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Assim com a imigração para o Centro-Oeste, a terra de Mesquita passou a ser alvo de interessante para imigrantes, e os mesquitenses como não usavam a moeda tradicional e não tinham esse tipo de capital para as trocas necessárias, a moeda passou a ser a própria terra. Era exatamente a terra o que interessava para os “de fora” e era esse o recurso que a comunidade dispunha.

As primeiras transações de terra, pela narrativa dos mesquitenses foi um acontecimento não entendido por parte da comunidade. Na lógica tradicional e étnica do Mesquita, eles estavam negociando era uma permissão de uso, já que essa prática era comum entre os moradores, acreditavam que não perderiam domínio sobre o território. Porém para os “de fora” a negociação era sobre a compra da terra nua. Isto significou um problema substancial para a comunidade. (INCRA,2011)

Essas permissões que inicialmente eram apenas de posses consentidas se transformaram em propriedades, descaracterizando o uso comunal que a terra tinha para a Comunidade. Além dessa licença informal de uso, aconteciam também as vendas de partes das terras, trazendo para o convívio da comunidade muitos fazendeiros com outras lógicas de viver no território da comunidade, ocupando áreas além daquelas compradas, criando conflitos com os moradores tradicionais.

Nas falas dos moradores, constata-se que muitas dessas vendas eram trocas, e essas trocas eram desproporcionais e feitas por necessidades atendidas (médico, dentistas, etc) e isso acarretava para a comunidade o desmembramento do território e logo a desestruturação da comunidade.

O pessoal ia comprando uns pedacinho de terra. Por interesse deles, porque lá é o cartão postal! Cinqüenta quilômetros de Brasília, um lugar que tem água, uma terra fértil, uma terra muito maravilhosa. Um lugar assim do povo humilde, povo hospitaleiro... Então todo mundo quer morar neste lugar na verdade! (J.A.P.- Relato ao INCRA).

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Como houve o evento da divisão interna da “terra comum” - o que, como descrito anteriormente, alterou a gestão do território - foi mais fácil a abordagem dos núcleos familiares pelos interessados na terra. Por isso é que os mais velhos da comunidade associam a divisão interna entre Modesto e Antônio Grilo às mudanças mais severas. Dizem que o problema não foi a divisão, mas as vendas que passaram a ocorrer depois que cada um já tinha o seu pedaço.

E que tá vendendo pedacinho aí. Um vendia aqui, vendia a meia. Isto foi o que atrapalhou. Atrapalhou tudo (SLC/RTDI, 2011 - Relato ao INCRA).

Perdendo muito de suas terras e inseridos dentro do sistema capitalista de produção, a comunidade negra de Mesquita teve que se adaptar às novas intempéries para sobreviver. Algumas famílias venderam sua terra a troco de nada para tentar a vida em Luziânia, que também seguia a tendência de expansão da urbanização.

Uns dizia que ia caçar lugar melhor que pra lá... Mas não produzia não tinha muito Governo, né? (SLC/RTDI, 2011 - Relato ao INCRA)..

Olha, se você vê o estado em que se encontra algumas família que saíram... é de dar pena (SPB).

Estas pequenas vendas trouxeram “gente de fora” para o convívio do povoado. As terras começaram a ser mais parceladas, posto que as propriedades entre as famílias quase não se havia cerca. Os novos agentes compravam a preços depreciados as terras e, quando cercavam a área comprada, muitas vezes ocupavam área superior à acordada no ato da compra. Outro elemento que facilitava a expropriação de terras era o fato de que a comunidade não ser letrada sendo facilmente ludibriada no momento do negócio. Seria tarefa sem fim minuciar todos os casos de expropriações a que os mesquitenses se referem.

Essas vendas de terra de Mesquita era assim: o pessoal chegava e se aluzia com aquele povo humilde, aquele povo assim que às vezes a pessoa pegava um terreno e dizia: "não, eu vou plantar isso aqui, eu vou cuidar disso aqui, vou dar emprego, vou devolver pra você depois, isso aqui é só pra pagar os impostos pra você...” Porque muitas das vezes a pessoa não tinha como pagar os impostos aí os aproveitador vinha com aquelas falas e o povo simples, humilde, pagava os impostos... Depois que eles pagavam os impostos ali depois de tantos anos aí eles tentavam fazer um tal de 'uso de campeão' [usucapião] Esse ‘uso de campeão' era para pegar aquelas terras, se beneficiar naquelas terras, que o pessoal às vezes por simplicidade passava em procuração, fazia um documento falso lá, né? (J.A.P.- Relato ao INCRA).

