Embora não seja o objetivo desta investigação estudar os processos de internalização/ interiorização dos valores, faremos uma breve análise por assumir que ela é importante na formação de valores.
Sigmund Freud pode ser considerado como o pioneiro na análise sobre internalização dos valores. Para este autor, o medo, a identificação com o agressor e as estratégias para evitar a culpa são os mecanismos mediante os quais se produz a internalização dos valores e das normas sociais (Grusec, 1997). Mesmo que na atualidade, muitos autores assumam a crucial importância dos processos afetivos na internalização dos valores, nem todos concordam com as emoções assinaladas por Freud. Atualmente, diversos autores sugerem que as bases fundamentais da internalização se formam na mais tenra infância, antes da criança adquirir um nível de desenvolvimento necessário para processar cognitivamente as mensagens parentais (Molpeceres, Llinares & Musitu, 2001). Nessa perspectiva, ao final da primeira infância a orientação da criança em relação à autoridade e às normas já se encontram relativamente fixas e, a partir daí são generalizadas à outras figuras de autoridade e estruturas normativas que o sujeito encontra ao longo de sua vida (Emler, 1993; Epps & Hollin, 1993, citado por Molpeceres, Llinares & Musitu, 2001; Veiga, 1996, 2007, 2010; Veiga et al 2009).
Por outro lado, os investigadores de tradição piagentiana assinalam a importância dos processos de caráter mais cognitivo na internalização dos valores. Estes autores sugerem que o fracasso na transmissão de valores, se deve mais a um problema de percepção incorreta que a outras variáveis. Muitas investigações concluíram que os valores dos filhos não se parecem ao de seus pais, mas sim ao que eles acreditam que são os valores de seus pais (Cashmore & Goodnow, 1985; Whitbeck & Gecas, 1988). Nesse sentidoCeballos & Rodrigo (1998), sugerem que os pais que expressam seus valores com maior clareza, redundância e coerência deveriam ter maior êxito na transmissão. Quando analisamos a construção de valores na família é importante levar em consideração o papel ativo que têm os filhos para assumir ou não os valores dos pais. Portanto, não podemos afirmar que exista uma relação direta entre os valores que os pais desejam para seus filhos e o
que os filhos adquirem através de sua própria interpretação do que acreditam ser os valores de seus pais.
Whitbeck e Gecas (1988, cit. por Musitu, 2000), assinalam quatro fatores que influenciam nesse processo:
a) A natureza e os tipos de valores. Existem diferenças entre as convenções sociais e as prescrições morais. As convenções sociais estão relacionadas diretamente com a organização social e, portanto, são arbitrárias e passíveis de mudanças mediante o consenso. Enquanto as prescrições morais, mesmo formando parte da organização social, não são definidas por ela, não dependem da existência de regras, mas de fatores intrínsecos ao acontecimento e, são inerentes às relações sociais e, portanto, não modificáveis, mesmo que a sua lenta mudança se adapta ao processo de transformação da cultura e do tempo (Turiel, 1984).
b) As atribuições que fazem os filhos a respeito dos valores dos seus pais. A influência dos valores e atitudes parentais nos valores dos filhos aumenta, na medida em que estes percebem com exatidão, quais são os valores e atitudes dos progenitores. Também, se percebe um melhor prognóstico na percepção que têm os filhos, do que no comportamento real dos pais (Molpeceres, 1994; Musitu & Molpeceres, 1992).
c) A idade dos filhos associada ao seu desenvolvimento cognitivo. Neste caso, se destacam a dupla contribuição evolutiva na compreensão da formação dos valores, associados ao nível de conhecimento individual: 1) marca o inicio da aquisição dos valores e os limites de sua configuração, através de uma estreita relação com os níveis de maturação. 2) equipara as categorias de valores com o nível de desenvolvimento pessoal, socializando-se primeiro aqueles valores que, por exemplo, fazem parte das necessidades básicas.
d) A qualidade das relações pais-filhos favorece a identificação dos filhos com os valores dos pais, em duas direções: 1) o grau de significado que o filho atribui ao pai, e 2) o tipo de disciplina e o estilo parental. Boyes e Allen (1979) constataram que existe relação entre o estilo parental percebido pelos filhos e o raciocínio moral do adolescente, apresentando maior correlação entre o estilo democrático e o raciocínio moral; e uma correlação mais baixa entre disciplina parental (apoio/controle, aceitação/rechaço) e o raciocínio moral pós – convencional de Piaget. Em ambos os casos a qualidade da percepção dos filhos determina o grau de interiorização dos valores dos pais e não os valores em si mesmo.
