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ANBEFALINGER FOR DET VIDERE ARBEID MED NASJONALT KVALITETSINDI- KVALITETSINDI-KATORSYSTEM I NORGE

Nyresykdom X Kardiovaskulær mortalitet X

ANBEFALINGER FOR DET VIDERE ARBEID MED NASJONALT KVALITETSINDI- KVALITETSINDI-KATORSYSTEM I NORGE

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Nesta pesquisa, realizamos uma análise de dois casos que consideramos bastante importantes para entender como, no Brasil, mobilizações sociais realizadas com base na internet começam a ter força para ocupar as ruas, consumando também no país a dissolução entre espaço digital on-line e espaço físico real. Ambos os casos correspondem a manifestações organizadas na cidade de São Paulo, através das redes sociais digitais, especialmente pelo Facebook e pelo Twitter: o “Churrascão de Gente Diferenciada”, realizado em 2011, e o “Festival Amor Sim, Russomano Não”, de 2012.

O primeiro surgiu como um movimento de oposição à mudança de uma estação de metrô em Higienópolis, bairro de luxo na capital paulista. O início do debate sobre o tema data de 2010. Em agosto daquele ano, a versão on-line do jornal Folha de S. Paulo publicou uma matéria8 sobre a mobilização de um grupo de moradores para impedir a construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica, principal via do bairro. A estação integrava o planejamento da futura Linha 6 – Laranja, que ligaria a estação já existente São Joaquim à região Oeste da cidade, passando pelos bairros da Bela Vista, Higienópolis, Perdizes, Pompéia e Freguesia do Ó, até chegar à Brasilândia.

A “Associação Defenda Higienópolis” organizou um abaixo-assinado com cerca de três mil e quinhentas assinaturas contestando o projeto, apresentando como principal alegação a existência de outras quatro estações num raio de 600 metros do local, sugerindo que a construção deveria ser feita na Praça Charles Miller, para atender aos frequentadores do Estádio do Pacaembu e aos estudantes da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). No mesmo documento constava também uma preocupação por parte dos moradores de que a obra aumentaria o fluxo de pessoas na região, “especialmente em dias de jogos e shows” e de “ocorrências indesejáveis”, além do receio de que a estação se transformasse em um atrativo para camelôs.

Uma última seção da matéria trazia a opinião de diferentes moradores e frequentadores do bairro, mostrando que não havia consenso com relação às críticas sobre a estação. Uma das entrevistadas que apoiava a ação da associação de moradores foi a psicóloga Guiomar Ferreira: "Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada".

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O tema não voltou a ser mencionado pela mídia até maio de 2011, quando a Folha de S. Paulo publicou uma nova notícia9, no caderno Cotidiano de sua edição impressa, informando que, “após pressão de moradores, empresários e comerciantes de Higienópolis, o governo de São Paulo desistiu de uma estação do metrô na avenida Angélica”. Com isso, o governo reativaria o projeto de uma estação na praça Charles Miller, próxima ao Estádio do Pacaembu. No site do jornal foi publicada uma nota sobre a alteração no projeto da nova linha, com um link para a matéria de 2010, que trazia o depoimento de Guiomar Ferreira.

A notícia rapidamente repercutiu na internet, ganhando destaque nas redes sociais digitais, popularizando a expressão “gente diferenciada”. No mesmo dia da publicação, o usuário Danilo Saraiva criou um evento no Facebook propondo ironicamente que se organizasse um “Churrascão de Gente Diferenciada” no local onde deveria ficar a estação. Em menos de 24 horas, mais onze mil e trezentos usuários confirmam a presença no evento e a hashtag #gentediferenciada chegou aos trending topics do Twitter no Brasil. No dia 12, mais de 49 mil usuários já haviam confirmado presença na manifestação.

A mobilização nas redes sociais digitais chamou a atenção da imprensa tradicional, que começou a noticiar o “Churrascão”. A repercussão também acabou fazendo com que o Ministério Público de São Paulo anunciasse10 que irá investigar a mudança da estação, enquanto a companhia Metrô afirmou, em nota oficial, que ao contrário do veiculado pela Folha de S. Paulo, a decisão teria sido puramente técnica e não em função da resistência dos moradores.