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Comum ouvir em Mesquita inúmeros casos de expropriação em que os “de fora” utilizavam-se da ingenuidade e do desconhecimento dos indivíduos e tomavam parte da terra. Quando se reclamava, mandava procurar nossos direitos. Por falta de acesso às condições mínimas de cidadania, sua força de reivindicação era imobilizada.

Estes processos em relação à terra tiveram impactos profundos na organização da família e no domínio do território. Ao longo do tempo, algumas famílias do povoado continuaram investindo na produção para a subsistência. Poucos persistiram na produção de marmelo. Outros procuraram empregos nos centros urbanos que começaram a se desenvolver. Muitas mulheres passam a trabalhar de domésticas em Brasília impactando o modelo tradicional da divisão social do trabalho. Começou a ser freqüente a ocorrência de casamentos exogâmicos com pessoas brancas que chegaram para a construção de Brasília. Esta realidade vai se complicando ao longo dos anos. As novas gerações de Mesquita já nascem neste novo contexto híbrido entre modelo tradicional e lógica capitalista.

A migração é pendular, ocorre diariamente com os Mesquitenses se deslocando, como a maioria dos trabalhadores urbanos, para seus locais de trabalho em Brasília, visto que a ocupação de suas terras por loteamentos lhes restringiu a possibilidade de viverem da agricultura.

As áreas adquiridas pelos “de fora”, em alguns anos, foram revendidas e novas implicações se estabeleceram. A terra de Mesquita, se em um primeiro momento é passível de trocas por serviços, posteriormente representará um investimento para o capital especulativo. A pessoalidade de quem antes ocupava as áreas trocadas se perderá nos agenciamentos de revendas. A impessoalidade dos novos ocupantes, totalmente desconhecidos para a comunidade, gerou o descontrole do raio de atuação destes atores. Novos proprietários passam a impactar diretamente as áreas ainda sobre o domínio do povoado. Disponibilidade de água; acesso a lugares antes visitados; terras de cemitérios... Elementos territoriais da mais alta significância para a coesão social se perderam em um processo iniciado na década de 1950 com impactos até a atualidade.

Sabe aquela área onde é o Jardim Edite hoje? Pois é, aquilo era nosso. Foi que aqui dentro teve uma briga de parente... Assim, teve morte. E como aqui passou a ter estes negócios de polícia, o tio foi preso. Aí pra tirar ele da prisão teve que ter advogado. E aí não tem dinheiro, né? Pagou o advogado com aquele pedaço de terra, aquilo tudo. Aí

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parece que o advogado vendeu e veio outro e outro... Até que teve um que começou a vender estes pedaços pequenininhos, pra um monte de gente e começou a encher isto aí (BLC).

O Jardim Edite trouxe muito roubo. Ninguém mais pode deixar as coisas por aí. Tem que fechar a casa. Tirou nossa paz ( CBP/RTDI, 2011- Relato ao INCRA).

Muita violência, morte. E drogas. Lá tem muitas drogas. Como é que ficam nossos jovens? Também está em cima de um manancial de água que é nosso! Tá poluindo tudo! Tem muito parente que mora lá, mesmo assim é difícil (SPB).

O Jardim Edite foi o loteamento dentro do perímetro do território quilombola “mais problemático do ponto de vista da comunidade. O acusam como responsável por diversas mazelas vividas. É um loteamento de baixa renda que implica todas as dificuldades impressas na cultura urbana de periferia que se contrasta substancialmente com a lógica camponesa. Foram cadastradas nesta localidade do Jardim Edite cerca de 500 ocupantes não quilombolas vivendo em lotes pequenos. Houve muita discussão na comunidade sobre o melhor posicionamento para se lidar com o caso. Porém a lógica tradicional e os mais velhos se impuseram com força não admitindo negociação: a importância desta terra, o significado de sua perda e os impactos sofridos, tornou esta porção territorial para comunidade imprescindível do ponto de vista material e simbólico.

