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8.3. Alternative tillatelser
Sobre a performance, Richard Schechner, argumenta:
nós abordamos o que é performance e o que pode ser estudado como perfor- mance. Mas, o que a performance consegue realizar? É difícil estipular as fun- ções da performance. Através do tempo, e em diferentes culturas, têm havido várias propostas. Uma das mais inclusivas é aquela do sábio indiano Baharata Muni (século II a.C.), que sentiu que a performance é um importante repositó- rio de conhecimentos e um veículo poderoso para a expressão de emoções (ver Baharata box) (2003: 45).
Esta contribuição do sábio indiano para com as funções que a performance exerce, apontada por Richard Schechner, auxilia-nos a encontrar um melhor caminho a seguir no sentido de compreender historicamente os sentidos, as definições teóricas que sustentam a performance. Embora a referência seja do século II a.C., e com a finalidade específica de pontuar as suas funções, mesmo assim possibilita-nos, de maneira mais atenta, acom- panhar a velocidade e a expansão com que o termo performance se irradia nos diferentes mundos do conhecimento.
A performance surgiu em nosso meio, aproximadamente no início da segunda me- tade do século XX. Seus estudos, porém, compreendem uma área de discussões, de en- caminhamentos, conceitos e epistemologia – campo acadêmico – que ainda se encontra em fase embrionária, considerando os estudos de Richard Schechner, Vítor Turner, Clif- ford Geertz, como seus precursores na década de 1970, e os desdobramentos que estes autores, com suas inquietações, provocaram entre os estudiosos desta área do conheci- mento.
Para Schechner, há “muitas maneiras de entender a performance: artística, ritual ou cotidiana” (2003, p. 25). Estas três maneiras de entendê-la nos fazem pensar que não existe nenhuma complexidade na cognição do termo, assim como em sua área de atuação e em suas funções, porém a coisa não parece tão rósea assim, pois para chegar a esse en- tendimento, o autor acrescenta: “Comportamento restaurado é o processo-chave de todo tipo de performance, no dia-a-dia, nas curas xamânicas, nas brincadeiras e nas artes”.
Observamos que é preciso atravessar vários processos relacionados ao comporta- mento humano situado no fluxo de suas relações, para nos aproximarmos de forma mais segura do que essa seja. Entender, porém, os seus imbricamentos sociais, suas diferenças culturais e históricas como base da restauração de comportamentos no seio das relações sociais é nos certificarmos de que: “à medida que se analisa o homem, retira-se camada após camada, sendo cada uma dessas camadas completa e irredutível em si mesma, e re- velando uma outra espécie de camada muito diferente embaixo dela” (Geertz, 1989, p. 28).
A performance transita nesse universo de relações entre o homem cultural, racio- nal e social, e ao residir no interior do movimento ela se institui como força que define a ocorrência, demarcando-a, convencionando-a aos contextos, situações e humanidades para além do mundo racional, intelectual e ideal. Para Schechner, “‘ser’ performance é um conceito que se refere a eventos definidos e delimitados, marcados por contexto, con- venção, uso e tradição. No entanto, qualquer evento, ação ou comportamento pode ser examinado ‘como se fosse’ performance” (Schechner, 2003, p. 25).
Perante a necessidade de fundamentação teórica que possa estabelecer diálogos com os objetivos propostos, decidimos pela escolha desse corpus abaixo descrito, por compreender sua relevância para o processo de análise que será empreendido neste traba- lho de tese. A escolha, então, está relacionada aos objetivos e ao problema a que nos pro- pusemos. Antes, faz-se necessário explicitarmos a intenção de aprofundamento que nor- teia esta investigação.
Ao realizar o estudo da performance da dança bate-barriga no curso de Mestrado, já referenciado, analisamos a situação da performance dessa dança sob os efeitos das a- ções das empresas de monocultura de eucalipto da região. Analisamos as interferências dessas ações sobre as práticas de culturas, com ênfase para a prática da dança bate-
barriga.
