DEL 6 ERFARINGER OG REFLEKSJONER
6.5. Alternativ teori
“Para além do espírito de Kant, não há mais espaço para a investigação: eu estou completamente convencido de que ele colocou no fundamento de todas suas investigações de um modo obscuro os princípios que eu quero estabelecer clara e
determinadamente; para além da sua letra, então, eu
espero poder ir” (BW: 194, a Böttinger, 02.04.1794, GA III/3, p. 92).
“Ah, pudessem os filósofos explicar-se sobre o que eles entendem pela concordância dos pensamentos com os objetos!”1
1.
Afirmar que há algo ainda anterior à letra de Kant, que “Kant sabia muito bem o que não disse” e que “os princípios aqui estabelecidos e a serem estabelecidos se encontram, manifestamente, nos fundamentos dos seus”, não é uma reiteração de Kant, efeito de mera análise de texto. Mas já envolve toda uma interpretação da filosofia crítica e uma tomada de posição diante dela, cuja expressão justamente são as clivagens, percorrendo paralelas a interpretação, entre espírito e letra, sistema e
propedêutica. “Como pode se convencer – continua Fichte – qualquer um que quer se
familiarizar com o espírito da sua filosofia (que bem poderia ter um espírito). Que ele, em suas críticas, não quis estabelecer a ciência, mas somente a sua propedêutica, ele o disse algumas vezes; e é difícil compreender, por que apenas sobre isso seus papagueadores não quiserem acreditar nele” (GWL, GA I/2, p. 335 – nota (98)). Afinal, se é verdade que é de Kant a distinção entre sistema e propedêutica – “ele o disse algumas vezes” – e se a partir dela ele entende a Crítica não como doutrina, mas como “a necessária e provisória preparação para a promoção de uma metafísica sólida como ciência”2, já que é uma “ciência do mero julgamento da razão pura, suas fontes e limites” e, por isso, a ser vista “como a propedêutica ao sistema da razão
1 MAIMON, S. Philosophisches Wörterbuch, Werke III, p. 158. 2 KANT, I. Kritik der reinen Vernunft, BXXXVI.
pura”3, isso contudo, não significa de modo algum, aos olhos de Kant, que o sistema da razão apresentaria os “fundamentos” do saber, enquanto o tribunal da razão poderia se contentar com seus “resultados”, localizando-se em um ponto de vista no qual seriam permitidas certas pressuposições, inaceitáveis, decerto, no interior do sistema.
É o que atestam os textos de Kant que tematizam a distinção entre propedêutica e sistema no interior da própria Crítica. Já pela Introdução à Crítica da
razão pura, nota-se que se trata, antes de tudo, de uma diferença na completude da análise dos conceitos transcendentais, especialmente tocante os conceitos puros do
entendimento na sua relação com os “pós-predicamentos”, em que estes seriam
posteriores às categorias, e não o inverso. “Que a Crítica não seja já a própria
filosofia transcendental, diz Kant na Introdução, repousa no fato de que, para ser um sistema completo, ela teria de conter também uma análise pormenorizada de todo conhecimento humano a priori”4. E a própria denominação kantiana de
Stammbegriffe para as categorias do entendimento já diz muito: sendo “conceitos
fundamentais”, não há nada anterior a eles do que eles poderiam ser derivados, ao contrário, todos outros conceitos do entendimento – os pós-predicamentos – serão deduzidos da “análise completa” dos primeiros, logo, são posteriores. Por isso também, Kant chamará as categorias – os Stammbegriffe – de Urbegriffe, isto é, de proto-conceitos ou conceitos originários. E diz: “em vista dos últimos, há de se observar ainda que as categorias, enquanto os verdadeiros conceitos fundamentais <Stammbegriffe> do entendimento puro, também têm seus conceitos derivados igualmente puros, que, em um sistema completo da filosofia transcendental, não podem de modo algum ser desconsiderados, mas que, em um ensaio meramente
3 Idem, A11/B25. Mais adiante escreve Kant ainda: “essa investigação, que não podemos denominar
propriamente doutrina, mas somente crítica transcendental, já que ela não tem por propósito a ampliação do próprio conhecimento, mas só a sua retificação, e que deve indicar a pedra de toque do valor ou não-valor de todo conhecimento a priori, é aquilo com o que nos ocupamos agora. Uma tal Crítica é, portanto, uma preparação, onde possível, para um organon e, caso esse não deva se realizar, ao menos para um cânone da mesma, somente a partir do qual poderia ser exposto o sistema completo da filosofia da razão pura, possa ele consistir na ampliação ou na mera delimitação do seu conhecimento, tanto analítico quanto sintético” idem, A13/B26.