Entre os dias 11 e 12 daquele mês, o “Churrascão de Gente Diferenciada” ganhou tamanha visibilidade que a Polícia Militar e Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) entraram em contato com Saraiva e o convenceram a cancelar o evento para evitar o bloqueio de vias públicas e para não colocar em risco a segurança dos participantes11. No lugar na passeata, ele propôs uma concentração na Praça Villaboim para reunir assinaturas em um documento pedindo esclarecimentos ao governo estadual. A mudança não agradou aos usuários que haviam confirmado presença no evento através do Facebook e, pressionado, Saraiva volta atrás.

Ao longo da semana, a mobilização voltou a repercutir na mídia tradicional à medida que diferentes personalidades começaram a manifestar-se sobre o tema. A atriz !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Notícia disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1105201101.htm (acesso em 12 de março de 2015)

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Notícia disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2011/05/914685-promotoria-vai-investigar-o-fim-da- estacao-angelica-do-metro.shtml (acesso em 3 de março de 2015)

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Notícia disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2011/05/915055-internauta-recua-de-churrasco-e- propoe-abaixo-assinado-em-sp.shtml (acesso em 3 de março de 2015)

Irene Ravache, por exemplo, moradora do bairro, afirmou ser favorável à construção da estação na Avenida Angélica12. Já o ex-presidente Lula declarou, em um ato público, que a resistência dos moradores de Higienópolis demonstrava “um preconceito enorme contra o povo que anda de transporte coletivo neste país”.13 Mesmo o ex-secretário de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, cuja gestão havia anunciado o traçado na linha que indicava a estação na Avenida Angélica, pronunciou-se questionando os argumentos técnicos apontados pela equipe do Metrô.

O protesto ocorreu, conforme marcado, no dia 14 de maio. Teve início às 14 horas na Praça Villaboim, seguindo para concentração em frente ao Shopping Higienópolis e de lá subiu a Avenida Angélica até o ponto onde a futura estação deveria ser construída. Ao longo do trajeto, mais pessoas juntaram-se à manifestação, totalizando, segundo o site do jornal Folha de S. Paulo, 600 participantes14. Mantendo um tom bem-humorado, com direito a música, cerveja e pelo menos quatro churrasqueiras portáteis, os manifestantes chegaram a bloquear duas quadras da avenida, gerando complicações no trânsito da região. O protesto dispersou-se por volta das 21 horas, sem registrar nenhum tipo de ocorrência policial.

Após a polêmica, a equipe do Metrô voltou a estudar uma terceira alternativa para a localização da estação e, no dia 17 de junho de 2011, anunciou que ela deveria ser construída entre o estádio do Pacaembu e a Avenida Angélica, no trecho da Rua Sergipe que vai da rua Bahia à Ceará. Já o “Churrascão de Gente Diferenciada”, como forma de protesto, foi adotado pelo menos mais duas vezes. A primeira delas em janeiro de 2012, em uma manifestação organizada pela ONG DAR (Desentorpecendo a Razão) na região da Cracolândia, centro de São Paulo. Cerca de duzentas pessoas protestaram contra a violência empregada pela polícia em uma operação realizada na área, conhecida por concentrar usuários de crack. Em setembro de 2014, um novo “Churrascão” reuniu 150 pessoas no Jardim Europa, outro bairro nobre de São Paulo, junto ao Museu da Imagem e do Som (MIS), contra um abaixo-assinado feito por moradores reclamando da grande circulação de pessoas na região devido aos eventos promovidos pelo museu.

O segundo caso a ser analisado, o “Festival Amor Sim, Russomano Não”, foi organizado durante as eleições municipais de 2012 da cidade São Paulo e, assim como o !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Notícia disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2011/05/914896-irene-ravache-defende-abertura-de- metro-em-higienopolis.shtml (acesso em 3 de março de 2015)

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Notícia disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2011/05/915159-lula-diz-que-moradores-de-higienopolis- tem-preconceito-contra-pobres.shtml (acesso em 2 de março de 2015)

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acontecimento anterior, surgiu a partir da criação de uma página de evento no Facebook. A uma semana da votação do primeiro turno, o candidato Celso Russomano, do PRB, estava à frente nas pesquisas, com 27% das intenções de voto, enquanto José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT) apareciam tecnicamente empatados, com 18% e 19% respectivamente.

