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Quando da exposição sobre o conceito de vida boa para Ricoeur, fizemos menção ao fato de que ele não havia incorporado a dimensão metafísica da ideia de um bem inerente ao homem como animal racional140. Esta tese, central na argumentação aristotélica sobre a ética, ao ser excluída da análise ricoeuriana certamente gera um novo ponto de distanciamento entre as duas propostas.

Aristóteles parte da definição que Platão elaborou na República sobre a função ou a tarefa (ergon) específica a cada ser. Essa função está diretamente relacionada com a noção de uma essência metafísica para aquele ser. Em outras palavras, cada ser possui uma essência e a esta essência está associada uma função específica. Ora, para expressar a sua essência, o ser deve realizar plenamente a função de tal essência. Por exemplo, um apagador de lousa enquanto não utilizado pode perfeitamente passar por um descanso de papel. Apenas durante a atualização de sua tarefa específica, apagar lousa, é que o apagador se encontra com sua essência e passa a ser reconhecido como aquele ser que denominamos e entendemos como um apagador de lousa.

Pois bem, se para todos os seres essa noção de função é verdadeira, também para o homem deve ser restando, portanto, designar qual é, uma vez que sua existência já está pressuposta. O Estagirita diz, então, que essa função específica do homem deve estar relacionada com a diferença específica do homem, aquilo que o diferencia dos outros animais, ou seja, sua parte racional. Assim, a função do homem será agir de acordo com a razão, mas não de qualquer forma, e sim de maneira perfeita.

É a partir dessa noção de função específica do agir que Aristóteles irá desenvolver sua construção conceitual da ética, principiando pela ideia de virtude, que seria o qualificador para as ações realizadas de acordo com a função específica do homem, sendo, portanto, ações embebidas de racionalidade. É por meio dessa função

140 PERINE, Quatro lições da ética de Aristóteles. p. 78. Perine ao investigar o silogismo da ação em

Aristóteles, também destaca o papel fundamental da compreensão desse bem supremo para a correta compreensão de toda a concepção de racionalidade prática do grego

que Aristóteles escolhe a definição mais precisa de vida boa, já sob o nome de vida realizada (eudaimonia). Nota-se, portanto, que a própria definição de vida boa para Aristóteles está dependente desse desenvolvimento argumentativo baseado na função específica do homem relacionada a sua essência metafísica.

A partir dessas afirmações, podemos estabelecer mais claramente a distância entre a reflexão de Ricoeur e a reflexão de Aristóteles quanto a ideia de vida boa. Ricoeur não desenvolve em momento algum a noção de função do homem, e na verdade, apenas utiliza o termo para analisar o que se entende pela palavra “vida” e para esclarecer que, na sua filosofia, a função do homem está sendo nomeada como plano de vida. Mas esse plano de vida tem uma conotação extremamente existencial. Trata-se do conjunto de ideias que traçamos para nossa vida, mas que realizamos de maneira particular, cada um buscando refiná-lo e reordená-lo no decorrer de sua vida através de um exercício hermenêutico contínuo de auto-avaliação de vida.

Essa diferença entre a proposta da Ética a Nicômaco e a “pequena ética” pode ser analisada ainda por uma via indireta. Quando Ricoeur discorre sobre a vida boa, ela dá um lugar de destaque, como vimos acima no texto, para as ideias de MacIntyre, especialmente com relação às práticas, aos padrões de excelência e de uma forma implícita, à própria ideia de plano de vida que está diretamente ligada com a tese ricoeuriana da unidade narrativa da vida.

Pois bem, MacIntyre faz uma análise comparativa explicita da sua posição ética em relação à aristotélica e destaca que um dos grandes pontos de divergência é justamente o fato de não aceitar a visão da metafísica biológica de Aristóteles, fazendo menção claramente à ideia de função específica do homem. Esse posicionamento não poderia ser mais claro: “Although this account of the virtues is teleological, it does not

require any allegiance to Aristotle’s metaphysical biology”141.

Parece bastante razoável transferir esse comentário para o conceito de vida boa de Ricoeur, tanto pelo fato de estar amplamente relacionado com os conceitos hauridos diretamente de MacIntyre, quanto pela semelhança indiscutível da noção de

identidade narrativa que dá corpo à ideia de plano de vida boa nos dois filósofos. Cabe uma consideração fundamental para que o ponto de distanciamento seja claramente identificado. Uma das teses centrais do texto de MacIntyre142, do qual Ricoeur se utiliza extensivamente na sua elaboração da ideia de vida boa, é a de que um dos grandes problemas teóricos das propostas éticas elaboradas durante a modernidade foi a supressão da ideia de vida boa para o homem em prol do estabelecimento de regras e leis. MacIntyre e Ricoeur estão, portanto, buscando enfatizar a necessidade da retomada da ideia teleológica da vida boa como horizonte primário para o desenvolvimento de uma proposta ética. O ponto no qual eles se distanciam de Aristóteles, esse justamente que procuramos destacar aqui, é que essa ideia de vida boa não precisa estar fundamentada em uma metafísica biológica do ser humano, mas pode estar embasada na vida política e nas linhas de tradição que trazem consigo os padrões de excelência que comporão o ideal de uma vida boa.