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2   Metode

2.4   Analysemal

Como já foi mencionado na Introdução deste trabalho, participaram da pesquisa duas professoras, as quais chamarei Professora 1 e Professora 2, a coordenadora pedagógica e também a diretora do CMEI. Elas são mulheres entre 40 e 45 anos, duas casadas e duas viúvas, mães, maranhenses e residentes em Imperatriz há mais de vinte anos. Na tentativa de conhecê-las melhor, foram utilizados, além da observação sistemática, uma entrevista e também um questionário. Tais instrumentos permitiram a construção de um perfil dessas profissionais no que tange aos seguintes aspectos: formação inicial e continuada, experiência profissional e concepções que fundamentam a prática na educação infantil.

Inicialmente, sobre a formação inicial, foi possível constatar que todas as profissionais possuem o Curso Normal de nível médio e também cursaram alguma licenciatura. As duas professoras são graduadas no Curso Normal Superior oferecido pela Universidade Estadual do Maranhão22, e tanto a coordenadora como a diretora são licenciadas em História, a primeira, por uma instituição particular de Ensino Superior e a última pela Universidade Estadual do Maranhão. Mesmo considerando que as trajetórias profissionais e

22O curso Normal Superior foi oferecido pela Universidade Estadual do Maranhão na modalidade

pessoais dos indivíduos não se constroem individualmente, mas nas relações sociais, considerei importante conhecer algumas especificidades de cada professora, na tentativa de compreender como elas interiorizam os saberes advindos da formação em sua relação com a prática pedagógica.

A Professora 1 entrou na docência há quinze anos e sempre atuou na educação infantil. Entretanto, sua opção inicial não foi o magistério, antes ela cursou Contabilidade (antigo 2º grau) e trabalhou em algumas empresas. Também atuou com vendas no comércio informal e paralelamente fez o Curso Normal de nível médio. Somente depois de ter atuado em vários campos do setor comercial e não obter o retorno esperado, a professora resolveu prestar concurso público e com a aprovação tornou-se professora da Rede Municipal de Educação em Imperatriz no ano de 1998. Depois de oito anos trabalhando na docência, prestou vestibular e ingressou no Curso Normal Superior.

Desde que iniciou no serviço público, a referida professora passou por diversos processos de formação continuada oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação, dentre os quais se destacam cursos, seminários e palestras. Além disso, como uma necessidade pessoal e profissional, fez também o curso de formação em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Em 2013, concluiu o curso de Especialização em Gestão Escolar por uma instituição particular de ensino. No tocante ao trabalho na educação infantil, a professora afirma gostar de crianças e se identificar com a docência. Entretanto, em sua trajetória profissional, tem enfrentado dificuldades no trabalho com as crianças e destaca:

[...] o meu desejo seria fazer um trabalho bem feito, seria colocar em prática aquilo que eu tenho buscado pra colocar em prática na sala, às vezes, tipo assim, eu procuro meio, pesquisar, fazer, procurar estratégias, metodologias diferentes, converso com um, converso com outro, passo horas procurando descobrir alguma coisa assim [...] (PROFESSORA 1).

Apesar de não ter escolhido a docência como primeira opção profissional, é possível perceber na fala da professora a preocupação com as crianças e com o desenvolvimento de estratégias metodológicas que enriqueçam a prática pedagógica. Tal postura é fundamental para o exercício da docência tendo em vista que o bom planejamento reside no estudo e na organização de situações de aprendizagem para as crianças. Dessa maneira, “[...] a postura do professor deve ser a de organizador, mediador e elaborador de materiais, ambientes e atividades que permitirão às crianças construir ações sobre objetos e formas de pensamento” (BRASIL,2009b, p.37).

A Professora 2 possui mais de dezessete anos de experiência na docência. Escolheu ser professora por se identificar com o trabalho com crianças pequenas e, desde então, nunca teve outra profissão. Tem larga experiência na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, atuando em escolas públicas e privadas. Está na Rede Municipal de Ensino desde o final da década de 1990 e durante esse tempo vem participando de diversos processos de formação continuada oferecidos pela SEMED, tais como cursos, palestras, seminários e congressos, em especial, os seminários da Projecta desde o ano de 2009.

Em 2011, ela concluiu o curso de especialização em Psicopedagogia oferecido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Imperatriz (STEEI), em parceria com uma instituição particular de ensino. Durante o ano de 2012, período de realização desta pesquisa, ela assumiu dois turnos na creche, atuando com crianças de 1º período. Em 2013, além de trabalhar na creche, ela possuía um segundo turno em outra escola, como professora de uma turma de 1º ano e por esse motivo compõem o grupo de formação de professores alfabetizadores vinculados ao Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). Ao falar sobre a relevância do trabalho na educação infantil, ela ressalta:

É que na realidade, em primeiro lugar, a gente se torna criança como eles, que a gente se torna pequeno pra conhecer a cabeça de cada um, como funciona a realidade da família, então é uma maneira assim destacada, diferenciada de ver cada criança. Então isso já é um crescimento pra um profissional que consegue lidar com esse tipo de atitude, de desenvolvimento, de maneiras. Então é muito bom a gente criar essas maneiras pra trabalhar com cada um, com a diversidade de conhecimentos dentro da sala de aula (PROFESSORA 2).

Na fala da professora, é possível perceber certo interesse pelas necessidades e peculiaridades apresentadas pelas crianças. O fato de se preocupar com a realidade da família, com a diversidade de conhecimentos expressos e na busca por “maneiras” para se trabalhar com essa realidade pode denotar uma concepção de educação infantil que coloca a criança como foco do planejamento. Isso é importante, pois abre espaço para o reconhecimento das singularidades infantis e rompe com velhas concepções nas quais as práticas na educação infantil “[...] cumpriram sem questionamento o papel de ‘homogeneizar’ os comportamentos das crianças e prepará-las para tornarem-se ‘bons alunos’ para a escola fundamental” (BRASIL, 2009b, p.60).

