O que chamaríamos de práticas de comunicação existe desde sempre, uma vez que o homem sempre se comunicou. São práticas da Humanidade como a linguagem e o utensílio, legados recebidos do homem pré-histórico. As formas simples e primitivas de comunicação do homem, que se desenvolveram e se especializaram, são ainda utilizadas, apesar do surgimento constante das novas tecnologias e das complexas relações sociais em todas as sociedades. As imagens precederam as palavras e se perpetuaram nas inscrições rupestres que chegaram aos nossos dias demonstrando aquela forma de comunicação.
A linguagem foi um progresso significativo na comunicação humana por permitir a transmissão do conhecimento, das tradições. As linguagens corporais e não verbais são há milênios indispensáveis nas sociedades tradicionais. Nessas, a comunicação interpessoal têm importância fundamental principalmente para as populações rurais dos países em desenvolvimento que constituem significativa parcela da população mundial. Em coletividades cujo isolamento, pequena dimensão ou o analfabetismo permitiram a sobrevivência da tradição, a linguagem, a ação e o exemplo são, por vezes, a única forma de transmitir a informação. A comunicação interpessoal continua a ser fundamental para a existência de sociedades democráticas e “reveste-se [...] de um novo significado diante da tecnologia moderna e dos efeitos de alienação que traz consigo” MacBride (1983, p.77). Entretanto, tais formas de comunicação interpessoal são, por vezes, desconsideradas e o interesse de pesquisadores e profissionais é focado nos meios de comunicação social como fonte de informação e de idéias.
“Por ser o meio pelo qual uma pessoa exerce influência sobre a outra e também pode ser influenciada, a comunicação é o verdadeiro portador do processo social. Ela possibilita a interação e por meio dela os homens se tornaram e permanecem
seres sociais.20 Como a acumulação de conhecimento leva a novas descobertas e a avanços significativos na ciência e na sociedade que deverão ser transmitidos, apenas processos muito elementares poderiam ocorrer sem a comunicação. A própria sociedade pode ser definida como uma vasta rede de acordos mútuos. Contratos oficializados ou convenções verbais sobre comportamentos convencionados como aceitáveis. [...] A eficácia desses acordos depende da capacidade que tenham os homens de se comunicarem uns com os outros como afirmaram Hartley e Hartley (1970).
A comunicação realiza para o indivíduo três funções importantes, pois padroniza o mundo ao seu redor; define a sua condição frente aos demais indivíduos e, por fim, ajuda na sua adaptação com êxito ao meio. Dessa forma, a comunicação irá exercer influência significativa sobre a formação da personalidade e do sentido do eu, permitindo ao indivíduo perceber padrões e valores do grupo que orientarão o seu próprio comportamento. A linguagem é o instrumento pelo qual se realiza com maior frequência a comunicação, e contém as definições e as limitações que individualizam o mundo externo. Pode ser considerada uma acumulação de experiências humanas simbolizadas e o reflexo da vida do grupo. As experiências e as diretrizes para a condução individual em um grupo se realizam por meio das palavras. Pela comunicação com os seus semelhantes o indivíduo chega a pensar e a sentir em função desses símbolos, quer em relação aos objetos e acontecimentos externos como em relação a si próprio. (HARTLEY; HARTLEY, 1970).
A intersecção da linguagem com a técnica somente se inicia a partir de 1942, quando a comunicação percebe-se como um universo autônomo. Quando nasceu a moderna noção de comunicação entre os anos de 1942 e 1948, a maioria das técnicas de comunicação que hoje conhecemos já estavam em prática ou sendo colocadas em funcionamento. McLuhan popularizou nos anos 1960 a tese de que as grandes etapas da história da Humanidade derivaram diretamente das inovações no domínio das técnicas de comunicação. Para o pesquisador canadense as sociedades humanas seriam estabelecidas nos planos cultural, intelectual e social pelas grandes técnicas que foram a escrita, a imprensa e os próprios meios de comunicação de massa.
20 Habitualmente o termo cultura refere-se a produtos, conhecimentos, tradições, habilidades e crenças partilhados por um grupo de pessoas e que serão transmitidos por gerações. Portanto, sua própria existência estará baseada na ocorrência da comunicação, sem a qual não haveria partilha entre contemporâneos ou sucessores (Hartley;Hartley,1970).