Neste trabalho, o chão da pesquisa, o contexto e o fenômeno social permanecem: o distrito de Helvécia, sujeitos produtores afrobrasileiros, suas performances culturais. Po- rém, acrescemos como ampliação e aprofundamento da continuidade da investigação neste estudo de Doutorado, a analise da performance da dança com o propósito de res- ponder à seguinte questão: Como a dança bate-barriga, uma arte performativa que vem
do século XVIII, é um fator de identificação e coesão social da comunidade de Helvécia?
Para o que, consideramos a condição subalterna dos sujeitos e comunidade em face do projeto dominante instituído pela condição moderna, bem como, estabelecemos outros
diálogos com outras âncoras teórico-metodológicas como sugestão para a estrutura inves- tigativa delineada.
O estudo de caso, como objeto desta investigação, foi assim elaborado: “De Colô- nia Leopoldina a Helvécia: estudo da performance/dança bate-barriga (extremo sul da Bahia/Brasil).” Para tanto, objetivamos uma análise da performance como um fator de identificação e coesão social, ao tempo em que intentamos compreendê-la como Patrimô- nio Cultural da comunidade. No campo teórico, consideramos parte da base de sustenta- ção dos estudos realizados, especificamente por Bastide, Geertz, Koopmans e Schechner, ampliando-a para construir uma âncora que pudesse contemplar este estudo em nível de Doutorado.
Assim está sendo mantida a base das teorias de fundamentação que sustenta o fe- nômeno cultural, mas ampliada com outras abordagens que possam dar conta dos novos diálogos propostos, como: as teorias do patrimônio, em Françoise Choay e Néstor G. Canclini; cultura popular, em Michail Bakhtin; diáspora e descolonização, estudos subal- ternos, diferença colonial em Franz Fanon, Gaiatry Spivak, Paulo Freire e Walter Migno- lo respectivamente; dentre outras.
É neste sentido que o fato de a performance da dança bate-barriga - no ato de ba- ter uma barriga na outra como símbolo de agradecimento aos deuses - é produzido há mais de dois séculos no seio da dança, e segundo depoimentos de dançantes e moradores, este ato significa a permanência do diálogo entre a comunidade e as experiências herda- das de seus ancestrais, instigando-nos a primar e a nos aprofundarmos nesta investigação. É, pois, a partir desta seara empírico-conceitual que reside a performance cultural, mais especificamente, a performance cultural da dança bate-barriga. Ela está no interior do movimento da cultura de tradição da comunidade negra de Helvécia, cercada pelas convenções que o ritual lhe outorga como guardiã da ancestralidade e da fidelidade cultu- ral, e por isso, ocupa lugar de centralidade no objeto de investigação, nos seus objetivos e na pergunta da pesquisa.
Ao apontar como essencial a função de armazenamento, de transmissão de conhe- cimentos e de expressões as mais variadas entre os povos, que a performance pode exer- cer, o sábio indiano já citado nos sugere pensar na produzida em Helvécia como um bem cultural que está sendo historicamente armazenado e servido aos moradores como um ponto de conhecimento ancestral, de fidelidade cultural e ética para com os antigos traba- lhadores da comunidade, e consequentemente, para as relações contemporâneas.
O estudo dela, por conseguinte, objeto de nosso estudo, está em seu nascedouro e vem se instituindo como um estudo crítico-social em diálogo com as teorias críticas; a teoria da cultura; as teorias pós-coloniais e a teoria interpretativa das culturas.
O estudo da cultura é parte de uma seara que pouco tem sido investigada nas dife- rentes áreas do conhecimento que compõem o universo acadêmico, científico. Ao longo da história, o termo tem sofrido reações das mais diversas em torno dos sentidos e signi-
ficados que o rodeiam. Assim como de sua ambiguidade e instabilidade em função do mal uso – forma de emprego da palavra, falta de critério para com sua semântica, origem e desenvolvimento na interface das necessidades contemporâneas.
A cultura tem sido utilizada para ocupar um lugar vazio, fechar uma lacuna em um determinado processo, ou para designar coisas, objetos e comportamentos que fogem ou que estão fora ou mesmo na periferia da linguagem, dos conceitos, do conhecimento. São ideias – espiritualidade – que fogem ao que é dito e tido como formal, e consequentemen- te, estão fora de um padrão.
