Burroughs emerge deste caldeirão que foi o fenômeno conhecido por geração beat, desta relação de amizades e associações múltiplas que deram forma a esta expressão em um estilo de vida peculiar.
Dos beats, Burroughs é aquele que apresenta uma trajetória acadêmica de maior desenvoltura, com exceção, talvez, de Lawrence Ferlinghetti. Burroughs graduou-se em Literatura Inglesa em Harvard e depois se dirigiu à Europa, onde cursou Medicina em Viena durante um curto período de tempo. Retornou aos Estados Unidos após o crescente apoio da Áustria aos nazistas e, decorrente do mesmo fato, se casou com a judia Ilsa Klapper, dona de um salão literário em Viena, para que ela conseguisse o visto estadunidense e pudesse fugir da perseguição nazista.
Outra característica importante a ser ressaltada é a paixão deste escritor por armas de fogo, a qual acarreta, por exemplo, a utilização deste tipo de armamento para pintar quadros, o que chamou de Shot Gun Painting. Era uma expressão artística em que se postava uma superfície qualquer, como uma tábua de madeira, posicionava-se uma lata de tinta em sua proximidade e BANG!, atirava-se para ver uma revelação do acaso na construção de uma obra de arte.
Desde criança, Burroughs ia caçar patos com o seu pai. O amor pelas armas de fogo é também uma característica cultural do sul dos EUA, em cujas fazendas a caça é um costume. As armas de fogo neste ambiente agrícola também servem para a defesa da propriedade da terra. Esta paixão pelas armas irá impactar a existência de Burroughs, acarretando na tragédia que envolve sua mulher Joan Vollmer.
Joan estudava Jornalismo em Columbia e era aficionada por leituras, especialmente Proust. O encanto de Burroughs por esta mulher se deu principalmente em um nível intelectual, a partir de conversas sobre leituras e sobre os temas preferidos deste escritor. Vollmer era ―atraente, com um rosto largo e uma testa alta e inteligente (...), dona de uma mente sardônica e curiosa‖ (MILES, 2012, p. 73).
Burroughs conheceu-a em 1944. Vollmer era amiga de Eddie Parker e, quando foram apresentados, logo iniciaram um relacionamento amoroso. ―Embora Burroughs fosse bem ciente de que ele era homossexual, sua relação com Vollmer começou com uma intimidade assustadora, quase-telepática e mental, e foi encorajada por seus amigos, Allen Ginsberg and Jack Kerouac‖56(GRAUERHOLZ, 2002, p. 4,
tradução pessoal). Joan já era casada e tinha uma filha, Julie Adams, mas pediu o divórcio no verão de 1945, casando-se posteriormente com Burroughs.
Quando Jack e Allen apresentaram Vollmer a seu amigo, ainda não tinham noção de que ele se interessava por homens, ―mas estavam corretos em achar que Bill e Joan se dariam bem, e aquele foi o começo da única relação séria que Burroughs teve com uma mulher. Burroughs: ‗Nós dois tínhamos todas aquelas conversas profundas sobre coisas fundamentais. A intuição dela era absolutamente incrível‘‖ (MILES, 2012, p. 113).
56―Although Burroughs was well aware that he was homosexual, his relationship with Vollmer began with
an eerie, almost-telepathic mental intimacy, and was encouraged by their friends, Allen Ginsberg and Jack Kerouac.‖
Ao longo do ano de 1945, quando moravam com Kerouac, Ginsberg e Hal Chase57, Burroughs e Vollmer começaram a usar benzedrina, uma substância psicoativa estimulante conhecida como ―benny‖. Foram apresentados a ela por intermédio de uma amiga de Huncke, mais uma vez cumprindo o papel de um drogado mais experimentado que viria a apresentar algumas substâncias e outros amigos do submundo. Vollmer começou usar as ―bennys‖ cada vez mais frequentemente, o que a levou a cenas relatadas da seguinte maneira: ―ao entrar no apartamento de Hal Chase, em 1947, Kerouac encontra Joan inteiramente nua, fora de si, acusando-o aos gritos, sem reconhecê-lo, de querer estupra-la, enquanto Huncke, entorpecido, incapaz de sair da cama, resmungava que não podia fazer mais nada‖ (WILLER, 2010, p. 50). O dia seguinte após esse episódio, e as crises alucinatórias frequentes de Vollmer, levaram-na a ser internada no manicômio de Bellevue, sendo a primeira mulher dos Estados Unidos a ser internada por uma crise com drogas. Após a saída do manicômio teve um filho com Burroughs chamado William Burroughs Junior.
