“– Toda a pessoa que se quizer assentar por irmão nesta Irmandade do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, seja homem ou mulher, Branco, Pardo, ou Preto, Escravo, ou Livre, se lhe fará assento em hum Livro...”
(MIRANDA, 1984-5, p, 55)
A transcrição de parte do Capítulo 1º do Livro de Compromisso da Irmandade do Senhor Bom Jesus do Matozinhos de Bacalhau convida a todos a se reunirem nesta Confraria como irmãos, sem entraves sociais ou raciais. Esta Irmandade propiciou a construção do Santuário do Senhor Bom Jesus do Matozinhos e das Casas de Romaria e a realização dos tradicionais e concorridos Jubileus, que são concretizados desde o século XVIII, conforme recibos de pagamentos a músicos e sacerdotes para os sermões e confissões. O Livro de Compromisso da Irmandade do Bom Jesus de Bacalhau constava de 16 capítulos que regulavam as entradas e modo de dirigir a Irmandade no respeito ao culto divino e bem espiritual tanto dos vivos como dos mortos. Não se sabe ao certo a fundação da Irmandade que foi anterior a 1781, sabe-se que os Jubileus já existiam a partir da solicitação ao rei da provisão dos estatutos datada de 1792 (MIRANDA, 1984-5, p ).
As Irmandades ou Confrarias, associações leigas com fins religiosos consolidaram-se, no setecentos, na Capitania de Minas Gerais, quando, a partir de 1773, a Companhia de Jesus foi proibida de atuar na região pela legislação portuguesa, para impedir a evasão do ouro. As Confrarias existiram desde o início do Cristianismo e se fortaleceram na Idade Média na Europa quando, de um modo geral, todas as organizações de ofícios e de profissionais tiveram caráter religioso. Nos primeiros tempos, a Irmandade do Senhor do Bom Jesus do Matozinhos e, hoje, a Associação local ficaram responsáveis tanto pela organização dos Jubileus quanto pela preocupação e preservação dos monumentos e das Casas de Romaria.
Em Bacalhau festeja-se, até hoje, anualmente, o Jubileu do Senhor Bom Jesus do Matozinhos, a mais importante tradição comemorativa da região. As datas festivas do Jubileu fixaram-se, por quinze dias, entre os dias 1° a 15 de agosto de cada ano. Nesta ocasião, o distrito de Bacalhau recebe uma multidão de fiéis que em peregrinação, permanecem nas Casas de Romaria por duas semanas para acompanhar as festividades no Santuário, onde são realizadas: missas, rezas, terços, confissões e barraquinhas. Se o cerimonial das missas remonta aos primórdios da fé cristã (VOVELLE, 1988, p.69), em Bacalhau as romarias também são festividades de longa duração, remontam ao século XVIII
e seus organizadores, a Irmandade e a Comunidade local, ficam responsáveis pela conservação das edificações religiosas monumentais. Ritual que se repete a cada ano.
No Santuário, além da afluência às missas, a Sala dos Milagres renova-se com a fila de uma multidão de fiéis que buscam as bênçãos da grande imagem do Senhor Bom Jesus do
Matozinhos e, ao saírem deixam no local, ex-votos,48 em forma de fotografias, pinturas, fitas,
cabeças, braços ou pés de cera, que indicam a cura de alguma doença ou mal e o milagre acontecido. Experiência de longa duração, como estuda Vovelle (1988, p.79) pois na Sala dos Milagres encontram-se tábuas votivas do século XIX, convivendo com as atuais.
A religiosidade encontrada na época do Jubileu estende-se à cidade de Piranga com sua população extremamente religiosa que se expressa pelas festas da padroeira e dos diversos santos celebrados durante o ano todo em rezas, terços, missas, procissões, coroações de Nossa Senhora e oferenda de flores. Na sede, são tradicionais as festas da Irmandade do Rosário dos Pretos e a puxada do Mastro que é fincado na praça do Rosário numa iniciativa da Banda de Congado de N. Sra. do Rosário que remonta a 08 de dezembro de 1758.
Até hoje, as comemorações religiosas iniciam-se a partir do dia 07 de outubro com a festa de Nossa Senhora do Rosário seguida, no dia 08 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, pela Festa do Mastro, depois se comemora a Festa de Reis e, finalmente, no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, as festividades terminam com a retirada do Mastro. O mastro de madeira com a bandeira de Nossa Senhora do Rosário, Santa Padroeira dos escravos, é fixado em uma casa da zona rural e, no dia 08 de dezembro, vários homens carregam o mastro nas costas até a praça do Rosário onde ele permanece fincado até o dia 20 de janeiro quando é levado para outra casa na roça. Várias bandas de Congo e toda a população de Piranga participam das atividades religiosas.
