4 Methods and research design
4.4 Analyses
2.2.1 Formulação do problema
Qualquer investigação científica inicia-se com a definição de uma preocupação temática, a qual resulta na formulação de um problema de investigação. Este origina o desenvolvimento de um plano de ação e a escolha de um conjunto de procedimentos. A escolha da problemática para esta investigação não foi neutra e resultou de motivações pessoais e profissionais e da observação do contexto.
Por um lado, no âmbito profissional, a preocupação com os resultados do desempenho dos alunos, a persistência de alguns problemas significativos na aprendizagem da Matemática, muito especialmente a generalizada dificuldade na resolução de problemas, no raciocínio matemático, na aplicação de conhecimentos a situações novas, na comunicação das suas ideias e raciocínios e o desinteresse crescente dos alunos (Ponte, 2003). Por outro o reconhecimento de que estes problemas devem conduzir à criação de novas metodologias e novas soluções (Ponte, 2003) no ensino da Matemática e ainda as recomendações na literatura que aconselham à prática de determinados jogos de estratégia como meio de desenvolvimento de competências úteis ao ensino/aprendizagem da matemática (Silva & Santos, 2011; Smole, Diniz & Cândido, 2007; Bragg, 2006; Moreira & Oliveira, 2004; Palhares, 2004; Lee, 1996).
Do ponto de vista pessoal, as experiências, como docente responsável pela implementação dos jogos matemáticos Ouri, Pontos & Quadrados, Semáforo e Gatos & Cães, no âmbito do Plano da Ação da Matemática, em 2010, assim como uma formação sobre o jogo de xadrez, no âmbito da formação contínua para professores, em 2012.
Por último, as informações recolhidas na observação do contexto indicam acentuadas dificuldades na área da matemática e as baixas expectativas em relação ao sucesso nesta área curricular , vieram reforçar as motivações profissionais e pessoais para este estudo.
Delimitada a problemática, a questão de investigação definiu-se na seguinte pergunta:
Pode o jogo de xadrez constituir-se um instrumento pedagógico-didático na área curricular da Matemática?
Para responder a esta questão de investigação foram dados passos metodológicos (figura 3), os quais são explicitados seguidamente.
2.2.2 Revisão de literatura
A revisão de literatura constituiu a primeira etapa deste trabalho e concretizou-se em dois momentos diferentes. Num primeiro momento, a revisão de literatura apresentou uma abordagem superficial, sendo o primeiro contacto com o tema, apontando referenciais gerais para sustentar a pertinência e os objetivos deste projeto de investigação. Num segundo momento, aquando a redação do Relatório Final, fez-se uma pesquisa bibliográfica de outras fontes para obter diferentes perspetivas do tema e tornar o trabalho com maior rigor científico, mais fiável e atualizado. Recorreu-se a artigos de revista, revistas especializadas, artigos científicos, relatórios e outras investigações na área.
2.2.3Recolha de dados
A investigação-ação pressupõe a utilização de métodos e técnicas diversificadas que permitem recolher, de forma criteriosa, informações de forma a tornar mais fácil a sua análise, planear uma intervenção ajustada e adequada às necessidades e permitir pertinentes reflexões (Barroso, 2015). À medida que o projeto se desenrolava, foram recolhidos um conjunto de dados, recorrendo a diferentes estratégias: análise documental, observação, notas de campo, diários de aula, questionários, registos áudio e fotográficos e produções das crianças. Assim, de uma forma sucinta, passa a explicitar-se o modo como foi cada uma das estratégias utilizada. No final, os dados recolhidos permitiram também compreender se os objetivos traçados inicialmente para o presente trabalho foram cumpridos.
Análise documental
A análise documental foi a primeira estratégia de recolha de dados e consistiu na pesquisa, leitura e apreciação de documentos escritos com as finalidades de extrair a informação para uma contextualização dos factos e de complementar informações contidas nos documentos. Assim, foi feita uma análise qualitativa de relatórios e dados estatísticos para suportar a revisão de literatura efetuada e do Projeto Educativo do Agrupamento de Escolas, para caraterizar o contexto social e geográfico da escola. Nesta medida, foram realizadas fichas de leitura e quadros orientadores de leitura.
Observação
A observação foi, sem dúvida, um dos principais instrumentos utilizados no presente trabalho, sendo que, numa primeira fase, realizou-se de uma forma mais naturalista, com um olhar pouco focado. Numa segunda fase, a observação foi mais direcionada, no sentido de recolher informação pertinente ao estudo em desenvolvimento, nomeadamente a observação dos alunos e das metodologias dos professores cooperantes e ainda a observação dos alunos durante a intervenção desenvolvida, no âmbito da Prática de Ensino Supervisionada. A observação esteve, portanto, presente ao longo de toda a intervenção, estando intimamente relacionada com a avaliação, permitindo planear as atividades, conceber estratégias e reajustar a intervenção aos alunos e à questão de investigação. Foram construídas grelhas de observação para caraterização das turmas (anexo 1) e para avaliação de cada sessão de intervenção. A observação foi direta e participante.
