Observa-se na contemporaneidade uma difusão da palavra solidariedade, não apenas entre grupos religiosos, mais também em discursos de governos, ONG´s e instituições das mais variadas. Um possível reflexo da importância do tema para o presente momento histórico da humanidade, marcada pela miséria, injustiça e exclusão social. Por ser um termo polissêmico, se faz necessário perscrutar pelo seu sentido e o modo pelo qual o termo é compreendido nesta pesquisa.
Segundo Faria, a idéia de solidariedade não é nova no pensamento ocidental52. Sua origem teria duas vertentes intelectuais: o estoicismo53 e o
cristianismo primitivo54. Para Espeja uma primeira aproximação do termo solidariedade aponta para a seguinte direção: “é solidário aquele que pensa
52 De acordo com Faria “é somente no fim do século XIX que aparece a lógica da solidariedade
como um discurso coerente que não se confude com ‘caridade’ ou ‘ filantropia’. A lógica da solidariedade se traduz por uma nova maneira de pensar a sociedade de proteção social, mas também como ‘um fio condutor indispensável à construção e à conceituação das políticas sociais”. FARIA, J.F. de C. A origem do direito de solidariedade. Rio de Janeiro: Renovar, 1998, p. 190.
53 Os Estóicos compreendem uma proeminente Escola Filosófica fundada na Grécia Antiga, por
volta de IV a.C. Recebe este nome porque Zenão (336-274 a.C), seu fundador, ensinava sob os pórticos (stoá) de Atenas. Segundo Batista Mondin, “os estóicos é o movimento filosófico mais original do período helenístico é também o que teve a duração mais longa: fundado nos fins do século IV a.C, continuou a florescer até depois do século III d.C. Isto sem dizer que muitos autores cristãos da Antiguidade e da Alta Idade Média se consideravam herdeiros e continuadores da escola estóica.” Muito disso, pela aproximação de sua visão moral, pois de acordo com Mondin, “o estóico não é uma pessoa solitária, ao contrário, ele tem um sentimento muito vivo de solidariedade humana, porque concebe o indivíduo como parte do Logos. Todos os homens têm a mesma origem e a mesma missão, todos estão sujeitos à mesma lei, são cidadãos de um mesmo Estado e membros de um mesmo corpo. Todos, enquanto homens, têm direito à benevolência”. MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Vol. 1. São Paulo: Paulus, 1982, p.109-110.
54 FARIA, J.F. de C. A origem do direito de solidariedade. Rio de Janeiro: Renovar, 1998, p.
188. Tecendo alguns comentários sobre a fonte da solidariedade cristã, está encontra sua gênese em sua lei moral ou ética. Segundo Mondin “a origem da lei não é convencional nem puramente natural, mas divina. Criado por amor, o homem deve viver uma vida de amor, amor a Deus e amor aos homens. Aqui está a raiz da revolução cristã: impregnar de amor a vida e ações.” Vide: MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Vol. 1. São Paulo: Paulus, 1982, p.109- 110.
não tanto em ‘que será de mim’ quanto em ‘que será do outro’; dando toda sua amplitude à palavra ‘pensar’”55.
A definição anterior de solidariedade conserva importante percepção do termo, isto é, define solidariedade ou solidário como uma disposição do ser humano de voltar seu pensamento não apenas para suas próprias necessidades individuais, mas para aquilo que toca o outro. Todavia, é preciso compreender que muito mais do que um pensamento dirigido ao outro, a solidariedade não se encerra na ação de pensar, ela pressupõe atos concretos, envolvimento real na solução de situações que tocam a vida humana, como intervenção em tragédias, por exemplo. Neste sentido assevera Sathle-Rosa:
A idéia e o ideal da solidariedade consiste, basicamente, no apoiar e realizar ações que favoreçam relacionamentos fundados na justiça e amor. Implica em dar oportunidades ao reconhecer as potencialidades humanas e suas diferenças para tecer as linhas que conduzam à felicidade humana56 .
Pelo explicitado, constata-se que a definição apresentada acima conserva certo avanço em relação a definição anterior. Nela o autor revela meios pelos quais a solidariedade se concretiza na vida humana. Para ele a idéia de solidariedade está intimamente ligada aos conceitos de justiça e amor, bem como vinculada à práxis que promovam a interligação e construção de pontes entre as pessoas com vistas a felicidade humana, como indica Espeja ao demonstrar:
a) Que a solidariedade nasce do olhar profundo sobre a pessoa humana, sujeito de direito inalienáveis.
