Para concretizar os objetivos da investigação a que nos propusemos recolheram-se dados, através de entrevistas, com 11 professores de CFQ que lecionaram a disciplina de CFQ em turmas que incluíam alunos cegos. Também se entrevistaram oito alunos que frequentaram a disciplina de CFQ no terceiro ciclo em turmas do ensino regular. As entrevistas foram tratadas, depois de transcritas, criando-se um conjunto de categorias de resposta para cada questão. Depois, para poder classificar os tipos de resposta dada pelos participantes, aplicou-se cada conjunto de categorias definidas anteriormente às respostas dadas pelos participantes. Foi necessário fazer ajustamentos em alguns conjuntos de categorias, para as tornar mais objetivas e/ou mais adequadas aos dados em causa. Os dados obtidos foram organizados em tabelas que respeitavam as categorias de resposta e comparados com os dados da literatura.
As conclusões do estudo foram apresentadas de acordo com os objetivos da investigação, formulados no Capítulo I e considerados relevantes para o estudo em causa.
O objetivo geral foi caracterizar as atitudes dos professores de Física e Química e de alunos cegos relativamente à inclusão destes alunos nas aulas de CFQ. Relativamente a este assunto os professores referem que os alunos estão incluídos no ensino regular mas que têm necessidades específicas que muitas vezes não conseguem atender. Este problema está relacionado com a falta de formação dos professores de CFQ nesta área e devido ao facto das escolas não estarem equipadas com os materiais necessários para uma prática mais inclusiva. Os alunos referem, na maioria que se
166
sentem integrados nas suas turmas mas depois, quando explicam como funcionam as aulas de CFQ denota-se que muitas vezes não estão incluídos nas atividades programadas para a turma. À data de recolha dos dados, a inclusão destes alunos nas turmas resumia-se a uma inclusão física não havendo uma verdadeira inclusão do aluno em todas as atividades. No entanto, os professores de CFQ participantes articulavam frequentemente com os PA no sentido de melhorarem práticas. Esta articulação muitas vezes não surtia o efeito desejado já que só um dos PA era também professor de CFQ. A falta de formação em ciências, por parte dos PA, foi um dos pontos referidos como dificuldade no apoio aos alunos cegos que poderia ajudar numa prática mais adequada e inclusiva. Durante as entrevistas alguns professores demonstraram não conhecer a realidade de um aluno cego, na medida em que, não reconheciam que o aluno tivesse capacidade para resolver algumas tarefas ou fosse capaz de aprender alguns conteúdos. O tipo de respostas dadas pelos alunos cegos relativamente ao apreço que tinham com as suas turmas mostrou que por vezes, estas são hostis para os alunos cegos, uma vez que, em algumas situações, os alunos normovisuais não são muito compreensivos com as adaptações feitas para os alunos cegos. A título de exemplo, pode referir-se o facto dos alunos cegos necessitarem de mais tempo para realizar os testes e esta situação não ser bem aceite pelas turmas onde o aluno cego se encontrava inserido.