4 Idem, A13/B27 – grifo nosso. A continuação do texto é também elucidativa: “ora, nossa crítica tem,
decerto, de apresentar uma enumeração completa de todos conceitos fundamentais <Stammbegriffe>, que constituem o conhecimento puro pensado. Só que ela abstém-se conscientemente da análise completa desses próprios conceitos, como também do recenseamento pormenorizado dos conceitos derivados deles, em parte porque esse desmembramento não seria oportuno <zweckmäßig>, (...), em parte porque seria contrário à unidade do plano ocupar-se com a resposta da completude de uma tal análise e derivação, das quais se pode se dispensar haja visto seu propósito”. Idem, A14/B27-8.
crítico, eu posso me dar por satisfeito com a mera menção”5. Mesmo porque, estando em posse desses “conceitos originários e primitivos”, é fácil encontrar os seus derivados; mas “como se trata, para mim, não da completude do sistema, mas somente dos princípios em vista de um sistema, eu reservo esse suplemento para uma outra ocupação”6. Na Crítica da faculdade de julgar, quando então a composição do sistema da filosofia em sistema da natureza e sistema dos costumes7 adquire seus contornos definitivos, novamente vem à tona a diferença entre crítica e propedêutica, e novamente sob a mesma roupagem: a Crítica deve fornecer os fundamentos do sistema, este a análise completa destes incluindo seus conceitos derivados. Agora, entretanto, aparece ainda mais forte a linguagem do fundamento, ou da fundação, que cabe à Crítica fornecer: “se um tal sistema, sob o nome geral de metafísica, deve alguma vez se realizar (cuja realização completa é possível e, para o uso da razão em todas relações, sumamente importante), então a Crítica tem de ter perscrutado anteriormente o solo para esse edifício tão profundamente quanto se encontra a primeira fundação da faculdade dos princípios independentes da experiência, a fim de que ele não afunde em nenhuma parte, a qual traria consigo inevitavelmente o desmoronamento <Einsturz> do todo”8. Enquanto “fundação” do sistema, a Crítica, por conseguinte, não pode depender em nada dele, mas é este que depende dela, já que só sobre seu solo é possível levantar o edifício do saber, enquanto sistema. Daí que a propedêutica da metafísica, ao fundar todos os “conceitos fundamentais” do conhecimento humano e, destarte, sua fundação mais “profunda”, é a própria
condição de possibilidade do sistema – e não o contrário: a Crítica da razão pura,
tomada em toda a sua extensão – incluindo as críticas da razão prática e da faculdade de julgar – “tem de constituir tudo isso antes do empreendimento desse sistema em vista da sua possibilidade”9.
Portanto, nada na letra da Crítica fazia suspeitar que o seu sistema teria de fundar tudo aquilo que ela, enquanto propedêutica à metafísica, havia mobilizado justamente para lhe preparar o terreno, ou seja, que a Crítica teria apenas apresentado os resultados, mas não os fundamentos do saber. É o contrário que se dá segundo a
5 Idem, A81/B107. 6 Idem, A82/B108. 7
Composição, certamente, já configurada na Arquitetônica da Crítica da razão pura, mas definitivamente explicitada na Crítica da faculdade de julgar, quando Kant, enfim, termina a obra crítica e deve passar ao sistema. Cf. KANT, I. Kritik der reinen Vernunft, A841/B869.
