Kapittel 5. Analyse av funnkontekst
5.8. Andre gjenstander i gravene
O desafio do sujeito autobiografado, ao transformar sua história de vida em filme, concentra- se na forma de organizar sua própria história, sendo fiel aos acontecimentos, ao mesmo tempo em que a dramatiza. Daí se iniciam as escolhas em um universo muito grande de possibilidades técnicas, narrativas e estéticas.
Após uma temporada na Áustria, Marjane Satrapi volta para o Irã e estuda Comunicação Visual na Faculdade de Belas Artes, em Teerã (FIG. 19).
FIGURA 19 - Fotograma do filme Persépolis, a 1h15min25s
Mas, mesmo com o fim da guerra, ela não permanece em seu país:
1h11min37s - Marjane, em off: “No início dos anos 90, a época das grandes ideias havia acabado. Após a revolução, o governo havia prendido tantos estudantes que não ousávamos mais discutir política. Finalmente a guerra tinha ficado para trás. Buscávamos tanto a felicidade, que esquecíamos que não éramos livres.
A repressão, o conservadorismo e a consequente falta de liberdade e de perspectivas democráticas em seu país obrigam Marjane a se exilar novamente. Dessa vez, ela se estabelece na França, onde atua como autora e ilustradora. Em 2002, Marjane publica sua autobiografia em quadrinhos, Persépolis, que atualmente tem quatro volumes.
O traço de Satrapi é expressivo. Seus desenhos se assemelham à técnica e características de xilogravuras populares, reforçada pela estilização de figuras e movimentos, pela não utilização da cor e a opção pelo contraste entre claro e escuro. [...] A estilização de seu desenho e, sobretudo, na representação de figuras humanas está relacionada à formação em Arte que a artista teve em seu país (MENDONÇA, 2006, p. 50).
O filme em animação, lançado cinco anos depois, manteve os traços básicos do desenho original das histórias em quadrinhos. A diferença é que, no cinema, os traços de Marjane ganham texturas e outros tons de cinza. No entanto o suporte fílmico exige uma nova narrativa. Não se trata apenas de animar os desenhos preexistentes, como explica Marjane:
A narração cinematográfica é bem diferente da narração em quadrinhos. Embora haja imagens, temos que pensar como outro trabalho. Você faz os storyboards, e é aí que mora o perigo. Se você for pegar os quadrinhos do livro e filmá-los um após o outro, não vai ficar bom (DVD 2 - Menu “Os detalhes que você não viu de
Persépolis”, aos 2min29s).
Mas entre a computação gráfica e o tradicional desenho à mão, opta-se pelo lápis e papel, apesar de o trabalho ser bem maior. Porém garante certa essência, como acredita Marjane Satrapi:
Claro, isso leva mais tempo, mas qualquer coisa feita por máquina envelhece muito rápido. Pode parecer legal hoje, mas, daqui a cinco anos, estará datado. Além disso, as máquinas produzem uma imagem perfeita, quando seres humanos são imperfeitos. Não é absolutamente a imagem de um ser humano. Há algo errado com essa frieza, com essa perfeição que não diz respeito a nós. Há uma vibração na mão
que traz a imagem à vida. […] Não fazem desenhos com hidrográfica na França há
20 anos porque é caro e trabalhoso. Nos nossos desenhos, a grossura das linhas não é regular. De um desenho a outro, você precisa da mesma grossura naquele ponto para a imagem não balançar (DVD 2 - Menu “Os detalhes que você não viu de
Persépolis”, aos 4min14s e aos 12min8s).
Para explicar melhor o processo de finalização, Frank Miyet completa:
Com nossa equipe de 20 pessoas, nós fazemos o trabalho gráfico necessário para os desenhos de Marjane. Nós trabalhamos com as grossuras das linhas, nós as fazemos mais grossas, em preto. Como você pode ver, os desenhos chegam a nós com linhas finas e precisas, e podemos confiar totalmente nelas. Mesmo que as linhas não sejam
muito grossas, nós reforçamos as linhas em cada desenho. […] Cada um deles.
Todos os desenhos são retocados com canetas de diferentes espessuras para mantermos a unidade gráfica do Persépolis original (DVD 2 - Menu “Os detalhes que você não viu de Persépolis”, aos 12min26s).