Entender, portanto, a origem e o desenvolvimento do termo cultura, dito de outro modo – sua construção, preservação e desmanche, é possibilitar compreender a dimensão do risco que este termo enfrenta historicamente para atravessar os diferentes obstáculos (ideológicos, políticos, sociais, religiosos e culturais), desde as suas primeiras nuances, quando ainda agregado ao termo latino colere, já se apresentava em meio a diversos sig- nificados, como nos sugere Raymond Williams: “habitar, cultivar, proteger, honrar com veneração” (2007: 117).
Dessa forma, no intento de aclarar o termo em uso, como pano de fundo neste tra- balho de investigação científica, esforçamo-nos em destrinchá-lo em meio ao emaranhado em que residem os seus sentidos. Para tanto, acompanhamos o trajeto da palavra habitar, como pista inicial para este intuito, pois ela tem a sua origem no termo latino colonus; este, passou pelo processo de desenvolvimento para chegar a Colônia. Percebemos então que as palavras habitar e honrar com veneração chamam a atenção do nosso interesse, visto que a primeira designa Colônia, e a segunda sofrendo processos de desenvolvimento a partir do latim cultus, passando para cult, que significa culto.
Colônia e culto são dois termos que exigem atenção por tratar-se, dentre outros in- teresses teóricos, de elementos que estão intrinsecamente relacionados à especificidade do nosso estudo. Colônia, colheita e cultivo são termos que alicerçam historicamente o conceito de cultura, e que de maneira pontual estão peculiarmente ligados ao estudo de caso. Sabemos que no campo prático e material em que o objeto está instituído, necessi- tamos de relacioná-lo a esses termos, trazendo-os para a centralidade numa dimensão teórica, de maneira a construir diálogos possíveis com a sua teoria para melhor explicitar os seus engendramentos com as palavras: “cultura, culto e colonização, que derivam do mesmo verbo latino, colo. Colo significou, na língua de Roma, eu moro, eu ocupo a terra e, por extensão, eu trabalho, eu cultivo o campo” (Bosi, 1992: 11).
Caminhando em direção à relação estabelecida entre o núcleo, ideia e conceito de cultura e o contexto em que o objeto de estudo se originou e, por consequência, foi cons- truído, sentimos a necessidade de ampliar a demonstração da condição semântica do ter- mo colo, no intuito de que melhor se entenda o seu raio de ação, atuação entre os elemen- tos empíricos presentes no caso em estudo, pois para Alfredo Bosi, “Colo é a matriz de Colônia, como espaço que se está ocupando, terra ou povo que se pode trabalhar e sujei- tar” (1992: 11).
Desse modo, a cultura assume um lugar de atuação que abrange e impulsiona o homem e os seus comportamentos: espirituais, práticos, linguísticos para a arena onde está o confronto entre o fazer e o pensar, o manifestar, o sentir e o ato de “experienciar” a morte. Williams elucida: “Cultura assumiu o sentido principal de cultivo ou cuidado e em todos os primeiros usos, cultura era um substantivo que se referia a um processo: o cui- dado com algo, basicamente com as colheitas ou com os animais” (2007: 117).
Nesta proposição, desejamos construir um campo de entendimento acerca dos e- lementos que constituem os sentidos e o conceito de cultura, como um ato do fazer e do cuidar humano sobre a terra, no diálogo frontal com a natureza e o trabalho. Ao fazer isso acreditamos que seja possível nos aproximarmos da síntese que impulsiona a cultura e suas concepções para além do fazer, do cuidar, do lavrar e transformar a terra, a natureza, como um fenômeno social responsável pela ação do pensar, refletir e sentir do homem na coletividade e em sociedade. “Cultura é o conjunto das práticas, das técnicas, dos símbo- los e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social” (Bosi, 1992: 16).