O certo, é que a maioria dos pais tenta inculcar em seus filhos um sistema de valores parecidos com o seu, ou um sistema de valores que considera adequado. Porém, nem sempre conseguem atingir este objetivo. Molpeceres et
tal.,(1994), também sugerem que determinadas variáveis contribuem para uma
maior ou menor aceitação dos valores paternos pelos filhos. Descreveremos algumas destas variáveis que consideramos como complementares às acima citadas:
a) O grau de autoridade que exercem os pais em relação aos modelos culturais. Neste sentido, existem trabalhos que mostram que as normas sociais de certa forma determinam a interpretação do controle percebido. Por exemplo, Trommsdorff concluiu em seu estudo que os adolescentes japoneses acostumados a conviver com uma maior autoridade paterna, aceitavam níveis altos de supervisão e interpretavam a não supervisão como desinteresse por parte dos pais. Pelo contrário, os adolescentes alemães consideravam o mesmo grau de autoridade como desconfiança e falta de apoio dos pais, atitudes que provocava rechaço.
b) As características do pai e mãe ou seu estilo de disciplina prévio. Parece que as mudanças no sistema de disciplina parental utilizado, costumam gerar rejeição nos filhos. Uma mãe que costuma utilizar o diálogo e a reflexão na resolução dos conflitos, dificilmente, o seu filho aceitará e legitimará o castigo físico. Além disso, quando as normas familiares costumam ser impostas de forma coercitiva, o filho as respeitará, porém, sem interiorizá-las nem integrá-las em seu sistema de valores.
c) A motivação do filho para identificar-se com seus pais. Muitas teorias sugerem como hipótese básica da socialização, que a proximidade, o apoio e o afeto, são fundamentais para que os filhos se deixem influenciar pelas expectativas dos pais. Parece que os filhos estão mais dispostos a se deixar influenciar pelos seus pais, quando percebem que eles são sensíveis as suas necessidades.
d) O tipo de controle materno ou paterno: Hoffman, em estudos com amostra de crianças norte americanas, comprovou de maneira repetida, como as técnicas de afirmação de poder geram na criança ira, medo e ressentimento, as quais lhes predispõem negativamente aos pedidos do agente socializador.
Como assinalamos anteriormente, é através da socialização que os pais tentam inculcar nos filhos um determinado sistema de valores, normas e crenças, porém as estratégias e os mecanismos que os pais utilizam na tentativa de educar seus filhos podem variar de família para família. Alguns teóricos da socialização familiar sugerem que um determinado estilo educativo parental pode levar a um “resultado desejável” de educação moral. Mesmo não existindo um consenso por parte dos teóricos do que seja internalização, a compreensão de que as técnicas de socialização dos pais atuam no processo de internalização é partilhada por diferentes teóricos (Grusec, 2002; Grusec & Goodnow, 1994; Hoffman, 1970;
Piaget, 1932). De acordo com Hoffman (1975), as estratégias coercitivas provocam o controle do comportamento baseado na ameaça de sanções externas e intensificam a percepção de valores e do padrão de ação moral como externos, enquanto as estratégias indutivas favorecem a internalização moral. Darling e Steinberg (1993) sugerem que um controle excessivo exercido pelos pais pode prejudicar a internalização porque o indivíduo não cria uma referência interna, ficando dependente de uma autoridade externa para estabelecer metas e atribuir valor a objetos e ações. A teoria da atribuição sugere que quanto menor for a pressão externa para conseguir a obediência do filho, maior será a internalização das normas (Lytton, 1980). Por outro lado, a reflexão favorece está esta internalização (Hoffman, 1982; Maccoby & Martin, 1983), especialmente quando as técnicas de indução vão acompanhadas de expressões de afeto (Rollins & Thomas, 1979).