55 ESPEJA, Jesús. “Solidariedade”. In: RODRIGUES, Angel Aparício (Org). Dicionário teológico
de vida consagrada. São Paulo: Paulus, 1994, p. 1051.
56 SATHLER-ROSA, Ronaldo. Cuidado pastoral em tempos de insegurança: uma hermenêutica
b) A solidariedade não se reduz a prestação ou ajuda transitória, mas antes obedece a um estilo de vida cuja versão é processo continuado de abertura e da prática em favor do outro. Esse processo inclui vários passos: entrar em contato experiencial com a situação real do outro; acolhendo o outro que se alegra ou sofre, demonstrando-lhe que compartimos com ele; analisando as cousas da situação e empreendendo prática libertadora; conservando viva a utopia ou o olhar em desenlace feliz.
c) Como o homem ‘real’ está situado social e politicamente, a verdadeira solidariedade inclui também essas dimensões. Não é só a misericórdia que se torna eficaz na prática da justiça comutativa; exige também o compromisso na justiça social, buscando a dignidade de todos os homens e trabalhando para mudar a organização social injusta.57
Nesta mesma direção, com algumas variações, os autores Assmann e Sung apresentam valiosa compreensão do tema, concepção esta assumida pelo autor desta pesquisa. Neste sentido, compreende-se que:
Solidariedade tem a ver com o modo de ver o mundo e a vida. Solidariedade é uma relação inter-humana fundamentada na alteridade, que pressupõe o reconhecimento do/a outro/a na diferença e singularidade, atributos da alteridade. Reconhecer o/a outro/a na diferença pressupõe relativizar a si mesmo, as nossas certezas, enfim, todas as mesmices (...) a solidariedade ‘exige uma preocupação por outros/as, uma habilidade de assumir o papel do outro e de ver os interesses e bem-estar de outros como intimamente conectados com os seus próprios interesses e bem-estar’.58
Refletindo sobre as definições até aqui apresentadas, cabem neste momento algumas considerações. Primeiramente, fica evidente que a solidariedade “tem a ver com o modo de ver o mundo e a vida”. Por quê? O olhar humano sobre o mundo é revelador, traz a consciência humana o conhecimento de inúmeras coisas, realidades. É a partir do olhar profundo sobre o mundo em sua volta que o ser humano descobre que habita em um mundo de contradições: dominado pelo sofrimento, injustiça, violência, racismo
57 ESPEJA, J. op. cit.,1051-1052.
58 ASSMANN, Hugo e SUNG, Jung Mo. Competência e Sensibilidade Solidária: Educar para a
etc. Estas realidades tocam aos olhos humanos, penetram no mais íntimo de seu ser e evocam desafios éticos, como indica Silva:
A partir da extrema exterioridade, aparece no mundo o rosto do Outro que se exprime como ‘revelação’. Apresenta-se exterior ao sistema de instrumentos do mundo como uma liberdade que interpela, como alguém que incita. Aparece ‘como aquele que resiste à totalização instrumental’. 59
O rosto do outro sofredor, injustiçado, maltratado, excluído aparece exteriorizado no mundo e salta aos olhos humanos de forma explícita, “escandalosa”, sem “maquiagem”. O mundo não possui mecanismo para esconder tal realidade, pois o ser humano é por essência exteriorizante, objetivante e interiorizante, como lembra Berger:
A exteriorização é a contínua efusão do ser humano sobre o mundo, quer na atividade física quer na atividade mental dos homens. A objetivação é a conquista por parte dos produtos dessa atividade (física e mental) de uma realidade que se defronta com os seus produtores originais como facticidade exterior e distinta deles. A interiorização é a reapropriação dessa mesma realidade por parte dos homens, transformando-a novamente de estruturas do mundo objetivo em estruturas da consciência subjetiva. E através da exteriorização que a sociedade é um produto humano. É através da objetivação que a sociedade se torna uma realidade sui generis. É Através da interiorização que o homem é um produto da sociedade60.
Isto equivale afirmar que o mundo é compreendido como humanamente criado e absorvido pelos homens e mulheres. Neste sentido, não há como fugir os olhos da realidade que se apresenta à volta de cada um, pois constitui-se parte da essência humana, absorver, senão total, parte, daquilo que acontece no mundo, isto inclui, perceber o sofrimento e o rosto excluído.
59 SILVA, Márcio Bolda da. Rosto é Alteridade: Pressuposto da Ética Comunitária. São Paulo:
Paulus, 1995, p. 69.