Com essa acepção do termo cultura, foi possível construirmos uma grelha concei- tual ao estudo de caso. Acreditamos, pois, que por se tratar de um estudo que tem a sua origem fincada nos campos da antropologia, da arte, da sociologia e da performance co- mo Patrimônio Cultural, a cultura, no papel de pano de fundo sobre o objeto estendida, e sem o entendimento de suas relações históricas, sociais e etimológicas, poderia provocar uma certa inconsistência de cunho epistemológico, visto que a cultura, como prática soci- al dos homens, é repleta de significações e sentidos os mais diversos, que os enreda aos contextos em que estão inseridos.
Sendo um estudo de caso como objeto plasmado no centro dos comportamentos humanos, performances culturais e patrimônios produzidos no contexto das relações soci- ais, carece de uma tessitura conceitual que possa agregar e acolher os seus diferentes ma- tizes socioculturais e suas idiossincrasias de maneira singular – as significações ancestrais e a subalternidade.
Neste sentido, é preciso reconhecer o termo cultura como um substantivo abstrato que designa diferentes atividades do estrato social como sendo os seus maiores represen- tantes, a exemplo de música, teatro, escultura, cinema, literatura, as artes plásticas, ou de maneira mais geral, as belas-artes. Esse entendimento norteia a compreensão de cultura e a cerca entre paredes do que é historicamente denominado por civilização, conhecimento, técnica, saber científico e credos autorizados. Os sentidos expressos nessa compreensão remontam à noção de cultura como fenômeno de unidade e de caracterização de um gru- po social – uma classe, o que difere, assim, das noções, dos conceitos e práticas das cultu- ras com as quais estão relacionadas ao caso em estudo – as culturas subalternas.
Aprimorando o termo, não obstante ter suas raízes também fincadas nos termos la- tinos, por se tratar de resultado do processo de desenvolvimento daquele, culture, cultus e
foi considerado como um elemento indissociável às práticas, aos sentimentos e às crenças que emergem dos diferentes grupos constituídos no denominado Novo Mundo sob os efeitos da diáspora. A partir desses grupos é que surgem os fenômenos de culturas, sím- bolos, danças e memórias, os quais compõem o objeto em estudo – a performance cultu- ral da dança bate-barriga, Patrimônio Cultural da comunidade de Helvécia.
O Patrimônio Cultural que estamos a tratar neste estudo compreende um conjunto de saberes, de crenças, de objetos e ideias, materiais e imateriais, que cotidianamente é produzido no fluxo das relações e caracteriza o mundo imaginado, ou seja, o mundo arti- ficial criado a partir das necessidades dos homens e que tem por base o mundo natural. Ideias materiais e imateriais se complementam, se fundem muitas vezes para a coexistên- cia do Patrimônio Cultural. Esta compreensão antropológica exige que estabeleçamos alguns marcos conceituais no intuito de melhor elucidar os elos teóricos que se unem nesta travessia de investigação científica, com a intenção de explicitar o ponto de vista de que nos incumbimos. Para tanto, está composto de objetivos, questão da pesquisa como base para a elaboração de respostas, significados e interpretações que possam contribuir para a compreensão do homem, do mundo e dos contextos existentes que atuam como lugares de produção e manutenção do mundo, das coisas, das ideias e das crenças, neste caso – Colônia Leopoldina-Helvécia, os produtores de culturas, as culturas e os contex- tos.
Para o estudo de caso neste contexto, em que o termo cultura é intencionalmente flexionado – estudo das culturas – com o objetivo teórico de poder construir entendimen- tos para a complexidade que reside nestas relações e experiências, diversas, incompletas, elaboramos uma teia de significações conceituais capaz de sustentar o diálogo epistemo- lógico. A saber, estruturam-se os conceitos, as afirmações e as exemplificações que sutu- ram o objeto dentro de seus respectivos autores e campos científicos.
O interesse, a criação, os objetivos, as finalidades e o desenvolvimento da antropo- logia são registros que remontam aos grandes acontecimentos ocorridos entre os séculos XV e XVIII e indicam as sociedades europeias como as responsáveis por esta empreitada. Dentre os objetivos estavam algumas tentativas imbuídas no próprio termo Antropologia, de criar soluções em face dos problemas – urbanizar, industrializar, seguidos da expansão europeia no mundo, sustentada nos elementos antro (homem) e logia (estudo), o estudo do homem. Com este propósito, dedicou-se a compreender os povos, em especial os co- lonizados.