Russomano havia começado sua carreira política como deputado federal com a maior votação no Brasil nas eleições de 1994. Na ocasião, contava com o apoio do então governador Mario Covas e elegeu-se pelo PSDB, depois de nove anos filiado ao PFL (atual DEM). Antes disso, no entanto, já havia se tornado famoso a partir de um episódio dramático. Em 1990, sua esposa foi internada às pressas no Hospital São Camilo, em São Paulo, e, segundo ele, não estava recebendo a devida atenção por parte da equipe de socorro. Russomano então começou a filmar o suposto descaso de médicos e enfermeiros até que sua mulher veio a falecer, de meningite. Anos depois, o hospital não só foi isentado de culpa como recebeu uma indenização de Russomano por danos morais. Bem antes da decisão judicial, no entanto, o episódio repercutiu na imprensa e Russomano foi chamado para apresentar um quadro sobre direito do consumidor em no programa jornalístico Aqui Agora, veiculado pelo SBT.

Em 1998, foi reeleito, mas desta vez com um novo partido e novo padrinho político: passou a contar com o suporte Paulo Maluf, do PPB (atual PP), inimigo político de Covas. Em 2000, candidatou-se à prefeitura de Santo André, mas acabou vencido por Celso Augusto Daniel, do PT. Russomano permaneceu então na Câmara dos Deputados até 2010, quando se candidatou, ainda pelo PP, ao governo do Estado de São Paulo, ficando em terceiro na disputa. Em 2011, no entanto, desentende-se com Paulo Maluf e migra para o PRB, partido pelo qual se candidatou a prefeitura de São Paulo no ano seguinte.

Apesar da popularidade do ex-deputado, a candidatura começou a ser duramente criticada, tanto pelo seu histórico de infidelidade partidária, como pela suposta falta de coerência no plano de governo proposto na campanha. Além disso, o apoio da Igreja Universal, força política importante dentro do PRB, ao mesmo tempo que garantia uma boa quantidade de votos entre fiéis15, começou a ser mal visto em outros setores da sociedade, em especial na área artística e cultural.

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De acordo com postagem publicada pelo portal Terra em setembro de 2012, 66% dos dirigentes do PRB eram ligados à Igreja Universal. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/eleicoes/prb-de-russomanno-tem-66-dos- dirigentes-ligados-a-universal,9cb99782ac66b310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html (acesso em 4. de março de 2015).

É nesse contexto que diferentes coletivos e grupos artísticos, como a Matilha Cultural, o Fora do Eixo e o Santo Forte, uniram-se para organizar um festival/protesto contra a candidatura de Russomano. Seis dias antes da votação do primeiro turno, a usuária Dríade Aguiar, integrante do coletivo Fora do Eixo, cria no Facebook a página do evento “Festival Amor Sim, Russomano Não”, uma manifestação a acontecer dali a quatro dias na Praça Roosevelt, no centro da cidade. A ideia era realizar um tipo de protesto cultural, convidando a apresentar seu trabalho qualquer artista que quisesse participar. É curioso como a mobilização adota já no nome a ideia de “amor”, a mesma que Hardt e Negri (2011) apontam como central para constituição do “comum” sobre o qual a multidão deve construir uma nova forma de poder. Apresenta-se, assim, um alinhamento claro de perspectivas entre a teoria e a prática desse movimento, seja como coincidência ou porque os autores já serviam de inspiração para esses grupos de artistas.