Uma vez que a diretora e autora da obra original já se expressou nesta por meio da estética dos quadrinhos para narrar sua história de vida, parece pertinente a motivação em optar pela animação na transcriação audiovisual. A própria Marjane comenta:
A razão por usarmos animação e não imagens reais é simples. O desenho tem a qualidade abstrata. Se usássemos imagens reais, seriam alguns árabes num país. De cara, seria um filme étnico. Seria o problema daquele povo que vive lá longe e é fanático por Deus. Mas o desenho, como é abstrato, enfatiza o seu caráter universal. Não importa quem seja; uma ditadura é uma ditadura, seja no Chile, na China, no Irã ou em outro lugar; é igual. O desenho tem essa qualidade abstrata que o faz imaginar que isso pode acontecer em qualquer lugar. Além disso, há cenas oníricas no filme que seriam impossíveis de filmar sem transformá-lo numa ficção científica, porque é algo onírico, poético. O desenho também permite isso, mantendo a coerência (DVD 2 - Menu “Os detalhes que você não viu de Persépolis”, aos 3min6s).
Dessa forma, o caráter lúdico da animação (assim como o “abstrato”, segundo a própria autora) por si já evidenciaria uma visão própria de “representação” da história de vida da
cineasta. Nesse sentido, o traço de Satrapi, estilizado e simples, por meio da animação, auxilia a representar, com eficácia, a percepção de uma criança diante do que ela via e sentia: o
mundo “real” e, ao mesmo tempo, imaginário do universo infantil (FIG. 20).
FIGURA 20 - Fotogramas do filme Persépolis
As representações caricaturais, possibilitadas pela animação, também permeiam os pensamentos de Marjane/adolescente e corrobora a intenção de o filme chamar a atenção para
uma “narrativa de vida” em um contexto universal e não particular. O codiretor, Vincent
No início do projeto, eu e Marjane decidimos evitar os exotismos nas partes sobre o Irã. Essa foi uma das principais razões por que resolvemos usar a animação para fazer Persépolis. Não queríamos situar claramente os acontecimentos no filme. Ele se passa no Irã, mas podia se passar em qualquer lugar do mundo. Quem vê as ruas de Teerã pode se sentir em São Francisco, em Cincinnati, não importa. Bom, depois há o personagem de Marjane, que vai a Viena. Nós queríamos marcar uma ruptura de modo que o espectador fosse... Como dizer? Ele se surpreendesse junto com ela. Então, todo o exotismo foi concentrado em Viena, mas de um jeito caricatural. Por exemplo, nós usamos a música de Strauss, os bavarois e todas essas coisas. O cenário é a ideia que ela faz da Disneylândia e foi uma escolha para fazer o espectador entrar em outro mundo com o personagem de Marjane (DVD 2 - Menu
“Seleção de cenas comentadas”, aos 4min55s).
A ausência de tecnologia, na época, aliada à repressão político-religiosa justificam a falta de registros em fotos e vídeos, o que a animação pode suprir, ancorando seu lastro de veracidade ao testemunho autobiográfico de Marjane e ao contexto histórico, ambos comprováveis. Assim foi possível à roteirista/diretora representar as cenas reais, ainda que inexistentes (FIG. 21).
FIGURA 21 - Fotograma do filme Persépolis
A imagem se refere à seguinte cena: 30min16s - Marjane, em off: “Para ser psicologicamente mais suportável, havia festas, longe dos olhares. Em geral, havia muita bebida nas festas. Como o álcool era proibido, meu tio se tornou o fornecedor de vinho da família. Ele tinha montado um laboratório no porão. A
Sr.ª Nassrine, que também era faxineira do meu tio, ajudava a esmagar as uvas”.
Por meio da animação, Marjane encontrou uma forma de ilustrar e denunciar temas censurados pelas autoridades que ainda controlam os roteiros do cinema iraniano, tais como contrabando de produtos ocidentais, organização de festas, sexo, consumo de bebidas e drogas (FIG. 22).
FIGURA 22 - Fotogramas do filme Persépolis
Mas o principal objetivo do governo iraniano em relação ao cinema é ideológico: controlar os
valores morais e inclinações políticas do diretor. “A atual política do Estado iraniano em
relação ao cinema tem sido promover uma nova geração de diretores, que esteja dedicada a projetar na tela uma imagem da sociedade islâmica desenhada pela Revolução Islâmica” (MELEIRO, 2006, p. 127).
Assim, a ala conservadora do governo procura afastar o cinema iraniano da realidade social do país. Entretanto Marjane consegue exprimir suas ideias e críticas a essa realidade por meio de seu filme realizado com as possibilidades da animação, buscando, ainda, inspiração na estética do Expressionismo.75 Como já mencionado, o ator Iggy Pop, dublador de tio Anouche
na versão inglesa do filme, identificou esses traços no trabalho de Marjane, desde a produção de Persépolis em HQ: “Ela tinha um visual muito parecido com meus filmes expressionistas
alemães prediletos” (DVD 2 - Menu “Os bastidores de Persépolis”, aos 4min9s).
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75“O termo ‘Expressionismo’ foi usado pelo crítico de arte Herwarth Walden para caracterizar toda arte moderna oposta ao Impressionismo” (NAZARIO, 1999, p. 149).