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O prazer no trabalho esta na possibilidade que o indivíduo encontra para fazer uso de si, mobilizar-se em função de um objetivo, exercer sua liberdade, criatividade, contribuir para a produção de um produto ou de ideias, obter reconhecimento, dar vazão aos seus desejos e necessidades conscientes e inconscientes.

Em suma, o prazer no trabalho está na possibilidade de o ser humano construir e fortalecer sua identidade e se desenvolver individualmente, coletivamente e profissionalmente através da sua atividade de trabalho. Portanto, é na impossibilidade de utilizar sua inteligência e criatividade para ajustar os objetivos da organização aos seus, assim como as prescrições e os meios de trabalho disponíveis à realidade, que se desencadeia o sofrimento psíquico (Dejours, 2007).

Para algumas categorias profissionais, o trabalho pode ser estruturado por constrangimentos deletérios para a saúde física e mental. Embora existam as normas e equipamentos de segurança, em algumas atividades o risco é inerente e não se resolve por meio dessas normas e equipamentos.

Assim, o medo e a insegurança provocam conflitos intrapsíquicos, que resultam na construção das estratégias defensivas cuja função é resistir psiquicamente aos ataques presentes em algumas organizações de trabalho. Quando estas defesas são bem sucedidas, os próprios trabalhadores não identificam com clareza o sofrimento inerente ao trabalho, o que pode provocar nos indivíduos comportamentos de desprezo em relação ao medo e às medidas de segurança exigidas.

As defesas exercem sobre quem delas participa um poder coercitivo, causando a exclusão daqueles que se recusam a incorporá-las. Portanto, se por um lado as defesas possuem um importante papel adaptativo, por outro podem impedir as pessoas de tomarem consciência da condição de exploração que podem estar vivendo (Dejours, 2011; 2012).

Neste contexto, Dejours (2011) afirma que em uma organização real de trabalho, as defesas constituem uma cadeia de: sofrimento - defesa protetora - defeso adaptativo - defesa explorada. Essas defesas podem ser individuais ou coletivas. Um tipo de defesa individual é a autoaceleração, que funciona especialmente em linhas de montagem, quando alguns indivíduos aumentam o ritmo de trabalho no intuito de não pensar sobre as angustias e

insatisfações às quais estão submetidos. Este tipo de estratégia de defesa se transfere para ocasiões de folga, nas quais os sujeitos buscam atividades exaustivas ou que possam limitar o pensamento, pois se torna muito mais difícil voltar às condições deletérias de trabalho após experimentar o prazer do pensamento livre e do encontro consigo mesmo.

Quando as estratégias coletivas de defesa são construídas a partir dos esforços do coletivo por indivíduos que se encontram submetidos aos mesmos perigos, podem se constituir em um risco à saúde e à vida dos trabalhadores, na medida em que leva os indivíduos a desrespeitarem normas e desprezarem o medo, impondo comportamentos de risco aos novos membros do grupo e excluindo aqueles que se recusam a assumir a mesma conduta (Dejours, 2012).

Em suma, estas estratégias de defesas estão pautadas na negação da percepção do risco e constituem uma alternativa que permite aos indivíduos permanecer em atividade frente às situações de perigo, tendo em vista que o real se apresenta por vezes insuportável. Assim, o papel das defesas, que seria defender os sujeitos das situações deletérias de trabalho, acaba favorecendo a servidão, a dominação e as condições patogênicas do trabalho, no momento em que desarticulam a percepção dos indivíduos acerca da situação real que estão vivenciando (Dejours, 2012).

A organização do trabalho para funcionar corretamente, depende do equilíbrio entre o desejo do trabalhador e o desejo da administração/chefia. Esta confrontação de desejos tem como resultado a carga psíquica do trabalho, que se torna mais pesada na medida em que a organização diminui a margem de liberdade dos indivíduos. Por isso é importante que a lacuna existente entre o prescrito e o real seja um espaço de negociações entre o que é preciso ser feito e o que é possível fazer através da mobilização do trabalhador. Do contrário, a carga se torna muito densa e sem possibilidade de encontrar alívio, o resultado pode ser prejudicial à saúde dos sujeitos (Dejours, Abdoucheli & Jayet, 2014).

Então a carga de trabalho que restringe os trabalhadores às prescrições, promove o sofrimento no trabalho. E esse sofrimento possui dois destinos psíquicos diferentes, o criativo e o patogênico. Este último está relacionado às condições deletérias da organização do trabalho, a interdição da criatividade no decorrer da ação, da autonomia, da liberdade, o não reconhecimento e ao uso das defesas para manutenção da alienação e da servidão dos trabalhadores (Dejours, 2006; Molinier 2013).

Portanto, o sofrimento patogênico é a própria doença e ocorre quando a organização de trabalho está pautada em prescrições rígidas e o trabalhador não encontra margens de manobra que permitam o ajuste ao trabalho real. Há então uma exploração intensa de tudo que os indivíduos dispõem em termos de conhecimento, de força para a ação e de estratégias defensivas, resultando no adoecimento psíquico e/ou físico (Dejours, 2014; Molinier, 2013).

No sentido oposto, encontramos o sofrimento criativo. Esse, segundo Mendes (1995), não é o mesmo que prazer, porém se trata da substituição do prazer sexual infantil pelo prazer no trabalho, ou seja, refere-se à sublimação, para tanto, o trabalho precisa ser uma escolha do próprio trabalhador e que possibilite ao indivíduo satisfazer seus desejos inconscientes.

Além disso, de acordo com Dejours (2014), o sofrimento criativo depende da forma de organização do trabalho adotada e do quanto a chefia contribui para que o trabalhador tenha liberdade e possa usar sua criatividade no preenchimento da lacuna existente entre o prescrito e o real e assim seja capaz de transformar o sofrimento em prazer e em desenvolvimento pessoal. Portanto, compreende-se que essa mobilização da inteligência criativa resulta na conversão do sofrimento em um processo sublimatório (Dejours, 1993).

Entretanto, de acordo com Mendes (1995), o investimento sublimatório não se desenvolve muitas vezes devido às condições da organização de trabalho. Tais circunstancias, segundo Dejours (2013), limitam a sublimação ao nível da corpropriação do mundo e do reconhecimento pelo outro, o que representa a sublimação comum, assim esta pode ser

atingida ainda que o contexto não seja dos mais favoráveis. Por outro lado, quando a sublimação é entrelaçada com o sentido de honrar a vida pelo trabalho, atinge-se a sublimação extraordinária, que possui o sentido clássico do termo.

Então, a relação da inteligência operária com o conceito de sofrimento encontra-se em seu objetivo, que é superar o sofrimento para alcançar o reconhecimento. E que, de acordo com Dejours (1993), ocorre na busca pela identidade e seu fortalecimento, e é para isto que o indivíduo mobiliza suas habilidades, inteligência e engenhosidade. Logo, o trabalhador sente a necessidade “pulsional” de criar e nesse processo encontrar sentido no seu sofrimento para o alívio de sua angústia existencial e manutenção de sua saúde mental. Assim, na impossibilidade de fazer uso dessa inteligência operaria, como a ausência do reconhecimento simbólico do trabalho, o trabalhador vivencia o sofrimento patogênico.

Em suma, as ações ergonômicas e da psicodinâmica visam contribuir para a construção ou transformação das situações de trabalho. O objetivo é focar na saúde e bem estar dos trabalhadores, além de contribuir para o desenvolvimento das competências dos mesmos. E como produto, tem-se qualidade e produtividade para a empresa e maior satisfação dos trabalhadores.

CAPÍTULO 4