As lideranças de Mesquita atualmente conduzem o processo de reivindicação territorial com uma articulação interna à comunidade definindo coletivamente a melhor estratégia para aquisição das terras, pois acreditam sim que sua luta é possível, mas de imaginável dificuldade. Ponderam entre seus direitos e a viabilidade de conseguir titular seu território.

Sabemos que se colocarmos tudo seria muito difícil. Esta terra que a gente pede é o mínimo. O que não dá pra abrir mão mesmo (SPB).

No relatório do INCRA no território demarcado, que é só uma parte da terra ancestral, foram identificados mais de 500 ocupantes não-quilombolas, esse fato traz grandes dificuldades no processo de regularização do quilombo. Os membros da comunidade de Mesquita, vivendo hoje entre o universo rural e urbano afirmam ser a área solicitada a menor parte que podem aceitar e ser reivindicado de suas terras, menos que isso não aceitam

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A História do Quilombo de Mesquita sofreu grande impacto com a construção de um novo núcleo habitacional, a Cidade Ocidental foi criada e localizada dentro do município de Luziânia, porém se desenvolve e em 1989 passa à categoria de Distrito de Luziânia, para em 1990 se emancipa como município, Luziânia, outra vez teve um território “emancipado” e desligado administrativamente, Mesquita passa a pertencer à Cidade Ocidental. Essa mudança é historicamente traumática para todos os moradores, especificamente para os mais idosos, pois Luziânia compartilhava as raízes históricas, e Mesquita, agora estava ligado a uma cidade planejada que ignorava a história da formação do quilombo, sua história passa a ser mais uma vez invisibilizada.

Pra nós fez mais é atrasar. Porque tudo o que nós temos... Porque a Cidade Ocidental depende de nós lá do Mesquita. Claro! Nós dependemos mais pouco de Cidade Ocidental que Cidade Ocidental de nós. Porque nós produzimos e fazemos a feira. [...]

Luziânia conhecia e respeitava a história nossa. E Cidade Ocidental, além de estar dentro do nosso Município... Porque nós não somos município de Cidade Ocidental, Cidade Ocidental é que está dentro do município de Mesquita! E não respeita nosso direito! [...] Luziânia é nosso berço de ouro, onde nós nascemos, onde nossos umbigos foi enterrado, lá com nossos avós, nossos bisavós. Tudo sepultado lá em Luziânia. E toda nossa produção de Marmelo, nossa Marmelada ela é despachada em Luziânia. Vende em Brasília, Goiânia em vários lugares. Mas Luziânia é o cartão postal da Marmelada de Santa Luzia. Então tudo que a gente faz lá em Mesquita querem levar para Cidade Ocidental.[...]

Infelizmente desmembrou nós de Mesquita de Luziânia para Cidade Ocidental, porque os especuladores, os pára-quedistas que vieram de fora, os políticos de fora que achou e que sabe que o Mesquita é cartão postal. Então tão tirando os oprimidos de Mesquita, pra poder ser os maior do mundo! (J.A.P.- Relato ao INCRA).

Quando se analisa o crescimento ao longo da BR 040 a partir da fronteira do Distrito Federal com Goiás percebe-se o crescimento do tecido urbano ao longo de toda a rodovia a partir de Valparaíso. Configura-se esse o cenário, onde estas nucleações e povoados funcionam como os bairros de uma cidade de âmbito metropolitano, com poucos espaços vazios entre eles, os poucos terrenos que ainda existem estão esperando a valorização imobiliária para se conurbarem, como ocorre atualmente também na Cidade Ocidental, município limítrofe e abriram-se também novas estradas para ligá-la à Brasília, passando pelo quilombo Mesquita. Foram surgindo outras aglomerações e pequenos loteamentos ao longo dessa rodovia,

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o antigo Barreiro área onde antes vivia um grande número de descendentes de escravos se transformou em agrupamento de casas e o Jardim ABC se expandiu com a venda de lotes por imobiliárias.

O território de Mesquita sofre hoje com duas grandes pressões por terrenos com caráter urbano: O crescimento dos condomínios de alto padrão partindo do Distrito Federal, sentido Lago Sul - Papuda, pela via que corta a RA Jardim Botânico, seguindo pela DF 140 até a fronteira inter-estadual (Alphaville, Dhama etc) e a pressão dos loteamentos com caráter urbano que vem desde a saída da Avenida Perimetral Sul, que liga a Cidade Ocidental ao Povoado do Mesquita e no outro lado os fazendeiros passaram a também investir na região.