A coordenadora ingressou na docência no final da década de 1980 atuando como professora leiga23 e somente em 1996 concluiu o Curso Normal de nível médio e no ano

23 A expressão leigo/a refere-se aos/às profissionais que não possuem a formação específica para o magistério,

seguinte cursou o 4º ano adicional. Em 2007, mesmo trabalhando na educação infantil, optou por cursar Licenciatura em História e, após a conclusão, uma pós-graduação Lato Sensu na mesma área. Ela está na Rede Municipal de Ensino desde a década de 1990 e durante esse tempo vem participando de diversos processos de formação continuada, tais como cursos, congressos, palestras e seminários, dentre os quais ela faz questão de destacar: “O perfil do professor de educação infantil; Dinamizando experiências para favorecer a aprendizagem; A importância do brincar na infância” e também a sua participação no “II Congresso Internacional de Educadores”.

Com dezesseis anos de experiência na educação infantil, ela afirma gostar de trabalhar com crianças pequenas e que, apesar de atuar na coordenação da creche, talvez retorne ao trabalho docente, pois se identifica e tem “compromisso com a educação das crianças menores”. Sobre a relevância da experiência na educação infantil, ela ressalta: “O carinho das crianças, a prática da gente trabalhar também, a gente desenvolver com as crianças, eu considerado melhor do que com as crianças maiores, também eu me identifico mais em trabalhar com as crianças, acho que isso aí é o básico” (COORDENADORA). Em sua fala, a coordenadora deixa claro que sua opção pelo trabalho com crianças está centrada no aspecto relacional, nas possibilidades de afeto construídas com as crianças. Sem dúvida, isso é importante, entretanto, a docência na educação infantil exige muito mais, assim:

Não podemos esquecer que é a intencionalidade pedagógica que define o trabalho docente e ela somente é conquistada através de uma formação profissional sólida, um olhar sensível e atento, assim como disposição em oferecer às crianças oportunidades de conhecerem aquilo de mais instigante e importante que o mundo apresenta à nossa sensibilidade e racionalidade, através de situações que as desafiem e, ao mesmo tempo, aconcheguem. (BRASIL, 2009b, p.44-45).

Esse é sem dúvida um grande desafio para a docência, pois esbarra na formação, que em muitos casos não corresponde às demandas apresentadas pelas crianças no contexto da educação infantil. A construção de uma Pedagogia comprometida com a criança implica necessariamente o reconhecimento das especificidades infantis, o acompanhamento pedagógico sistemático e o desenvolvimento de atividades que estimulem a criação e ao mesmo tempo permitam o acolhimento de suas fragilidades em um processo de questionamento e reflexão constante sobre a prática pedagógica.

A diretora começou na Educação em 1987. Durante cinco anos, atuou como professora de pré-escola e está há dezessete anos na gestão da mesma instituição. Possui o Curso Normal de nível médio e Licenciatura em História pela Universidade Estadual do

Maranhão concluída em 2003. Atualmente, cursa especialização em Gestão Pública em Educação e Direitos Humanos através da Plataforma Freire. Durante todos esses anos no serviço público, participou de diversos processos de formação continuada oferecidos inicialmente pela Secretaria de Desenvolvimento Social, à qual as creches eram vinculadas, e posteriormente pela SEMED. Nos últimos anos, ela destaca em seu processo de formação continuada, os encontros oferecidos às creches através da SEMED e o Curso de Gestão Descentralizada. Além desses, há a participação em seminários e palestras, tais como: “Educação Inclusiva, Estatuto da Criança e do Adolescente e II Congresso Internacional de Educadores”.

Sobre a relevância do trabalho em educação infantil, a diretora ressalta: “[...] acho assim que é emocionante, que muitas escolas assim não conseguem, é ter assim a família dentro da escola, né? E não é assim o que eu gostaria, mas os pais que participam, eu considero assim uns 80%, pra mim isso é muito relevante, né?” (DIRETORA). Destaca-se na fala da diretora a preocupação com a participação das famílias na creche. Isso é importante uma vez que uma gestão de qualidade na educação infantil deve ter como ponto de partida a presença das famílias no cotidiano das atividades. Entretanto, tal presença deve estar sedimentada no diálogo e na participação ativa, a fim de que os projetos e ações sejam submetidos à consulta e decisão coletiva. Nesse sentido, Paniagua e Palácios (2007, p. 217) ressaltam: “[...] quando as famílias se sentem realmente ouvidas e respeitadas, também se mostram predispostas a ouvir e aprender”. Tal prática possibilita um canal de comunicação capaz de estimular não só a presença, mas também a produção de conhecimentos, projetos e ações que enriquecem o processo educativo.

Após essa breve caracterização das crianças, famílias e profissionais envolvidos/as na pesquisa, é preciso saber o que diz o Projeto Político Pedagógico do CMEI na tentativa de compreender de que maneira ele influencia a prática docente. Além disso, cabe questionar: Quais são as outras orientações que definem o currículo? Quais as determinações da Secretaria Municipal de Educação? Existem documentos norteadores do trabalho nas instituições de educação infantil? Somente assim será possível compreender as especificidades da prática pedagógica e mapear o currículo desenvolvido no CMEI.

3.3 Especificidades da prática pedagógica: Projeto Político Pedagógico e orientações da