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Andre konsekvenser

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6.3 A NDRE KONSEKVENSER FOR KORRIDORENE

6.4.3 Andre konsekvenser

Meninos e meninas de rua

João adorava jogar futebol de salão (Futsal). Já Pedro nem tanto, mas estava

aprendendo, incentivado pelo amigo. Na Fundação de Amparo ao Menor (FUNDANOR), da cidade alagoana de Palmeira dos Índios, então, a turma dos meninos era fascinada pelo Futsal e as meninas não jogavam. Ficavam conversando, na hora do recreio. Muitas até mostravam vontade de jogarem, mas não passava disto, pois havia motivos para tanto. Carla era aluna nova na FUNDANOR, recém chegada, vinda de Palmeira de Fora, e adorava jogar Futsal. A primeira vez que quis jogar com os meninos, levou uma vaia do Jorge, pois este não admitia garotas no time...

- Vai conversar com as colegas, aqui não tem lugar para você.

Meio sem graça e sob o olhar atento de todos, ela não respondeu e foi sentar-se sozinha num canto do pátio. Quando Marina se aproximou para consolá-la, já estava em prantos.

- Não fica assim, o Jorge é estúpido mesmo. - Maldito preconceito.

- É que ele acha que Futsal é algo só para homens. Eu, por exemplo, sempre tive vontade de jogar. Nas Olimpíadas acompanhei os jogos que passaram na tevê. E vi que vários países têm ótimos times de mulheres como a China, Estados Unidos, Suécia, Alemanha e também o Brasil.

- Então, se tu gostas, por que nunca jogas? - Bem, acho que agora já descobriste o porquê.

- Bom, mas tem outras meninas que também poderiam...

- Pára, já tentei. A nossa colega Márcia, por exemplo, concorda com o Jorge e acha que Futsal é coisa só para homens e fez coro com os meninos.

- Todos os meninos têm essa visão “idiota”?

- Não, nem todos, mas sabe como é, o Jorge cai logo em cima, tipo “lidera a galera”.

- Então falta caráter pros outros meninos. - Pois é.

- Bom, meu nome é Cristina, prazer.

- Igualmente. O meu nome é Fernanda, mas pode me chamar de Nanda para facilitar.

- Não vou desistir, e se vocês toparem podemos jogar um dia desses.

- Bem, eu gostaria, e tem outras amigas que também gostariam, mas sabe como é, nem sabemos direito, as regras do jogo, podemos errar e aí é que o fiasco rola solto. - Claro, teremos que ver isto. Mas posso ajudar. Sei bem as regras, e podemos treinar. Sem essas desculpas, e para isto acontecer, vocês precisam querer, o resto a gente dá um jeito.

- Então ta certo, vamos combinar. - Podemos começar hoje.

- Bom, os meninos ocupam a quadra todos os dias. - Vamos negociar, um dia eles a usam e outro, nós. - Vai ser difícil eles concordarem.

- Não é justo nem correto que, se nós quisermos, não possamos. Cadê nossos direitos?

No dia seguinte, Cristina já estava enturmada e as meninas ansiosas para jogarem Futsal. Ela deixou claro que todos deveriam conhecer as regras que o jogo pudesse rolar bem. Quanto à habilidade de cada uma, seria uma questão de tempo e treino. Mas o maior desafio estava por vir. Jorge, logo que soube da intenção das meninas, reuniu os meninos para que não aceitassem o acordo proposto. Nem todos concordaram com ele, mas houve um grupo forte que, fazendo coro com Jorge, não queria de jeito nenhum que as meninas jogassem na quadra, e não iriam negociar. João e Pedro bem que tentaram entender o lado delas, mas Jorge impôs sua vontade e combinou que, se não houvesse jeito e tivesse que ceder a quadra, faria de tudo para atrapalhar até as meninas desistirem. Nisso aparece Cristina.

- Bom, desculpa, não queria atrapalhar, é que conversando com as meninas, nós decidimos que também queremos jogar futebol de salão, e por isto vim negociar a quadra com vocês.

- O quê? Elas nunca se interessaram por futebol de salão! Isto é coisa tua. Não entendeu ainda que futebol de salão é coisa para homem?

- Aquele dia, Jorge, eu não quis complicar, mas, pelo visto, o teu estilo “machão” não vai deixar, nem se esforçar para entender.

- Nem vem, a quadra é nossa. Por que não vai conversar sobre novela, hein? - Jorge, ta pegando pesado.

- Não se meta nisso, Alexandre.

- É bom saber que nem todos são como tu, Jorge. Bom, eu não queria, mas vou além para garantir nossos direitos. Querendo ou não, a quadra vai ser um dia nossa e outro, de vocês.

- Vai, vai correndo falar com a diretora.

- Eu vim aqui para negociar numa boa. Tu é que ta ofendendo. E eu não vou entrar neste tipo de jogo. Tchau.

- Vai, por que não volta para a rua, lá é o teu lugar.

Não adiantou. Jorge relutou muito, mas a quadra acabou sendo dividida: um dia para os meninos e outro para as meninas. O clima andava tenso, pois Jorge e um grupinho não se conformavam com a nova situação, vaiavam e debochavam o tempo todo do jogo das meninas. A pressão era tanta que, aos poucos, as garotas foram desistindo; por fim só

sobrou a Cristina e Carla. Jorge estava achando todo isto ótimo. Então Cristina resolveu desabafar no banheiro das meninas.

- O que está acontecendo? Vocês vão se deixar vencer pelo preconceito de alguns?

- Olha, Cristina, valeu tua iniciativa, mas com o Jorge e o grupinho dele não dá. E eu não to a fim de me incomodar mais.

- Mas eu tô, Carla, acho que não podemos perder a chance de mostrar nosso valor.

- Eu não agüento mais eles debochando toda vez que eu pego na bola.

- E daí, tu estás tentando. Não percebem que eles querem acabar com o que conquistamos? Se formos firmes, fortes e não tivermos vergonha, conseguiremos manter nossa conquista. Então, quem topa recomeçar pra valer?

- Mas...

- Não tem “mas”. É preciso ser forte e não desistir. Se não for assim, vou lá, dou parabéns para ele. Acreditem, hoje ele diz que Futsal não é pra mulheres, amanhã ou depois ele vai namorar e aí se casar, sei lá, e dizer que o lugar de mulher é na cozinha, cuidar dos filhos etc. e tal.

- Ah não, isso não.

- Só quem sofreu na pele o preconceito sabe como é, dói muito. E aí, vamos encarar?

- Ta, Tou contigo (Carla).

- Se é pra conquistar nosso espaço, eu volto (Fernanda). - É isso aí. Valeu pessoal (Cristina).

Aos poucos as meninas foram voltando à quadra e o grupinho comandado por Jorge desistiu de vaiar. Aos poucos, alguns meninos foram se enturmando e jogando com as meninas, o que melhorou, em muito, o relacionamento do grupo de meninos e meninas de rua que moram e estudam Educação Popular na FUNDANOR. Bem, o Jorge não aprovava, é claro, mas agora, pelo menos, já admite esta nova realidade que não encontrou na rua (MAGALHÃES, FARIAS & FARIAS, 2006, pp. 03-08).

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