As iniciativas turísticas e de lazer muito comuns hoje no território quilombola, também contribuem para a alteração do lugar, pois são empreendimentos privados e voltados aos moradores da cidade, além de serem pagos o que significa que nem todas as pessoas podem ter acesso. Dessa forma mantêm as desigualdades apesar de usarem os recursos naturais do Quilombo reforçam a segregação contra os moradores da comunidade.

Assim, a nova reprodução do ambiente observada no Quilombo Mesquita conta com novas territorialidades de uso privado, outras lógicas de uso dos recursos naturais, diferentes relações sociais, fragmentando e dividindo ainda mais esse território étnico. Isso ocorre, pois:

As necessidades induzidas e produzidas em áreas de grande concentraço urbana, como é o caso da busca pelo ar puro, da procura por áreas verdes, são diferenciadas em função da capacidade das pessoas pagarem para satisfazêlas (SANTANA, 2001, p.184).

A partir dessas ocorrências, constatei a crescente aumento de serviços e comércio de apoio residencial e para chácaras nesta área, eles estão concentrados por enquanto na Cidade Ocidental e ao longo das vias que se ligam ao Quilombo mas a tendência é estenderem-se por toda a faixa marginal às vias de acesso ao Mesquita (BR 040, Avenida Perimetral Sul, DF 140, Rodovia GO-521) onde estão atualmente dispersos. Este cenário traz novas maneiras de desestruturação da comunidade na atualidade, o que configura a tese do geógrafo Milton Santos (2003) de que a proliferação do modelo econômico em vigor é uma via que desarticula as economias tradicionais.

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No século XX a busca por terras mais baratas para a agricultura fez a migração crescer muito em Goiás, outra ação que desvirtuou a propriedade da terra no Mesquita foi essa abertura de estradas vicinais. No relatório do INCRA é citado McCal (1977) afirmando que :

Os transportes na economia capitalista mundial por ‘meios sutis promovem a penetração em áreas rurais’. Continua afirmando o autor que a “penetração não é meramente a introdução de novas maneiras de produzir’ mas também ‘implica a destruição daquilo que já existia anteriormente no local’ e na ‘introdução ou no desenvolvimento de termos punitivos de troca, que reorientam o comércio rural para uma rede mundial.” Assim toda a economia dos lugarejos rurais é forçada a mudar, volta e meia através da adaptação de uma forma de economia realizada há muito tempo e mais adequadas às necessidades do local.

O relatório continua afirmando que a modificação das formas de organização do espaço e das formas mais humanizadas de economia inseriu um novo ritmo nas trocas, introduzindo um outro ritmo nos vários estágios da produção. Isso acontece no Quilombo:

troca é cada vez feita com base no dinheiro, provocando a movimentação mais rápida tanto da mercadoria como do dinheiro. A necessidade de financiamento cresce e a necessidade de dinheiro vivo rapidamente se toma frenética. Além da monetarização e as novas facilidades trazerem a entrada e o consumo de produtos modernos no campo” (Santos, 2003:190- 192).

Na história de Mesquita esses fatos levaram a desarticulação de sua economia tradicional, constatado por meio das narrativas sobre as mudanças que aconteceram no interior da comunidade e também no seu território. O agronegócio e a pressão do crescimento urbano são elementos citados nos relatos orais em lembranças ou pedaços de lembranças que formam como uma grande colcha de retalhos de memórias:

Foi diminuindo, diminuindo e ficou só esse ovinho aqui! Olha só, por exemplo, meus filhos vão crescendo, meus netos vão crescendo, tataraneto vai crescendo, e aonde eles vai fazer casa, tem que ir embora e deixar para os outros (MT M).

Isto aqui é muito grande, ia lá pras lajes, pegava o Dom Bosco também, descia lá pra baixo pegava o Maria Pereira (S LC).

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A comunidade atribui as perdas de suas terras aos “de fora” , sentem-se enganados e expropriados, mesmo que tenham eles mesmos feito a negociação. O Relatório do INCRA cita que na estrutura lógica da comunidade, a terra não se poderia ser negociada, mas o trabalho sim. Com o suceder dos anos os de fora ali estabelecidos negociam estas terras com outros alheios. Em pouco tempo a comunidade será atropelada pela perda de seu território, sem entender o mecanismo das transações realizadas.