A comunicação no sentido em que a entendemos hoje é uma noção de origem bastante recente. A palavra já utilizada há muito tempo expande as áreas de significação que o conceito internaliza a partir do século XX. A primeira etapa da construção da noção moderna de comunicação atribuirá a essa designação algumas práticas até então sem nomenclatura. A noção de comunicação nascerá no universo científico pelas mentes de um grupo de cientistas de várias áreas do conhecimento, colaboradores de Norbert Wiener, no seio do movimento da cibernética, que ligará práticas até então dispersas. Além de desempenhar um papel unificador se identificará com a modernidade. A comunicação passará a ser entendida como o encontro entre a operacionalização técnica da linguagem e a inovação do domínio das técnicas que possibilitaram impor a palavra sob a forma de uma mensagem, como salienta Breton (1994). Para Weaver21 (1949 apud Steinberg, Charles, 1970, p. 36-37) a comunicação inclui todos os processos pelos quais um espírito pode influir em outro, bem como uma interação social significativa.
Existe uma unidade profunda entre todos os setores relacionados com a comunicação que, longe de se processar nas diferentes técnicas materiais da comunicação, surgirá de forma mais contundente como uma unidade no plano da ideologia que os liga no interior de um mesmo sistema de valores e de representações do mundo. Essa ideologia faz da “ação de comunicar” um dos imperativos essenciais de nossa sociedade e apresenta-se como um recurso das ideologias políticas ou como uma alternativa às ideologias políticas. Sob certos aspectos, essa ideologia é extremamente utópica por evocar uma “sociedade de comunicação” transparente, racional, consensual e pretensamente harmoniosa (BRETON; PROLUX, 2000).
Partindo de um breve retrospecto, o aparecimento histórico e a moderna noção de comunicação, forjados nos anos 1940, e o discurso contemporâneo sobre a comunicação e o seu papel social foi praticamente instituído imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial. Pode-se afirmar que o ideal moderno de comunicação decorre de três importantes transformações radicais que explicam os aspectos essenciais da modernidade, conforme assinalaram (BRETON; PROULX, 2000 ,p.272)
Em primeiro lugar a definição de homem novo. Por intermédio de uma verdadeira mutação na representação do que é o homem, a cibernética, a ciência da comunicação criada em 1942 por Norbert Wiener irá pôr à frente, como nunca acontecera até então, o papel da comunicação na definição de ser humano [...] . Em seguida, o aperfeiçoamento de uma
nova ideologia, a ideologia da comunicação que se constitui como
alternativa às ideologias da barbárie cujo confronto [...] arrasa o mundo de 1915 a 1945. A nova ideologia que aponta como inimigos o ruído, a entropia, a desorganização, deve sem dúvida uma parte do seu êxito ao facto de se apresentar como uma ideologia sem vítima, num contexto em que a guerra fria e a ameaça do holocausto22 nuclear se sucederam
à guerra mais mortífera23 que a humanidade alguma vez conheceu.
Finalmente, o projeto de uma nova sociedade, a sociedade de
comunicação. Essa nova utopia social, prevista pelo pai da cibernética,
terá suas características distintivas: por um lado, será uma organização social inteiramente centrada na circulação da informação; por outro, as máquinas, nomeadamente as máquinas de comunicar, desempenharão nela um papel decisivo.
Antes de Wiener ter percebido a importância da comunicação nas sociedades humanas este tema já havia sido abordado por antropólogos como G.H.Mead ou Gregory Bateson. A importância com que Wiener é reconhecido na abordagem do campo se dá pelo fato de seu pensamento ter deslocado a comunicação de um tema importante para o centro de todas as coisas.
Ele propôs de fato uma visão do mundo global e unificada organizada em torno da comunicação. Essa incorporará todas as disciplinas e fará da comunicação um valor de amplo alcance social e político. Construindo a partir desse pressuposto uma nova utopia Breton; Proulx, (2000). Nela o interior não existe, a interioridade é um mito e resulta na melhor das hipóteses da metafísica e na pior da ilusão. Na hierarquia proposta por Wiener o critério é o da complexidade do comportamento de permuta da informação. Quanto mais um ser for complexo mais alto se elevará na escala de valores do Universo. E neste ponto de seu raciocínio, como afirma Breton (2000), aparecerá a retroação ou os famosos inputs (mensagens de entrada) e os outputs (mensagens de saída). Ela servirá para garantir a capacidade do recebimento e da emissão de informações necessárias à manutenção do equilíbrio.
