo aluno que puder ser in- fluenciado fará a diferença no grupo escolar e será um multiplicador em

sua comunidade, pois uma vez saindo do universo escolar, ele poderá le- var as informações e conhecimentos de que se apropriou, a outros lu- gares que não obteriam tal informação sem a divulgação do antes edu- cando” (Ibid., 04/2011, grifo meu).

Outra educadora faz suas considerações:

Os alunos vão embora, mas fica a vivência, o espírito de equipe, a respon- sabilidade, que são importantes em todas as situações da vida. A participa- ção na escola se esgota, mas a partir daí teremos pessoas atuantes na sociedade e este talvez seja o mais importante. Os projetos duram um ano, dois na escola. As boas experiências são levadas para toda a vida (AZUL, Diário de pesquisa individual, 01/04/2011, grifo meu).

A crença de que as vivências e as experiências adquiridas pelos educandos na escola sejam importantes, vem acompanhada de anseios utópicos da educado- ra, que sonha com um mundo melhor:

É utopia, mas não custa imaginar uma escola limpa, uma cidade onde a população RESPEITA os locais que freqüenta. Jardins com flores belíssi- mas e gramado bem cuidado para visualização (olhar, admirar, não arrancar ou pisotear) e admiração.

É preciso acreditar que a educação de um povo é possível e tem valor i-

nestimável (Ibid., Diário de pesquisa individual, 15/05/2011, grifo meu).

A expressão “utopia”, expressa pela educadora na primeira parte da escrita deste excerto, pode ser compreendida como uma visão fatalista da realidade e do futuro, já que para ela é um sonho imaginar que a realidade possa ser diferente. Porém, na segunda parte do mesmo, a expressão “é preciso acreditar" nos traz a possibilidade de interpretá-la como uma esperança, da educadora, de que a educa- ção possa levar à construção dessa realidade respeitada pelos sujeitos. Esperança que tanto Paulo Freire testemunhou ao longo de suas obras, principalmente em Pe- dagogia da Esperança. Esperança que tem a possibilidade de ser fortificada a partir dos inéditos-viáveis construídos a partir das práticas escolares coletivas e reflexi- vas. Esperança de que os sonhos podem ser possíveis. “[...] a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pu- ra espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, as- sim, espera vã” (Ibid., 2003, p. 11). Fica implícito no registro da educadora que a educação escolar pode influenciar a construção de uma sociedade melhor ao pro- porcionar mais que o ensino de conteúdos. Para ela, na escola é possível que se

façam práticas que levem os sujeitos à reflexão e a respeitarem o meio ambiente, conquistando o inédito- viável de uma população mais consciente.

Colabora a educadora Roxo, expondo que com o trabalho na escola seja possível a tomada de consciência dos educandos da sua contribuição para com o futuro:

Esse projeto [...] gera a expectativa de conscientizá-los sobre a importân- cia de serem responsáveis pelo próprio futuro, saudável e feliz (Diário de pesquisa individual, 18/03/2011, grifo meu).

Concomitantemente, a educadora Dourado considera que:

A educação ambiental traz inúmeros benefícios, tanto para a educação quanto para a sociedade. Os educandos passam a conscientizar-se da importância de serem colaboradores para que o mundo seja um pouco melhor, cada qual fazendo o seu papel.

[...] Se cada um fizer a sua parte e não olhar para os erros dos outros, nós conseguiremos ajudar o nosso planeta (Diário de pesquisa individual, 18/03/2011, grifo meu).

Dessa maneira, a educadora Azul considera que as práticas devolvidas te- nham a intenção de levar os sujeitos a se compreenderem como seres transforma- dores e multiplicadores de boas ações e, para isso, é necessário que o educador persista com suas práticas, depoimentos, intencionalidades e testemunhos.

[...] é preciso “martelar sempre na mesma tecla”, assim os resultados espe- rados poderão acontecer de forma mais “rápida” (Diário de pesquisa indivi- dual, 14/04/2011, grifo da autora).

Para ela:

O tema educação ambiental deve fazer parte do cotidiano de qualquer cida- dão.

Em sala de aula, sempre há oportunidade de se vivenciar a educação am-

biental: a organização e limpeza da sala (não descartar papel ou qualquer lixo que não seja a lixeira, não riscar a classe, a necessidade de arrancar fo- lhas de caderno e em seguida fazer uma “bola” com a mesma e levá-la para a lixeira e assim por diante) (Diário de pesquisa individual, 19/08/2011, grifo meu).

As considerações expostas estão diretamente relacionadas com a compre- ensão sobre educação de Paulo Freire (2010). O autor considera a educação como um ato político, intencional e humanizador. Portanto, as crenças, intencionalidades e utopias dos educadores se fazem presentes sempre.