8 Idem, Kritik der Urteilskraft, AA V, p. 168. 9 Idem, p. 179.
letra de Kant: o sistema teria de ser derivado da Crítica como algo logicamente
posterior a ela, cabendo a esta a exposição dos princípios do saber – e àquele, seus
conceitos derivados10. A Crítica não teria se colocado em um ponto de vista secundário do saber, mas forneceria ela própria a “fundação” do sistema, o “solo” sobre o qual seu edifício seria erguido. Nada na Critica, por conseguinte, indicava esse remanejamento. Nada exceto as obras de Reinhold e dos céticos Enesidemo e Maimon. São as investigações de Reinhold e sobretudo as objeções céticas de Enesidemo e Maimon que levarão Fichte a essa inflexão de sentido da clivagem entre sistema e propedêutica – inflexão operacionalizada doravante exatamente com a nova distinção entre espírito e letra. “Sobretudo as objeções céticas” dizíamos, porque, ao nosso ver, é só com as dúvidas céticas que se delineia em definitivo o projeto de uma doutrina da ciência enquanto saber de todo saber. Pois, se é verdade que Reinhold é o primeiro, e em definitivo, a refazer a distinção entre sistema e propedêutica já no próprio sentido empregado por Fichte, seu mérito, todavia, se encontra antes no diagnóstico das dificuldades encontradas pela filosofia crítica, quando tomada como
o próprio fundamento do sistema, do que na própria execução desse novo sistema da
filosofia primeira, a Filosofia Elementar. Execução que, ao tomar a representação como princípio fundamental do saber, acaba por reduzir as outras esferas da razão, notadamente, a prática e a expressiva, à esfera teórica, não indo, nessa medida, muito mais longe do que os próprios Stammbegriffe da Crítica; por conseguinte, ainda presa por demais à letra da Crítica, somente repete as mesmas dificuldades com as quais a
Crítica se debate quando se toma ela pela apresentação da fundação do saber, assim
como queria Kant. Fichte não cansará de elogiar Reinhold e seu espírito sistemático, mas sempre adverte ao mesmo tempo que suas objeções, na verdade, “atingem meramente a letra de Kant” (BW: 133a, GA III/1, p. 373). São, afinal, as objeções céticas de Enesidemo e, ainda mais, de Maimon que levarão Fichte a reavaliar a interpretação reinholdiana de Kant e da própria filosofia kantiana, desenhando em
10 Daí também se explicar a declaração de Kant sobre a doutrina da ciência: “a esse respeito tenho de
notar ainda que para mim é incompreensível a pretensão de me imputar este intuito: eu quis fornecer meramente uma propedêutica para a filosofia transcendental, não o próprio sistema dessa filosofia. Um tal intuito nunca me passou pela cabeça, pois eu mesmo avaliei o todo acabado da filosofia pura na
Crítica da razão pura como a melhor característica de sua verdade. (...). esclareço, então, por esta,
mais uma vez, que a Crítica tem efetivamente de ser entendida segundo a letra e ser considerada meramente do ponto de vista do entendimento comum, desde que suficientemente cultivado para tais investigações abstratas”. KANT, I. ”Declaração sobre a doutrina da ciência”. In: Cadernos de
Filosofia Alemã, São Paulo, Dep. de Filosofia-USP, nº 2, p. 59 – trad. Paulo Licht dos Santos. É que Kant e Fichte entenderão por “propedêutica” e “sistema”, coisas diferentes e opostas – é como um dialogo em que quando um fala A o outro entende B e vice-versa.
negativo o projeto da doutrina da ciência e, com ela, a nova interpretação fichteana da letra e do espírito da filosofia crítica. A importância dos céticos para Fichte é confirmada em um excerto do Nachlass:
“quem ainda não entendeu Hume, Enesidemo – onde ele tem razão – e Maimon, e não concordou com eles sobre os pontos que eles estabelecem, ainda não está maduro para a doutrina da ciência: ela responde para ele perguntas que ele ainda não se colocou” (NL, GA II/3, p. 389).