22 Ironicamente passado o período da guerra fria e do medo de que o botão vermelho ou o botão errado fosse apertado, dois acidentes nucleares como há três décadas o de Chernobyl e recentemente o de Fukushima quase concretizam a antiga ameaça.
23 Até aquela época. As guerras contemporâneas e as Novas Guerras, cujos alvos passaram a se constituir a população civil, fazem mais vítimas que as guerras tradicionais.
Uma das consequências da aceitação do pressuposto de que tudo é comunicação é a abolição da barreira clássica que separa o natural do artificial e à desbiologização da inteligência e do espírito (mind).
O processo utópico que se desenvolve em torno da comunicação é ambicioso e resulta em três níveis: (i) uma sociedade ideal, (ii) uma outra definição antropológica do homem (iii) e a promoção da comunicação como valor. Esses três níveis concentram-se e torno do que Wiener chamará de Homo communicans. Ele será um ser sem interioridade e sem corpo, que vive em uma sociedade sem segredos, um ser dedicado inteiramente ao social, que afirma a sua existência por meio da informação e da permuta em uma sociedade transparente. Transparente em função das novas máquinas de comunicar. Essas qualidades do homem de comunicação, que se alinham aos ideais do homem moderno, são para Wiener uma alternativa à degradação do ser humano resultante de um século mortífero XX.24
As novas concepções desenvolvem-se em torno de dois eixos: (i) todo ser que comunica em certo nível de complexidade é digno de ver reconhecida a sua existência como um ser social; (ii) e não será o seu corpo biológico que fundamentará a sua existência enquanto ser social, mas a sua natureza informacional. Já não existe o ser humano, mas seres sociais, definidos pelas suas capacidades para se comunicar socialmente. Uma nova humanidade abrange todos os homens, mas inclui todos os seres no estatuto parceiro comunicante de pleno direito. Este novo pensamento antropológico não é um pensamento humanista, pois não considera o homem o centro de todas as coisas. A partir dessa concepção “a vida deixa de estar na biologia, para passar a estar na comunicação” Breton; Proulx (1992, p.47). A comunicação introduz assim o homem em relação direta com outros seres e definido em termos de comportamento de troca de informação.
O homem de Wiener constituirá as bases do homem moderno ideal, a que a nossa cultura contemporânea se refere. Não mais guiado a partir do interior e buscando uma intuição interior ou uma harmonia interna, volta-se para o exterior. Os modelos de comunicação e de comportamento serão os pontos de referência para a orientação no mundo. O papel dos media será indiretamente o instrumento essencial
24 As origens da Segunda Guerra devem-se aos agressores Alemanha, Japão e a Itália , de forma mais hesitante. E a pergunta sobre a causa da Segunda Guerra Mundial é respondida por um nome: Adolf Hitler.
A Segunda não produziu tantos monumentos ao soldado desconhecido e, depois dela, a comemoração do Dia do Armistício, ocorrido em 11 de novembro de 1918, foi perdendo sua solenidade. Talvez 10 milhões de mortos parecessem um número mais brutal para os que jamais tivessem esperado tal sacrifício, do que 54 milhões, até 1945, para quem já havia presenciado a guerra como um massacre antes (HOBSBAWN, 1995, p.56).
para que o homem possa reagir adequadamente ao mundo. Assim, a representação do homem como ser comunicante está associada a metáfora que faz a ligação entre o cérebro humano e o computador em um ser sem corpo, como concebeu Wiener.