As festividades coletivas do distrito de Pinheiros Altos, por sua vez, giram em torno das comemorações religiosas da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Saúde e da Capela de Nossa Senhora do Rosário, edificações que remontam ao setecentos. Outras festas, tais como os torneios de rodeios, fazem parte do roteiro anual quando os espaços internos das edificações e os adros ou praças externos aos monumentos são tomados por multidões com suas barraquinhas. Unem-se, então, práticas religiosas e leigas, consolidando culturalmente esta comunidade com as celebrações do Reisado de Nossa Senhora do Rosário,
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Misto de devoção e Fé, os ex-votos são uma manifestação de criação artística do povo que testemunham não apenas a sua religiosidade como ainda nos fornecem elementos importantes e um retrato da vida das comunidades. Engloba um conjunto muito vasto de objetos que podem ir desde as simples fotografias aos membros de cera que normalmente são deixados nos santuários.
celebrados pelas Guardas de Congo, onde são escolhidos reis e rainhas, representados pelos festeiros de cada ano escolhidos entre os fazendeiros da região.
A origem das festas do Congado está ligada à Igreja de Nossa Senhora do Rosário da antiga Vila Rica, atual Ouro Preto. Consta que, nas Minas do século XVIII, um escravo de nome Chico-Rei perdeu quase toda sua família na viagem da África para o Brasil, restando- lhe apenas um filho. Instalado em Vila Rica, com as economias obtidas pelo trabalho aos domingos e dias santos, comprou a alforria do filho, a sua própria e dos demais súditos de sua nação que o apelidaram de Chico-Rei. Todos unidos compraram a riquíssima mina da Escandideira, organizaram a Irmandade do Rosário e de Santa Efigênia e levantaram, com recursos próprios a Igreja do Alto da Cruz em Ouro Preto. Chico-Rei casou-se novamente e com o prestígio que adquiriu com os de sua raça começou a participar das solenidades típicas da festa dos Reis Magos, em janeiro, e da festa de Nossa Senhora do Rosário, em outubro. Nestas festas, Chico-Rei, de coroa e cetro, apresentava-se com sua rainha, os príncipes e sua corte formada pelos negros de sua nação, cobertos de ricos mantos e trajes de gala bordados a ouro, precedidos de batedores e seguidos de músicos e dançarinos,
batendo caxambus, pandeiros, marimbas e canzás e entoando ladainhas.49 As Congadas e
as festas do Rosário originárias da lenda de Chico-Rei disseminaram-se em todo o estado e são representativas na região de Piranga.
O advento e a manutenção de festas e costumes religiosos fazem parte do conjunto de bens intangíveis que, como sabemos, são determinantes para a manutenção da identidade local e, principalmente, dos bens materiais, no caso representado pela arquitetura religiosa, pelos traçados urbanísticos originais, pela conservação do acervo de imagens e de bens integrados como os diversos altares de cada Igreja. Preservar os bens culturais materiais e, ao mesmo tempo, os intangíveis, é um caminho a ser trilhado para a manutenção da vida cotidiana e da memória coletiva.
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PIRANGA / MG - Histórico. Disponível em: http://www.piranga.com.br/congado/indez.html. Acesso em 17/03/2008.
FIGURA 40: Jubileu do Senhor Bom Jesus do Matozinhos do ano de 2002. Missa campal. Fonte: fotos da autora, data: 15 agosto 2002
FIGURA 41: Adoração ao Senhor Bom Jesus do Matozinhos da Sala de Milagres do Santuário. Tábuas votivas da Sala dos Milagres.
FIGURA 42: Jubileu do Senhor Bom Jesus do Matozinhos do ano de 2002. Missa campal e nas ruas de baixo, barraquinhas com jogos, comidas típicas e comércio ambulante.
FIGURA 43: Missa no Santuário. Guarda de Nossa Senhora do Rosário de Piranga em 1998. Dança de Congo em frente ao Santuário do Senhor Bom Jesus do Matozinhos na época de realização do Jubileu do ano de 2008. Fonte: fotos da autora, data: 13 agosto 2008
FIGURA 44: Procissão do Reisado de Nossa Senhora do Rosário percorrendo as ruas de Pinheiros Altos desde a Capela do Rosário até a Igreja de Nossa Senhora da Saúde. O rei, a rainha, a dama e o pajem abrem a procissão, acompanhados pela imagem da padroeira e os fiéis e finalizada pela banda de música.
Fonte: fotos da autora, data: 12 outubro 2002.
FIGURA 45: Chegada dos festejos de Nossa Senhora do Rosário à praça da Igreja de Nossa Senhora da Saúde em Pinheiros Altos. Os mais devotos usam coroinhas feitas de latão. Depois da missa, o festeiro, Sr. Canudo e Dona Liça, distribuíram farta refeição à todos os devotos.
FIGURA 46: Festa do Mastro. Banda do Congo N. Sra. do Rosário de Piranga, fundada a partir da criação da Irmandade dos Homens Negros em 1748, quando do levantamento da Capela de N. Sra. do Rosário.
Fontes: Jornal O Tempo, 21/01/1999.
Congada: Disponível em http://www.piranga.com.br/passado/index.html. Acesso em 17/03/2008.
FIGURA 47: Procissão de anjos para coroação de Nossa Senhora e banda de música de meninos de Piranga.
FIGURA 48: Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Piranga. Realização de missa e oferta de flores pelas mulheres. Os festejos remetem à preservação das tradições religiosas de Piranga promovidos pela família da Clelinha. Fotos da banda, da cruz enfeitada de papel, do altar com flores naturais e da família na hora do terço. Fonte : fotos da autora, data: 09 outubro 2008.