Creio que o pensamento abissal traz uma resposta convincente a esta questão. Uma vez que o que "existe" está circunscrito ao espaço da regulação/emancipação, os quilombos, aos milhares, estavam mergulhados na invisibilidade. Quando o Artigo 68 abriu a possibilidade de inserção deste gigantesco grupo no contrato social, o que era "espectro" ganhou corpo e concretude. E o país espanta-se com a dimensão do universo que era incapaz de ver.

Hoje, vive-se ali a dicotomia interna entre reivindicar o “pleno exercício dos direitos culturais” (art. 215, CF) como comunidade negra rural, onde o “território” é fundamental ou vivenciar a pressão urbana e a lógica da propriedade privada da terra. As mudanças nas formas de apropriação e uso do espaço no Quilombo Mesquita vem de um processo imposto tanto pelas pressões externas quanto pela proximidade do seu território com o meio urbano, hoje em interface entre esses dois contextos (rural – urbano) além da comunidade estar numa insegurança jurídica muito grande em relação à garantia do seu território, vive-se a contradição dentro do grupo, pois existem os que não se declaram quilombolas e nem aceitam a titulação das terras como tal.

O contexto híbrido rural/urbano de Mesquita também propiciou que os mesquitenses procurassem e conseguissem trabalhos e empregos nos centros urbanos próximos ao quilombo, principalmente a cidade de Brasília, o que, de certa forma,contribui para o aumento da renda familiar, uma vez que a terra disponível para a agricultura ou cria de animais é escassa na atualidade.

A realidade causada pela mistura do rural com o urbano permite diversos olhares sobre seus desdobramentos. Se por um lado essa realidade vem favorecendo, de certa forma, uma estrutura que invisibiliza o quilombo, orquestrada pela Prefeitura de Cidade Ocidental, pelos agentes da especulação imobiliária e pelos grandes fazendeiros, e que, em certa medida, vem desagregando cultural e socialmente a comunidade através da migração individual para as margens do Distrito Federal limitando a reprodução

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social adequada e ainda desejada no Quilombo de Mesquita. Por outro lado, esta mesma realidade, insere a comunidade em redes muito mais amplas do que os círculos regionais que anteriormente tinham acesso: As redes formadas por outros segmentos sociais de lutas democráticas, grupos de resgate de valores e cidadania(CONAQ, Rede Terra, Rede Bartô, MST,etc) que também lutam pelo acesso à terra, que podem ajudar o Quilombo de Mesquita a ser conhecido e ter sua causa conhecida em outras esferas:

Alguns quilombolas de Mesquita se candidataram ao cargo de vereador de C. Ocidental nas últimas eleições (2012); as esferas governamentais federais e a sociedade civil organizada, os primeiros pela obrigação de garantir os direitos dos quilombolas e os segundos pelo interesse pelo tema e pelas questões que o cercam, gerando conhecimento e informação sobre a comunidade e proporcionando organização política e melhora da sua auto-estima.” (RTDI, 2011)

Atualmente a principal liderança do Quilombo de Mesquita é a vice-presidente da AREME29 é quem personifica a luta pelo processo de articulação e territorialização pelo qual a comunidade de Mesquita passa neste momento.

Certamente o processo é uma construção social com vários atores envolvidos - outros mesquitenses quilombolas de diversas gerações; acadêmicos; jornalistas, membros da sociedade envolvente, entre outros - porém, a vice-presidente da AREME é a personagem central na sua concepção e motivação pelos direitos dos quilombolas de Mesquita. Como Boaventura destaca a terra está ligada ao tempo largo da escravidão, ao passo que na primeira, à colonização e na última, atualmente o de concentração fundiária.

Na fase da observação participante no Quilombo Mesquita o meu olhar de pesquisadora, analisando a subjetividade implícita na realidade do grupo, e o que estava visível nessas representações observei que a história atual da comunidade mostra uma complexa rede de atores e situações de uso do território, contextos políticos e culturais divergentes: famílias remanescentes dos escravos (tendo como núcleos principais a família Pereira Braga, Teixeira de Magalhães e os Lisboa da Costa), reconhecidos como