Foram estabelecidos também quatro objetivos específicos. O primeiro foi averiguar as reações que os professores de Física e Química de alunos cegos têm à inserção destes nas aulas de CFQ. Apesar de, como já foi referido, nenhum dos professores de CFQ ter formação na área de ensino da cegueira e baixa visão, todos tentaram adequar as práticas aos seus alunos. A maioria referiu que demoraram mais tempo a lecionar os conteúdos nas turmas dos alunos cegos e que sentiram necessidade de preparar os materiais necessários e aulas com mais antecedência do que nas turmas onde não tinham alunos cegos. Os professores, apoiaram os alunos cegos em aulas extra, para que estes tirassem dúvidas sobre os conteúdos e realizassem tarefas que não tinham tempo de realizar na sala de aula. A maior parte dos professores referiu que os alunos cegos necessitam de um acompanhamento quase individualizado para completarem algumas tarefas nas aulas de CFQ. Os professores também tiveram necessidade de fazer os testes em outros formatos e disponibilizar mais tempo aos seus alunos para os realizar. Tiveram necessidade de construir materiais como gráficos que eram importantes para os alunos mas que não existiam disponíveis nas escolas nem nos livros dos alunos. Gravaram em áudio parte de conteúdos ou utilizaram o computador
167
para que os alunos não escrevessem tanto na máquina Braille, reconhecendo que a sua utilização interferia na aula devido ao barulho e ao tempo que o aluno necessitava para efetuar os registos. Recorreram mais à oralidade nas turmas em que o aluno cego estava incluído, fazendo descrições de todos os procedimentos. Quando realizavam atividades laboratoriais utilizavam reagentes que os alunos cegos pudessem cheirar ou tocar. Incentivaram os alunos a utilizar outros sentidos. Todas estas adaptações foram feitas pelos professores de CFQ e, na maior parte das vezes, com a colaboração do PA. Uma das adaptações que foi referida pelos professores foi a simplificação de conteúdos. Esta adaptação pode ser discutida uma vez que, nenhum dos alunos cegos dos professores de CFQ, tinha qualquer problema cognitivo. Assim os alunos deviam ter tido acesso ao mesmo currículo que os outros alunos, sem omissões mas com as devidas adaptações. A maior parte dos professores, referiu que a maior dificuldade dos seus alunos era a matemática, o que condicionava os alunos na aprendizagem de vários conteúdos de CFQ. Por isso, simplificavam conteúdos para que o aluno usasse a matemática o mínimo possível. Esta prática não resolve os problemas dos alunos cegos mas contorna os problemas.
O segundo objetivo específico foi averiguar as perceções de professores de alunos cegos e de alunos cegos relativamente à utilização de representações visuais externas nas aulas de CFQ. Todos os alunos cegos, à exceção de um aluno, utilizaram as representações visuais externas através do tato, nas aulas de CFQ. Dois dos professores de CFQ não utilizaram estes materiais, desconhecendo a sua existência. A maior parte dos professores e alunos reconheceram a importância das representações visuais externas pelo tato, mas referiu que, por vezes, estas constituíam um problema para o aluno cego. Apontaram estes materiais como um dos motivos que justificaram as dificuldades dos alunos cegos em alguns dos conteúdos. No entanto, e apesar dos professores referirem que a utilização das representações visuais através do tato é difícil, consideram-nas facilitadoras na lecionação de conteúdos, enquanto os alunos cegos as consideram difíceis. Estas dificuldades prendem-se com a pouca experiência que os alunos têm na utilização destes materiais bem como, o facto dos professores de CFQ e os próprios PA terem dificuldade em explorar as formas de representação tátil na área das ciências. Alunos e professores, deixaram várias sugestões de características das representações externas táteis facilitadoras da sua utilização que indicam que as existentes não reúnem as características ideais, para serem percecionadas pelo aluno cego e pelo seu professor de CFQ. Quando as representações visuais externas táteis
168
existiam mas não eram adequados os professores descreviam as imagens, esquemas e gráficos por palavras.
O terceiro objetivo foi averiguar as perceções de professores de alunos cegos e de alunos cegos relativamente à utilização de simbologia da Química e da Física Braille nas aulas de CFQ. Nenhum dos professores de CFQ tinha conhecimentos quanto à simbologia da Física e da Química. Apesar desta situação, a maioria dos professores tentou arranjar alternativas para ajudar os seus alunos recorrendo ao professor de apoio ou substituindo alguns símbolos por letras do alfabeto árabe. Os alunos referiram que utilizavam a simbologia da Química e da Física Braille mas que esta lhes colocava várias dificuldades, referindo mesmo que um dos temas mais difíceis da disciplina eram as equações químicas devido à dificuldade de representação dos coeficientes e índices. Alunos cegos e professores de CFQ referiram que também o PA apresentava dificuldades no domínio desta grafia, tendo os professores de CFQ detetado erros em algumas transcrições.