Aliás, a própria figura do cético (da dúvida), mesmo que implicitamente, também está presente ali no texto citado no início de nossa Introdução, referente à pergunta da filosofia pela síntese: “se lhe [ao homem, FG] é permitido apenas refletir um pouco sobre essa curiosa harmonia e sobre a razão de que por que ele pode afirmá-la, então surge uma dúvida acerca dela e uma pergunta pelo fundamento dessa admitida harmonia” (VSS, GA I/3, p. 247 – grifo nosso). Assim, para compreender a doutrina da ciência de Fichte e sobretudo sua pergunta inicial pela síntese e sua solução para essa pergunta pela liberdade, vale a pena retraçar em termos gerais o que ela deve a Reinhold, Enesidemo e Maimon. Tentaremos mostrar ao final, que é especialmente Maimon que determina o caminho a ser percorrido por Fichte, porque é ele que, radicalizando a exigência da gênese, mostrará as insuficiências das leituras kantianas feitas por Reinhold e Enesidemo, mas que, ao mesmo tempo, por ainda ficar preso a um certo ponto de vista limitado, é expressão sintomática do pressuposto de todas essas leituras da Crítica, inclusive da sua. Como diz Fichte em carta a Reinhold já citada anteriormente: “em relação ao talento de Maimon meu respeito é sem limites; acredito firmemente e estou preparado para demonstrar que através dele toda a filosofia kantiana, tal como ela foi inteiramente entendida, até mesmo por você, foi lançada por terra desde o fundamento” (BW: 272b, GA III/2, p. 275). Esse entendimento da Crítica, ou melhor, esse mal-entendimento incidirá, justamente, sobre a síntese a priori de intuição e conceito, tal como estabelecida na Crítica da
razão pura, e sobre aquele conceito que lhe é topicamente devido, a saber, o de uma coisa em si – “fonte comum de todas objeções levantadas contra a filosofia crítica,
tanto céticas quanto dogmáticas” (Aenesidemus, GA I/2, p. 61). O fio condutor dessas análises será a noção introduzida por Fichte ao final da Fundação do saber
teórico da Grundlage de “única verdade possível”, noção que ali se liga à
doutrina da ciência e sua relação com seus antecessores, kantianos e anti-kantianos. A imaginação, afirma Fichte ali, “não ilude, mas dá a verdade, e a única verdade
possível” (GWL, GA I/2, p. 369 (120) – grifo nosso).
2.
O fim da filosofia elementar, diz Reinhold, é estabelecer as premissas da filosofia crítica, tal como ela está exposta na Crítica da razão pura11. Ao contrário do que se pensaria em um primeiro momento, isso não implica algo arbitrário, que existiria somente em uma referência prévia a uma outra filosofia, que igualmente poderia possuir seu arbitrário. É que a filosofia kantiana fez uma descoberta que a distingue das filosofias anteriores. “Segundo minha convicção, os principais momentos da crítica da razão são as formas nela descobertas e completamente enumeradas das intuições, dos conceitos e das ideias, na medida em que elas estão determinadas a priori na natureza da sensibilidade, do entendimento e da razão, e não podem caber às coisas em si”12. Tendo enumerado todas as formas da faculdade de conhecimento, Kant pôde medir o alcance do conhecimento humano e, desta sorte, pôr fim aos conflitos e mal-entendidos que grassavam nas filosofias dogmáticas, tanto nos racionalismos à la Leibniz, como nos empirismos à la Locke13. Por isso, Kant é, para Reinhold, um “reformador da filosofia”. Todavia, como Kant faz uso desses elementos somente em vista da resposta à pergunta posta no fundamento de sua Crítica, a saber, pela possibilidade da metafísica como ciência do suprassensível,
11 REINHOLD, K. Über das Verhältnis der Theorie des Vorstellungsvermögens zur Kritik der reinen
Vernunft. In: Beiträge I, p. 182. Faremos uma análise dirigida de alguns textos de Reinhold, em
especial daqueles que tematizam sua relação programática com Kant e os termos motivadores de sua filosofia elementar, não nos adentrando na própria exposição de sua filosofia. Para um comentário sobre a obra de Reinhold e sua relação com Fichte, vale a pena ver FABBIANELLI, F. ”Einleitung”. In: Beiträge I, pp. XI-XLIII; GUEROULT, M. Op. Cit., todo capítulo 4, particularmente as pp. 72- 110; BAUMANNS, P. Fichtes Wissenschaftslehre – Probleme ihres Anfangs, Bonn, Bouvier, 1974, pp. 27-47; PAREYSON, L. Op. Cit., pp. 80-83; THOMAS-FOGIEL, I. Op. Cit., pp.17-33., mas sobretudo o pioneiro estudo de FRACASSOLI, I. O fato da consciência como primeiro princípio da
filosofia: teoria da representação, tese de doutorado, USP, 2013. Para uma confrontação mais próxima
entre Reinhold e Fichte remetemos também ao estudo de STOLZENBERG, J, Fichtes Begriff der
intellektuellen Anschuung, Stuttgart, Klett-Cotta, 1986, pp. 13-91. Há uma grande concordância entre
os intérpretes sobre a importância de Reinhold para a doutrina da ciência, algo reconhecido publicamente pelo próprio Fichte; o que por vezes se discute é o tamanho dessa importância. Ao nosso ver, cabe antes a Maimon o papel decisivo na elaboração da doutrina da ciência.