A Antropologia caminha em certa medida ladeada pela Sociologia, que se preocu- pou em compreender as sociedades europeias. Conhecer primeiramente o seu objeto de dominação seria imprescindível, assim como o modo de vida espiritual e os comporta- mentos de um modo geral, para manter o controle, em especial, sobre as terras coloniza- das. Conhecer, explorar e dominar constituíram-se em lema do Velho Mundo em tempos coloniais.
Não há, em nossos objetivos, o interesse de aprofundamento neste preâmbulo, porquanto os registros aqui elaborados têm a função-síntese sobre a Antropologia, como o ramo do conhecimento voltado à compreensão dos contextos que entrelaçam a vida humana no fluxo das relações de culturas. Comunidades, vida rural, sítios históricos, su- balternos e subalternizados e sociedades regidas por culturas.
Assim, esforçamo-nos para cumprir de maneira concisa os objetivos a que nos propusemos para a realização dessa grelha de significados, fundante para o entendimento da cultura, que tem a função de pano de fundo neste estudo de caso. Detemo-nos a tecer uma síntese antropológica no sentido de apresentar os diálogos teóricos fundantes que estabelecemos.
Antropologia Cultural ou Interpretativa é um campo fundado pelo antropólogo americano Clifford Geertz na segunda metade do século XX; suas características estão centradas no estudo da cultura como hierarquia de significados, na construção de uma descrição densa das ocorrências observadas, que tenciona, em meio às armadilhas que a escrita impõe ao homem, estabelecer uma diferença entre a interpretação possível na construção de significados para a análise das culturas e as leis que as regem. Prioriza a interpretação dos nativos como informações de primeira-mão, garantindo seu lugar de integrante imerso no contexto, e ao pesquisador resta o direito à leitura da leitura apresen- tada pelo nativo-informante, e considera ainda a cultura no contexto como um texto a ser lido e interpretado utilizando os recursos da hermenêutica.
Assim, capturamos deste autor as sugestões epistemológicas acerca da concepção de cultura, a prática das culturas como inerente aos contextos em que os indivíduos se encontram inseridos, a cultura como um contexto onde o homem é um animal que vive entre as suas próprias teias por ele tecidas, ou seja, homem, contexto e suas relações. Nes- ta linha de pensamento, fez-se necessário estabelecermos um efetivo diálogo teórico- metodológico com a prática da etnografia, no intuito de produzir uma melhor recolha dos dados objetivados. Ao tempo que assegurou-nos a possibilidade de elaborar uma descri- ção com densidade sobre a realidade observada, bem como a produção de um novo texto que possa denudar com maior proximidade os sentidos, as vivências e os significados da realidade observada no contexto da pesquisa. A prática etnográfica, na perspectiva de uma descrição com densidade, portanto, serviu de eixo aos métodos e procedimentos uti- lizados.
A Antropologia Cultural, ao propor a construção de sentidos sobre a leitura da lei- tura que os informantes fazem da sua realidade, possibilitou-nos tratar a cultura e os comportamentos, experiências vivenciadas no fluxo das relações sociais, como um texto a ser interpretado. As discussões em torno do patrimônio, apesar de nos últimos anos terem sido frequentemente revitalizadas no que diz respeito à ampliação conceitual, às redefini- ções de critérios, de objetos, de atividades e suas finalidades, a exemplo dos documentos internacionais e nacionais que tratam das recomendações, das convenções e decretos-leis, na teoria e na prática ainda demonstram fragilidades e inadaptações no que tange à com-
preensão, classificação, seleção e escolha do que deve ser patrimonializado e das predile- ções.
Acerca dessa questão, Luís Marques assevera que “em quase toda a legislação in- ternacional tem prevalecido o patrimônio material, sobretudo o patrimônio arquitetônico, sendo este apresentado quase como expressão única da cultura” (2005: 6). E nesta discus-