Em termos literários, o romance O cortiço apresenta alguns aspectos que se enquadram no Realismo, pois para compor suas personagens Aluísio Azevedo baseou-se em observação, coleta de dados, inclusive aqueles relacionados à conduta. Ele retratou uma parte da realidade da cidade do Rio de Janeiro. Como vimos no Capítulo 1, ele vestiu um casaco, calças remendadas e alugou um quarto num cortiço em Botafogo onde passou a viver e registrar suas observações. Ele procurava se colocar na condição dos habitantes do cortiço para poder compor suas personagens. Esta atitude é semelhante à adotada por Émile Zola em relação aos habitantes de uma mina para compor suas personagens em O Germinal.
Por outro lado, apresenta várias características do Naturalismo literário tratando das condições fisiológicas e da influência que o meio exerce sobre os indivíduos. Em O cortiço é possível perceber que o meio levou diversas personagens a tomarem determinadas atitudes. Por exemplo, João Romão tornou-se cada vez mais ambicioso sem se preocupar com as condições de vida dos moradores do cortiço, explorando-os. Teve a mesma atitude em relação à Bertoleza, porém em um grau maior chegando a forjar uma carta de alforria para se beneficiar da situação. Devido às atitudes de João Romão Bertoleza foi levada ao suicídio.
Outra personagem que acabou se degradando no decorrer da trama foi Piedade, que após ser abandonada por seu marido Jerônimo tornou-se ébria e prostituiu-se, passando a viver em condições piores as anteriores, no cortiço Cabeça de Gato. O personagem Jerônimo de trabalhador converteu-se em criminoso ao assassinar Firmo, para unir-se a Rita Baiana. Poucos moradores do cortiço não foram afetados pelas condições do meio como Alexandre ou Henrique, por exemplo. Muitos deles morreram em decorrência das condições de insalubridade e do incêndio que ocorreu no cortiço.
Foi possível perceber através desta pesquisa alguns aspectos relacionados com a vida de Aluísio Azevedo que normalmente não aparecem nos livros didáticos. Por exemplo, o fato de Aluísio quando adolescente ter
trabalhado como balconista e executado também serviços de limpeza e sofrido maus tratos por parte dos patrões. Além disso, esteve sujeito a dificuldades financeiras e más condições de moradia. Assim, essas experiências podem ter contribuído para a composição de suas personagens.
O cortiço consiste em uma amostra da situação social do Brasil, mais
especificamente da cidade do Rio de Janeiro. Como vimos no Capítulo 2 desta dissertação, no final do século XIX houve um aumento de fábricas no Rio de Janeiro, ascensão da classe comerciante e uma aceleração no crescimento da população em parte causado pela imigração desenfreada que acarretou a proliferação dos cortiços. Esses consistiam em um ambiente insalubre favorável a disseminação de doenças como a febre amarela por exemplo. Essas habitações, onde havia uma grande quantidade de pessoas eram consideradas um ambiente favorável a produção de miasmas que seriam responsáveis pelas mais diferentes doenças.
O problema dos cortiços representou uma preocupação para os médicos higienistas levando-os a propor e tomar medidas que restaurassem a boa qualidade do ambiente. Vários relatórios sugeriam que os cortiços fossem expropriados e destruídos sendo substituídos por casas individuais para a população desfavorecida. Além do quê, os próprios habitantes do cortiço eram discriminados por várias razões inclusive por serem relacionados a marginalidade, vadiagem e criminalidade. Representavam a escória que ameaçava os outros segmentos da sociedade. A situação gerada pelos cortiços provocou debates sobre questões de higiene pública, a tomada de uma série de medidas e a proposta de medidas legais muitas vezes autoritárias que restringiam a liberdade de ir e vir de seus habitantes.
Outro elemento presente neste romance de Aluísio Azevedo é o problema racial, a situação de desigualdade e desconforto dos negros no período que se seguiu à abolição da escravatura.
Este estudo proporcionou a oportunidade de reflexão sobre vários aspectos da relação entre literatura e ciência que podem ser objeto de investigação futura. Concordamos com Gode-Von Aesch de que o romance naturalista, oferece um material rico para estudos que lidem com essa interface.
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