12 REINHOLD, K. Über das Verhältnis der Theorie des Vorstellungsvermögens zur Kritik der reinen
Vernunft, Beiträge I, p. 184. Note-se que quando Reinhold descreve a exposição kantiana das formas
da representação de “completamente enumeradas”, ele já está em outro ponto de vista que o kantiano, que ainda afirmava que essa completude analítica só seria encontrada no sistema. Como já dito, Reinhold quer apresentar as premissas da Crítica e não seus “conceitos derivados”.
as investigações empreendidas por ele são em função dela, metafísica, e, por isso, envolvem um limite que, dirá ainda Reinhold, o encerrará novamente em mal- entendidos: “nesse caminho – afirma Reinhold – Kant descobriu efetivamente as
formas das representações da sensibilidade, do entendimento e da razão, mas ele as desenvolveu somente em relação ao seu fim, que não era outro senão mostrar que só é
possível conhecimento objetivo dos Erscheinungen, mas não de uma coisa em si”14. Quer dizer, todos os elementos apresentados pela Crítica estão corretos e são verdadeiros, mas Kant só os analisou e os distinguiu para medir sua extensão e limites, não, porém, em vista deles mesmos como formas específicas da representação em geral. Daí, ele ter se situado em um ponto de vista pleno de pressuposições que levaram inevitavelmente aos mal-entendidos surgidos a partir da
Crítica. É verdade que isso estava permitido a Kant, já que sua investigação era
propedêutica e só devia dirimir a questão pela possibilidade da metafísica como ciência. Mas isso não está posto para aquele que quer fundar a ciência. Convicto da descoberta kantiana e de que ela fornece todos os data para o estabelecimento de uma
ciência rigorosa, Reinhold se propõe expor e fundar todos os pressupostos da
filosofia crítica. Assim, a filosofia elementar nasce do afã de fundar a própria filosofia crítica e de tornar a sua verdade evidente e irrefutável a partir de seus próprios elementos, ou melhor, daqueles elementos expostos na Crítica da razão
pura – no que já se nota a inflexão operada por Reinhold na distinção kantiana entre
propedêutica e sistema, crítica e ciência.
Com efeito, a principal pressuposição da Crítica, para Reinhold, fonte de todas as outras, encontra-se no conceito de experiência tal como utilizado por Kant. Kant teria provado a aprioridade das formas das representações a partir da necessidade dessas formas, e, por sua vez, essa necessidade através da possibilidade
da experiência; e é com essa caracterização “de tornarem a experiência possível” que
a Crítica da razão pura mostra que a realidade objetiva dessas formas está limitada aos objetos da experiência15: as representações sensíveis e as do entendimento são constitutivas para a experiência, as da razão são regulativas. Ou seja, dado que há uma experiência necessária, em que as percepções se conectam de modo necessário, é preciso admitir formas das representações que, a fim de fundar essa necessidade, só podem ser a priori e ter sua fonte, por conseguinte, na razão, e todos os conceitos que,
14 Idem, p. 191. 15 Idem, p. 193.
para Kant, constituem a solução à pergunta pela possibilidade da metafísica – como representação, percepção sensível, objetos, conexão e necessidade – têm seu lugar em função do conceito da experiência e são suas partes constituintes. “A experiência é, portanto, a verdadeira e última razão <Grund>, o fundamento <Fundament>, sobre o qual está construído o magnífico edifício doutrinário da Crítica da razão pura. A
representação das percepções em uma conexão legal e necessariamente determinada, admitida como um factum <Faktum>, do qual Kant pôde bem pressupor
que ele seria concedido a ele, é a base <Basis> do sistema kantiano”16.
Ora, quem não compartilha essa definição de experiência como percepções necessariamente conectadas, já duvidará da solução kantiana – e há até mesmo, diz Reinhold, matemáticos que tomam a necessidade da matemática por hipotética17. Mais que isso: essa pressuposição kantiana envolve uma série de elementos que, caso tomados sem as devidas explicações e fundações, levam aos mal-entendidos enfrentados por Kant. A começar pela própria distinção capital kantiana entre juízos analíticos e sintéticos, ponto de partida para mostrar que a ligação necessária das