60 BERGER, Peter L. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião.
Organização de Luiz Roberto Benedetti e tradução de José Carlos Barcellos. São Paulo: Paulus, 1985, p.16.
Em segundo lugar, pensando na expressão evocada acima, “perceber o rosto do excluído”, aqui está mais uma realidade importante para compreender a idéia e o sentido de práxis de solidariedade. A solidariedade nasce do encontro com o outro, o “tu” da relação “Eu-Tu”61, o outro distinto do sujeito que
o percebe, que experimenta a dureza da vida, o “escândalo” da carência de comida, emprego, saúde, moradia, roupa e dignidade mínima, que se mostra ao indivíduo que capta o rosto desse outro, que cobra seus direitos inalienáveis. É por isso que Assmann e Sung afirmam que solidariedade tem a ver com relação inter-humana. É na relação com o outro, o olhar no seu rosto, que se descobre o grito por dignidade e o horizonte ético da solidariedade. Silva indica isto na citação abaixo:
O rosto indica o que se manifesta do Outro. Não acoberta aparências e máscaras. Revela a sua corporalidade, a sua realidade ‘carnal’ (a sua situação social e existencial). Expressa o homem todo, unidade substancial, ser histórico-social, inserido no mundo. Põe a nu a identidade de sua singularidade e do ambiente cultural do qual é proveniente. Corporaliza a concretude da plena revelação de si mesmo, que não pode ser ofuscada ou vendada. Na verdade, a ‘carne’, o rosto do Outro, é único santo entre as coisas criadas, possui dignidade suprema, é o único depois de Deus.62
Em terceiro lugar, tendo em vista as considerações apontadas até aqui sobre solidariedade, depreende-se que a solidariedade tem a ver com uma “sensibilidade empática”, ou seja, a “exigência” de uma preocupação e uma habilidade de assumir o “papel do outro com vistas ao bem-estar comum“, a construção de um mundo melhor. Sentimento este que move a pessoa a sentir
61 Termos caros da filosofia de Martim Buber. É a partir dessa condição ontológica que as
relações humanas mais significativas são tecidas. BUBER, M. Eu e Tu. 2 ed. São Paulo: Cortez & Moraes, 1993. Segundo Zuben “na relação EU-TU o EU é determinado pela presença do outro que está em sua presença como TU. A alteridade é constitutiva do ser pessoal. Está aí a base da afirmação de que o homem é um ser social”. Vide: ZUBEN, Newton Aquiles von. O
Primado da Presença e o Diálogo em Martin Buber. http://www.odialetico.hpg.com.br, acesso
em 17 de abril de 2007.
e se envolver com o drama e sofrimento do outro, o a priori-ético, como chama a atenção E. Dussel
(,,,) o fato de que o rosto do miserável possa ‘interpelar-me’ é possível porque sou ‘sensibilidade’, corporalidade vulnerável a priori (...) Sua aparição não é uma mera manifestação mas uma revelação; sua captação não é compreensão mas hospitalidade; diante do outro a razão não é representativa, mas presta ouvido sincero à sua palavra.63
Este encontro sensível com o outro, afirma no íntimo do sujeito a impulsão ética-subjetiva para sair de seu lugar e se mover em direção do outro, na busca por construir um mundo mais humano, digno, em que haja espaço para a realização plena dos indivíduos. Isto pode parecer uma resposta utópica ou otimista demais para o tamanho de problemas que atingem uma sociedade complexa e ambivalente como a contemporânea, todavia este é o desafio ético que evoca o encontro com o rosto dos homens e mulheres excluídos deste tempo. Gutiérrez em sua definição de solidariedade delineia o papel dos cristãos diante deste imperativo ético que é a vivencia da solidariedade:
Para os cristãos, a solidariedade exprime um amor eficaz por todos e, particularmente, pelos membros mais indefesos da sociedade. Não se trata somente de gestos pessoais; a solidariedade é uma exigência para todo o conjunto social e significa um compromisso de toda a igreja.64
Concluindo este tópico, afirma-se que o termo práxis solidária é entendido aqui, a partir das considerações alhures, como todo o envolvimento humano no sentido de promover ações que busquem libertar e transformar o ser humano excluído de sua condição de desigualdade e pobreza, buscando
63 DUSSEL, Henrique. Ética da Libertação na Idade da Globalização. Petrópolis: Vozes, 2000,
p.367.
restabelecer a sua dignidade neste mundo dominado por um sistema “desumano” e “sacrificial”.