As máquinas têm direito, após 1942, ao estatuto de seres comunicantes que podem ser comparadas ao homem no domínio da comunicação. Para Wiener o funcionamento do indivíduo vivo e de algumas máquinas de transmissão se revelariam paralelos. A crença na possibilidade das máquinas se tornarem inteligentes será um dos aspectos básicos do mito da modernidade. E da sociedade da comunicação de que todos fazem parte e cujo vigor reside na capacidade de libertar as suas forças comunicacionais intrínsecas. A nova sociedade articula-se em torno da transparência social, que une homem e sociedade. O processo da informação é uma troca com o mundo exterior, que pressupõe ajuste a adaptação a ele, e viver adequadamente informado. Nesta concepção qualquer entrave ao movimento e circulação de uma informação conduziria à decadência social. Wiener afirmava que a comunicação é o cimento da sociedade e que “as pessoas cujo trabalho consiste em manter livres as vias de comunicação são, precisamente, aquelas de quem depende sobretudo a perenidade ou então a queda de nossa civilização” (BRETON, 2000, p. 284).
A questão se amplia e nos anos 1960 Jean D`Arcy foi um dos primeiros promotores do “direito à comunicação” quando afirmou que chegaria o dia em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos teria que incluir um direito mais amplo que o direito do homem à informação.25 Esse seria o direito dos homens de se comunicarem. (D´ARCY, 1969). O que motivava o novo enfoque era a observação de que as disposições nos direitos humanos ratificaram a Declaração Universal de Direitos Humanos e o Pacto dos Direitos Civis e Políticos. O reconhecimento do
25 D´Arcy estabeleceu as etapas sucessivas para a adoção: na época da ágora e do foro, da comunicação interpessoal direta, surge o conceito básico para todo o progresso humano e para toda a civilização – a liberdade de opinião (...) o surgimento da imprensa, que foi o primeiro dos meios de expressão de massas, provocou, pela sua própria expansão e contra as prerrogativas de controle reais ou religiosas, o conceito correlato de liberdade de expressão (...) O século XIX, que presenciou o extraordinário desenvolvimento da grande imprensa, caracterizou-se por lutas constantes em prol da liberdade (...) A chegada sucessiva de outros meios de comunicação de massas – o cinema, rádio e televisão –da mesma forma que o abuso de todas as propagandas em véspera de guerra, demonstraram rapidamente a necessidade e a possibilidade de procurar, receber e difundir as informações e idéias sem consideração de fronteiras (...) por qualquer procedimento. Hoje em dia parece possível um novo passo adiante:o direito do homem à comunicação,derivado de nossas últimas vitórias sobre o tempo e o espaço, da mesma forma que da nossa mais clara percepção do fenômeno da comunicação (...) Atualmente, vemos que engloba todas as liberdades, mas que além disso traz, tanto para os indivíduos quanto para as sociedades, os conceitos de acesso, de participação , de corrente bilateral de informação, que são todas elas necessárias como percebemos hoje para o desenvolvimento harmonioso do homem e da humanidade” ( Le droit
direito de comunicar-se é essencial se desejamos que a governabilidade global das “sociedades da comunicação” considere a preocupação com o respeito aos direitos humanos (HARMELINK, 2003). Isto significa não aceitar os Estados, mercados ou as tecnologias como as diretrizes. Mas que os interesses dos povos sejam definidos como as diretrizes do modelo de mundo que queremos e que deveremos seguir.
A globalização encerra em si a metáfora de uma sociedade de comunicação viabilizada pelas tecnologias da informação. A aldeia global imaginada por MacLuhan é a metáfora que revela a percepção da globalização. Ela evoca a experiência hoje cotidiana de uma comunidade de comunicação, sustentada em tecnologias da informação que se desenvolvem a um ritmo prodigioso. De acordo com Pureza (1998, p. 41) “a identidade predominantemente televisiva da aldeia global está a suceder o acesso direto de cidadãos às fontes de informação privadas [...] e os grupos de discussão eletrônicos através da disposição de meios informáticos em rede”.
