3. Risk assessment
3.2. Analysis
Os questionários citados anteriormente revelam que, na visão dos alunos, as principais contribuições da escola se relacionam a obtenção de recursos que favoreçam a ascensão escolar e profissional. Assim, em ambos os locais, o principal aporte citado foi a “preparação para a continuidade dos estudos”, seguido de perto por “preparação para o trabalho” e por “obtenção de um diploma”. Procuramos, assim, nas entrevistas, aprofundar com os alunos ideias e questões apontadas nos questionários.
3.3.1.1 A preparação para a continuidade dos estudos.
Algo a salientar das entrevistas é que, apesar de ter sido citada como a contribuição mais importante nos questionários de ambos os locais, a relação entre ensino médio e continuidade dos estudos só apareceu de forma clara na fala dos estudantes da Escola Alfa. Citando alguns exemplos, o aluno Rafael disse que a função “(...) é se preparar mesmo pra
um vestibular, provas, porque a escola prepara pra isso né? Pro mundo lá fora, pro mundo real.”. A aluna Tatiane corrobora a ideia ao dizer que “o ensino médio é um aprofundamento pra gente entrar em uma faculdade, eu acho que isso”. Jair, da mesma escola, também
afirmou que a contribuição do ensino médio é “(...) pra você engatar na faculdade, é uma
colaboração para você fazer o seu vestibular, tipo é uma preparação, antes do vestibular, passar na federal ou algo do tipo”. Paulo concorre com as falas dos colegas e diz que a escola
serve para “(...) ter uma preparação a mais para um vestibular no futuro. No caso um estudo
extra vamos dizer, por que as matérias são meio diferentes e as chances de eu passar em um vestibular público aumentam bastante”.
Nenhum aluno da Beta, por sua vez, citou como função da escola auxiliá-los a passar no vestibular. Saraví (2008, p. 210), em pesquisa já citada, nos ajuda a compreender a questão ao afirmar que “(...) para muitos desses jovens, permanecer na escola depois da educação
secundária se revela um mundo confuso no melhor dos casos e bem desconhecido em muitos outros” Ou seja, as expectativas estão lá, mas os caminhos que poderiam atender a essas expectativas são desconhecidos, por não fazerem parte do leque de experiências cotidianas.
3.3.1.2 Preparação para o mercado de trabalho.
As contribuições do ensino médio para o mercado de trabalho também foram citadas por jovens de ambas as escolas. Rafael, da Alfa, por exemplo, que pretende seguir a carreira de gastronomia, diz que “ajuda, tem, aqui é ensino básico né? Então qualquer coisa que você
possa utilizar na cozinha é devido às ciências, química, física, matemática. O português, é sempre bom ter um bom português para dialogar com os clientes. Então ajuda”. O auxilio em relação à escolha da futura profissão também foi citado por Tatiane, da Alfa, que diz que “eu achei minha área, o que eu quero, através do que? Da escola do ensino médio. Igual uma pessoa, quer fazer letras, tem português, ajuda. A escola ajuda sim a escolher uma carreira.”
Outro ponto mencionado foi a modelagem do comportamento à ética do trabalho que a escola propicia, como Roberto, da Alfa, que diz que:
Então você vai ter de criar amigos, você vai criar afinidades com outras pessoas e nessa parte que acontece, você sai, vai ter que criar um emprego, nesse emprego, você é subordinado a ter um chefe. Esse chefe, tudo que ele mandar você vai ter que ter, tudo o que ele mandar você vai ter que fazer, sem reclamar, digamos assim. E aqui é como se fosse o professor, digamos assim, porque ele é a autoridade na sala então mesmo que alguns alunos não respeitem hoje em dia, mas tudo o que ele falar, é digamos assim, na escola é pra o seu bem. Então digamos assim, se ele falar para você “você vai estudar”, você tem que estudar e a mesma coisa numa empresa. Se você falar que não vai, você é demitido, essa é a pior parte, você é demitido. E aqui na escola é a direção. Então eu vejo como uma base mais ou menos por causa disso. É uma referência.
As contribuições do ensino médio para o mercado de trabalho também foram citadas por adolescentes da Escola Beta, mas novamente em um sentido mais vago do que seus pares da Escola Alfa. Karla, por exemplo, diz que “tá ajudando um pouco só na área de trabalho,
no futuro também, que vai ajudar”. Cassio, do mesmo local, afirma que “(...) é um dos principais certificados e também contribui muito para a vida profissional, a educação contribui muito pra vida profissional do cidadão, para que ele possa ter um futuro brilhante”.
Gil afirmou a mesma coisa e quando inquirido de que maneira a escola o ajudaria no mercado de trabalho ele disse que seria através do “diploma e a preparação para uma faculdade”.
3.3.1.3 Preparação para a vida.
A preparação do ensino médio para questões mais amplas, além do mercado de trabalho e extensão dos estudos também apareceu na fala dos jovens dos dois estabelecimentos. Roberto, da Alfa, relacionou a escola ao amadurecimento individual ao dizer que “na escola é como se você tivesse, digamos assim indo pra vida, tá procurando, é
você ali sozinho na batalha, mesmo que aqui você tenha seus amigos, tudo, é você sozinho porque quando você sair daqui, vão ser poucos que vão ficar com você, que você vai ter mais contato”. Propiciar foco, educação e disciplina, além de conhecimento de mundo foram
citados por Rafael e Tatiane, respectivamente, ambos da Alfa.
Dentre os alunos da Beta, a ideia de que o ensino médio os ajudará a ser “alguém na vida” apareceu na fala de Fagner. A mesma ideia apareceu sob um ângulo diferente na fala de Felipe, que disse “que o principal objetivo da escola é melhorar um pouco esses alunos que
tem, delinquentes aí e não são poucos”. A inserção no mundo social simbólico e do consumo
também apareceu na fala de Fabio, que disse que “com a escola eu poderia me tornar uma
pessoa melhor, financeiramente. Financeiramente eu busco uma... não muito dinheiro, pelo menos estabilidade, estabilidade social e financeira”.
Saindo um pouco da linha de raciocínio de seus pares da Escola Beta, que identificam a escola como promotora de inserção social, Cassio afirma que:
“(...) a escola é um local onde a gente aprende os conhecimentos básicos né, ele nos prepara pra vida. (...) Por causa do pensamento racional, do pensamento lógico, que a criança não tem, a gente já nessa idade, com pensamento correto a gente já consegue determinar que x +1 é igual a 2 mesmo sendo uma letra, já a criança não teria esse pensamento lógico, então a escola, olhando por esse sentido, a escola nos prepararia para o futuro(...)”.
Ou seja, tal estudante identifica a relação entre escola e pensamento lógico, sendo o único a mencionar essa contribuição. Isso se refletia em seu próprio comportamento na sala, pois questionava quando os professores passavam tarefas que consistiam apenas em copiar um texto.