Apesar de colocar-se contra uma das candidaturas, a mobilização apresentava-se como apartidária, ou seja, não expressaria apoio a nenhum outro político. Também pedia que todos comparecessem vestidos com pelo menos uma peça de roupa rosa-choque porque, conforme explica Savazoni, a cor não estaria relacionada a nenhum grupo político e, ao mesmo tempo, representava a união das cores dos dois principais partidos do país, o azul do PSDB e o vermelho do PT. Além disso, o rosa também seria a cor do amor e ainda serviria para “questionar o patriarcado e o comportamento sexualmente opressor” (2013, p. 16).

No campo de descrição na página do evento, alguns trechos ajudam-nos a entender melhor suas motivações e características:

Dos escombros da guerra entre PT e PSDB, eis que emerge Celso Russomano. Demagogo, sem propostas, construído no sensacionalismo da TV, projetado pela Igreja Universal do Reino de Deus, visivelmente incapaz de governar. A ascensão desse sujeito no cenário eleitoral de São Paulo não é mérito dele ou de seu partido. É, na verdade, sintoma terminal da decadência política da cidade.

(...)

Celso Russomano não é apenas Celso Russomano. É a o fruto da despolitização, da passividade civil e da preguiça mental diante da falência do sistema político tradicional. A vitória dele nas eleições municipais seria a materialização de uma tragédia, a vitória de uma escola política que ainda ecoa da ditadura. E pode significar não apenas o aprofundamento da São Paulo policialesca e proibida. Mas a criação de uma nova força política nacional fincada que ameaça o estado laico e as causas progressistas.

(...)

Portanto, convidamos você para ocupar a Praça Roosevelt na próxima sexta à partir das 20:00.

Um festival com a participação de artistas e de todo mundo que quer ver São Paulo mais feliz. E tentar construir uma forma de fazer política mais aberta, nova e verdadeiramente pública!

Quem não reagir está morto!16

Com ampla divulgação através das redes sociais digitais, principalmente no próprio Facebook e no Twitter, utilizando a hashtag “#amorsimrussomanonao”, mais de duas mil e trezentas pessoas chegam a confirmar presença no evento em menos de 24 horas, quando a página é apagada pelo Facebook, sem maiores explicações. Como forma de resistência à suposta “censura” promovida pela plataforma, outros usuários começam a criar novas páginas de evento similares, chegando a mais de cem antes do final do dia. O Facebook, então, assumiu a remoção indevida e reestabeleceu o conteúdo.

Ao longo da semana, os coletivos e grupos ligados à manifestação realizam reuniões abertas para discutir a organização do evento na Casa Fora do Eixo, sede de um dos coletivos, anunciando que a participação era aberta para qualquer um que quisesse comparecer. Até o dia da mobilização, mais de quatro mil e cem pessoas haviam confirmado presença.

Na sexta-feira à noite, cerca de mil pessoas (segundo estimativas da polícia militar) compareceram à Praça Roosevelt, apesar da chuva intermitente. Os manifestantes, muitos vestidos de rosa, garantiram o caráter festivo da manifestação, acompanhados por um numeroso efetivo da Polícia Militar e da Guarda Municipal. Foram montadas na praça pistas de dança improvisadas, enquanto diferentes grupos realizavam performances artísticas.

Mesmo antes do fim de semana, as pesquisas eleitorais indicam uma queda de Russomano. A tendência se confirmou nas pesquisas de boca de urna, que indicavam que ele estaria empatado com os outros dois principais candidatos, embolando a disputa de quem iria para o segundo turno17. Quando o resultado da votação é divulgado na noite de domingo, o ex-deputado aparece em terceiro, ficando fora da disputa pelo segundo turno.

A manifestação deu origem a um segundo evento organizado 15 dias depois, batizado de “Existe Amor em SP”. Motivados pelo primeiro encontro, cerca de 80 pessoas de grupos envolvidos com produção cultural independente da cidade organizaram um novo festival, desta vez com a presença confirmada de artistas conhecidos, como os cantores !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Conteúdo disponível em: https://www.facebook.com/events/490602824284404/ (acesso em 3 de março de 2015)

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Notícia disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2012/10/1165210-serra-com-28-russomanno-com-27-e- haddad-com-24-embolam-disputa-em-sp.shtml (acesso em 3 de março de 2015)

Criolo e Gaby Amarantos18. A nova mobilização não era mais em oposição a Celso Russomano, mas para mostrar aos dois candidatos que seguiam na disputa (José Serra e Fernando Haddad) que seria possível levar a cultura de forma colaborativa para as ruas da cidade. O movimento ganhou repercussão a ponto de Fernando Haddad afirmar “existe amor em São Paulo” quando toma posse como prefeito. Atualmente, o movimento segue existindo enquanto mobilização em favor do uso do espaço público para a cultura, organizando reuniões abertas sobre demandas políticas a serem apresentadas ao poder institucionalizado.