A metáfora da aldeia global é um mecanismo de ocultação, uma vez que obscurece o passado de controle estatal sobre a informação, para consolidação das identidades nacionais. E cede espaço para a mundialização cuja fundamentação é o princípio da rentabilidade máxima da informação-mercadoria a que é submetida à sociedade. A metáfora da aldeia global é ilusória posto que a informação, agora mercadoria, reproduz um sistema hierárquico de dominação do sistema mundial. E, longe de ser planetário e de sustentar uma verdadeira comunidade de comunicação, dissimula a concentração e a maior assimetria entre países e regiões do globo (PUREZA, 1998). Também no que tange a informação e a comunicação
O acesso à informação na ponta dos dedos, hoje banal, possui uma velocidade antes difícil de ser imaginada. Mas preconizada desde a temida sociedade totalitária criada por Orwell na obra 1984, onde o grande irmão exigia a cega obediência, fabricava a verdade, a ascensão e a queda de ídolos. Ou na epopeia de Júlio Verne, com a descoberta de que o interior é como o exterior, A Viagem ao centro da terra revela “um novo jogo metafórico ao redor de uma rede de significações”. Nela a imagem, a forma e a aparência vão ser cada vez mais valorizadas e, sobretudo, os mesmos termos servirão para descrever o que se passa no homem e os seus comportamentos externos afirmavam Breton e Proulx (1994, p.51).
Avançando ao modelo da comunicação a partir das mídias de massa – cinema, televisão, rádio – ainda o principal referencial da comunicação atual e que é
mediada pela técnica, pela ausência de diálogo e direcionada para receptores potenciais indefinidos. Estabeleceu esse uma sociabilização midiática própria, reveladora do espírito desta época, superando barreiras geográficas e culturais, transformando a circulação de bens simbólicos em um mercado de significância econômica e social (PUNTEL, 2010). E que encerra a intencionalidade de seus produtores e a lógica industrial de sua produção.
A comunicação dialógica não presencial é o elemento novo e instaura um modelo diverso que reestruturará o ambiente comunicacional, afirma Puntel (2010). Combinará a relação dialógica e a mediação técnica, permitindo a simulação do modelo que integra o diálogo e que fundamenta o conhecimento humano. Desconsidera barreiras de tempo e espaço em uma interação mediada pela máquina. Pelo computador, no ambiente do cyber espaço, em chats, emails, teleconferências e em listas de discussão. O modelo se soma aos precedentes constituindo nova configuração. Ou inaugurando uma construção social, a partir da tecnologia digital, que opera redimensionada em relação ao espaço-temporal clássico. Nessa rede comunicativa é possível o contato com todos, em todos os lugares do mundo, determinando um reordenamento da realidade.
3.2 Da Guerra
Como afirma Morin (1998) o século XX dotou-nos ao preço do sangue, do terror e da morte. A experiência-chave do século é a de uma reação em cadeia, deflagrada em Sarajevo em 1914 e que desencadeou a Primeira Guerra. Esta suscitou o comunismo totalitário, o fascismo italiano, o nazismo. O partido de Hitler surge de uma crise econômica sem precedentes. Origina a Segunda Guerra Mundial que abre caminho para a guerra fria e que terminará com a implosão da União Soviética. O fim do império do proletariado agravou a crise do futuro, pois motivou a eclosão tumultuosa de nacionalismos.
As regressões do século XX fizeram surgir guerras, crises, nacionalismos, socialismos que, diagnostica o filósofo francês, deram vida ao novo monstro histórico do totalitarismo. O século que passou fez-nos viver a experiência de uma religião da salvação terrestre, que se desintegrou na sua realização e mostrou que a
revolução ressuscitava uma pior forma de exploração do que a que deveria ser aniquilada.
Nos regimes totalitários e em situação de conflito a comunicação é feita de forma unilateral – dos governantes para os governados sendo uma das características fundamentais dos regimes antidemocráticos. É preciso fazer a distinção entre a comunicação - um processo que deverá ser participativo e de diálogo - e a informação como canal de difusão vertical.
O estilo verbal e a retórica cortante de Mussolini ou a linguagem mítica é de uma irracionalidade confinante ao histerismo de Hitler, e exemplificam historicamente que os governantes totalitários não se propunham - como não se propõem - minimamente a informar, mas sim impor o seu ponto de vista mediante uma hábil mescla de persuasão emotiva e de ameaça, permeada de um tom de exasperada exaltação nacionalista, ou racista.
Mais que a informação propriamente dita havia ainda uma comunicação unilateral, seguida de decisões tomadas sob bases irracionais. Segundo essa concessão a política seria decisão pela decisão, puramente e simplesmente comunicada de modo tal que deveria ser aceita mais ou menos carregada de