Notas de Campo
Foram utilizadas essencialmente na observação do contexto. No decorrer da observação do contexto, as notas de campo constituíram-se como instrumento de registo e incluíram registos descritivos das intervenções implementadas pelos professores cooperantes, bem como notas interpretativas e ideias que iam emergindo. Na perspetiva de Máximo-Esteves (2008), as notas de campo podem ser realizadas em qualquer situação, tendo em conta os propósitos do observador, podendo ser realizadas no momento exato do acontecimento, ou posteriormente. No entanto, o mesmo autor aconselha que o registo deva ser feito o mais rápido possível para que não sejam esquecidos dados importantes.
Diários de Aula
Foram produzidos os diários de aula, cujas reflexões por sessão de intervenção constam dos portefólios da Prática de Ensino Supervisionada, no 1º e 2º ciclos do Ensino Básico produzidos no final do estágio. Os diários de aula possibilitaram a reflexão sobre a Prática de Ensino Supervisionada, ajudando a realizar uma avaliação do trabalho, a detetar lacunas e ajustar estratégias para as ultrapassar (Barroso, 2015). Para a realização dos diários de aula, utilizaram-se as produções dos alunos, os registos áudio e fotográficos, grelhas de observação e listas de verificação, assim como as avaliações e autoavaliações dos alunos. Este instrumento, para além de técnica de recolha de dados, foi também utilizado como
forma de avaliação contínua do trabalho, uma vez que foi-se ajustando e direcionando a intervenção, no sentido de uma melhoria da mesma, complementando com novas revisões de literatura.
Questionários
De acordo com Tuckman (2000) um dos processos mais diretos para encontrar informação sobre determinado problema consiste em formular questões que, de alguma forma, estejam relacionadas com o problema. É uma forma simples e económica de recolher informações sobre atitudes e opiniões. Devem, por isso, ser formuladas questões que sejam simples e claras (Barroso, 2015).
Aos alunos foram aplicados, antes da intervenção, um questionário de identificação e de caraterização individual no 1º ciclo (anexo 2) e um outro questionário comum ao 1º e 2º ciclos para recolher as perceções, conhecimentos, expectativas ou opiniões individuais iniciais das crianças sobre o jogo de xadrez (anexo 3). No final da intervenção, foi aplicado o questionário com questões idênticas ao questionário inicial e outras questões com o objetivo de fazer uma avaliação da intervenção e compreender de que modo se alteraram as perceções que as crianças tinham sobre o jogo de xadrez (anexo 4). Note-se que os questionários aplicados antes da intervenção na Prática de Ensino Supervisionada no 1º Ciclo são ligeiramente diferentes do 2º Ciclo, devido a dois fatores: a) à natureza interdisciplinar do 1º ciclo; b) ao amadurecimento de algumas ideias provenientes da avaliação da Prática de Ensino Supervisionada do 1º Ciclo e outras decorrentes da revisão de literatura efetuada.
Também, ao longo da intervenção da Prática de Ensino Supervisionada no 2º Ciclo, foi aplicado um questionário aos professores sobre a utilização do jogo de xadrez na promoção de aprendizagens no contexto da sua disciplina (anexo 5).
Registos áudio e fotográficos
De forma a complementar as técnicas mencionadas, e no sentido de tornar a informação recolhida o mais fiel e próxima possível, foram introduzidos os registos áudio e fotográficos, através de instrumentos audiovisuais, nomeadamente a máquina fotográfica e de filmar. Todos estes instrumentos foram auxiliares de memória, na medida em que “as análises destes mesmos elementos permitiram ver, ouvir e experienciar de novo o já
vivenciado, contribuindo também para o processo de desenvolvimento profissional do professor/investigador” (Barroso, 2015, p.39).
Produções dos alunos
Os trabalhos desenvolvidos pelas crianças revelaram-se um instrumento fundamental, tanto para a recolha de informação, ao longo da intervenção, como para a própria avaliação de todo o projeto. De facto, as produções dos alunos foram observadas e analisadas nos diários de aula, uma vez que, através delas, do ponto de vista da avaliação contínua, conseguiu-se analisar e refletir sobre as aprendizagens que os alunos adquiriram e efetuar reajustamentos na intervenção.
A utilização de múltiplos instrumentos e estratégias aqui mencionados permitiu, assim, obter dados de diferentes dimensões, proporcionando uma melhor análise do contexto e um plano de ação mais adequado e uma avaliação integradora.
III - DIAGNOSTICAR E CONTEXTUALIZAR
Reflexão para ação
A análise do contexto e a identificação das suas fragilidades e potencialidades são peças fundamentais na construção de um plano de ação ajustado e eficaz e constituem momentos de diagnóstico, antes da intervenção educativa (Barroso, 2015).
Neste sentido, no âmbito deste trabalho, o diagnóstico decorreu em dois momentos. O primeiro relacionou-se com a caraterização do contexto escolar, a um nível macro, baseado essencialmente na análise documental, na observação e na análise dos questionários de identificação e caraterização individual, permitindo conhecer a constituição das turmas, as práticas letivas dos professores cooperantes e o funcionamento da escola (anexos 1 e 2). O segundo momento ocorreu após a caraterização de contexto e corresponde a um diagnóstico mais específico, estritamente relacionado com a problemática do estudo, na medida em que se pretendeu recolher informações sobre a recetividade dos alunos relativamente ao jogo de xadrez, aferir conhecimentos destes sobre jogo e identificar as suas perceções quanto à utilização do jogo no processo de ensino/aprendizagem (anexo 3).