Conforme já exposto anteriormente no breve panorama sobre o net-ativismo no Brasil, não se pode afirmar que estes dois casos sejam os primeiros nos quais as tecnologias de comunicação digitais tenham desempenhado papel essencial na mobilização. No entanto, identificamos que eles sejam os primeiros a combinar três características importantes: surgem a partir de um contexto inteiramente local, relativo à cidade, sem um alinhamento de pauta ou objetivos com movimentos internacionais; são organizados em rede, de maneira descentralizada, tendo as redes sociais digitais como principais meios de mobilização; e culminam em manifestações públicas no espaço físico urbano.

Nenhum dos movimentos anteriores, ou que tenham ocorrido no intervalo entre os dois, combinam esses três fatores que julgamos essenciais para o entendimento da evolução do net-ativismo no Brasil. O “Fora Sarney”, por exemplo, não teve êxito em transferir à mobilização para as ruas. Já a “Marcha da Maconha”, a “Marcha das Vadias”, assim como os casos anteriores relacionados ao movimento antiglobalização, estavam alinhados com uma agenda mundial de protestos. O que chega mais perto de apresentar essas três características é a “Marcha pela Liberdade”, no entanto, consideramos que esta ainda estava profundamente ligada à “Marcha da Maconha”, organizando-se com base na rede que já havia se formado em torno do primeiro protesto.

Ao mesmo tempo, é importante observar que os dois casos aqui analisados apresentam também diferenças significativas cuja percepção pode enriquecer a análise. O primeiro evento surge em resposta a uma decisão gerencial por parte do poder executivo sobre a urbanização da cidade. Já o segundo se dá em um contexto puramente de disputa política, no período de eleições. Ou seja, não está ligado a uma demanda específica, mas sim a um cenário mais amplo de embate político e de poder. A evolução das duas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Notícia disponível em:

mobilizações no período posterior aos protestos também é distinta: enquanto o “Churrascão de Gente Diferenciada” não tem continuidade, o “Amor Sim Russomano Não” deu origem a outro movimento que segue ativo e mobilizado.

Consideramos tanto o “Churrascão de Gente Diferenciada” quanto o “Amor Sim, Russomano Não” como “acontecimentos políticos”, conforme a definição do termo apresentada por Lazzarato (2006). Da mesma maneira que a revolta em Seattle em 1999, exemplo recuperado pelo autor para explicar o termo, ambos produzem um novo mundo possível, que se manifesta nos agenciamentos de enunciação (principalmente via redes sociais digitais nestes casos) e que se efetua nos corpos, na ocupação das ruas. Eles operam uma transformação da subjetividade, “da maneira de sentir” (Lazzarato, 2006, p. 11).

O primeiro caso cria e atualiza nos corpos, primeiramente, a possibilidade de tomar a rua a partir de uma organização horizontal, sem apoio de nenhum agente já institucionalizado, para expor qualquer tipo de insatisfação ou revolta. Já o segundo caso, além de reforçar a percepção da rua enquanto espaço de mobilização de agentes organizados em rede, mostra que esse tipo de movimento também pode colocar-se como agente ativo na disputa política institucionalizada. Mostra, dessa forma, que pode gerar uma potência que vai além de uma revolta difusa, direcionando sua força a um objetivo definido. Esses novos possíveis criados produzem um profundo impacto subjetivo que é essencial para entender os próximos movimentos que ocorrem em todo país, principalmente as “Jornadas de Junho de 2013” e, mais recentemente, as manifestações contra o PT e o governo de Dilma Rousseff em 2015.