O quarto, e último objetivo, foi averiguar as perceções de professores de alunos cegos e de alunos cegos relativamente à utilização de atividades laboratoriais nas aulas de CFQ. A maior parte dos professores de CFQ utilizaram atividades práticas na disciplina de CFQ, e a maioria dos alunos cegos participou também neste tipo de atividades. A maior parte dos professores, referiu que as atividades laboratoriais realizadas no âmbito da disciplina foram uma dificuldade para os alunos cegos. Enquanto outros alunos indicaram as mesmas atividades como divertidas e acessíveis à sua condição Alguns argumentos foram utilizados para justificar as dificuldades dos alunos na realização de atividades laboratoriais como a segurança do aluno, falta de materiais ou impossibilidade do aluno cego fazer observações. Estas dificuldades mostram que existe, da parte dos professores, um desconhecimento da possibilidade dos alunos cegos realizarem atividades laboratoriais, já que muitas destas dificuldades podem ser ultrapassadas com algumas adaptações. Alguns alunos cegos, participantes no estudo parecem acreditar que não podem participar nas atividades laboratoriais devido à ausência de visão. A maior parte dos professores refere que os alunos cegos necessitavam de um apoio mais individualizado do que os alunos normovisuais na realização das tarefas e que no laboratório era necessário adaptar os regentes, para que os alunos cegos pudessem recorrer mais a outros sentidos como a audição, o tato ou olfato. Uma das adaptações que os professores referiram, ter sido necessário realizar nas atividades laboratoriais, foi que, em caso de ser necessário proceder a observações ou
169
no caso de ser necessária a visão, os alunos cegos não participavam na atividade. Esta situação não é desejável, já que, quando se afirma que vivemos uma escola inclusiva os alunos não podem ser colocados de parte não tendo um papel ativo nas atividades como os outros alunos normovisuais. Para além disso, professores de CFQ e alunos cegos consideram que ouvir o que os outros alunos normovisuais estão a fazer numa atividade laboratorial é uma forma de participação. Por vezes, os alunos cegos realizavam trabalhos escritos, porque os professores assumiam que estes não podiam realizar as mesma tarefas que os alunos normovisuais, não tendo em atenção que as competências mobilizadas para o desenvolvimento de um trabalho escrito não são as mesmas que as necessárias numa atividade laboratorial. Quando o aluno participava nas atividades laboratoriais o professor descrevia o que estava a acontecer e os professores de CFQ deixavam os alunos manipular os materiais de laboratório. A maior parte dos participantes na investigação reconhece que a realização de atividades laboratoriais é importante no âmbito da disciplina de CFQ
Os alunos cegos foram ainda questionados acerca das razões para a escolha, ou para a não escolha, da área de ciências, no ensino secundário. Nenhum dos alunos estudava na área das ciências e a maioria dos alunos nunca manifestou o desejo de prosseguir uma carreira científica. Esta situação foi justificada com as dificuldades que apresentavam na matemática. Para além das habituais dificuldades que alunos normovisuais possam ter na matemática, os alunos cegos enfrentam dificuldades acrescidas, na medida em que, a simbologia associada à matemática também lhes oferece mais dificuldade e a análise de gráfico táteis foi apontada, por professores e alunos, como um tema difícil para os alunos cegos. Apesar dos alunos cegos referirem a matemática como uma consequência direta para a não persecução de estudos numa área científica, podemos também concluir que devido ao facto de a maior parte dos alunos não ter tido uma participação ativa na utilização do laboratório, ter pouca experiência na exploração de modelos táteis, apresentar dificuldades na simbologia da Química e da Física Braille poderá ter contribuído para o desinteresse dos alunos pelas ciências. Daí se verificar que nenhum dos oito alunos entrevistados frequentava, à data das entrevistas, a área científico-natural.
170