Vollmer acompanhou seu companheiro em todas as suas viagens após a saída de Nova York. Em um dado momento, Burroughs foi preso por porte de drogas. Foi combinado que sairia da prisão após o pagamento da fiança e se dirigiria diretamente a um sanatório. Após o seu tratamento – que não deixou os médicos nem um pouco satisfeitos, pelo comportamento relacionado às drogas do tipo ―e daí?‖ (BURROUGHS, 2005, p. 167) – passou uma temporada no Texas onde plantou maconha. Depois de inúmeros adiamentos do seu julgamento, decidiu fugir para a Cidade do México e permanecer um tempo por lá.
Já em terras mexicanas, encontrou os novos canais para comprar opiáceos e continuou se picando, sempre intercalando o uso a períodos de abstinência, o que acarretava muitas vezes em um aumento brutal do consumo de álcool. Sentia-se muito pior bebendo freneticamente do que se picando, então voltava a se picar. Entre as drogas que consumiu no México constam, em Junky, heroína, morfina (na forma injetada ou bebida, que se chama paregórico, e se vendia em farmácias comuns), cocaína e peiote.
Certa vez em sua casa ocorria uma reunião de amigos. Ele e Vollmer resolveram brincar de Guilherme Tell. Ela postou um copo em cima de sua cabeça e Burroughs
57 Estudou Antropologia na Universidade de Columbia, integrando círculo universitário em que vivia
disparou um tiro. Errou o alvo e a bala perfurou o crânio de Joan. Ele foi preso, mas conseguiu sair com a ajuda de um bom advogado. Tempos depois foi a Tânger, no Marrocos, onde escreveu o seu livro Almoço Nu. No prefácio de Queer, Burroughs relaciona a morte de sua mulher ao desenvolvimento de sua escrita.
Vejo-me forçado a chegar à consternadora conclusão de que nunca teria me tornado escritor se não fosse a morte de Joan e a realizar até que ponto esse acontecimento motivou e formulou a minha escrita. Vivo sob a ameaça constante da possessão e constantemente a tentar fugir dela, do controlo. Assim, a morte de Joan pôs-me em contacto com o invasor, o espírito horrível, e em luta permanente, luta essa em que não tenho outra escolha senão escrever para escapar (BURROUGHS, 1999a, p. 23).
Na formulação da escrita de Burroughs, duas mortes têm lugar central. Uma delas a morte de Kammerer e o seu impulso para a primeira escrita. A outra, a morte de sua mulher, Joan Vollmer, como impulso para se tornar um escritor. Uma escrita que se desenvolve em um trabalho sobre si para transfigurar a tragédia do assassinato em outra coisa.
Pode-se cruzar esta produção da escrita de Burroughs com outro escritor, o poeta brasileiro Wally Salomão. Wally foi preso durante a ditadura civil-militar no ano de 1972, e tornou-se poeta no interior da prisão. A liberação da escrita no presídio (como ocorreu com o beat Gregory Corso) aparece como uma necessidade de transformar o horror: ―Você transforma o horror, você tem que transformar. (...) foi uma liberação da escritura‖ (SALOMÃO, 1996, p. 28).
Também é possível a aproximação com o filme Paranoid Park, de Gus Vant Sant, cineasta que foi amigo de Burroughs e gravou o curta Thanks giving Prayer a partir de uma leitura deste escritor e o teve como ator no filme Drugstore Cowboy. Paranoid Park conta a história de Alex, um jovem de dezesseis anos que certo dia resolve ir a um parque de skatistas. Lá, conhece Scratch. Os dois jovens saem para dar uma volta e se penduram em um vagão de trem; logo um guarda os vê e começa afugentar os meninos. Alex bate com seu skate no guarda, que cai para trás e tem o seu corpo cortado ao meio pelo trem que passa em velocidade pelos trilhos. Aconselhado por uma amiga, o jovem resolve escrever uma carta com a história, para conseguir lidar com o acidente.
Três exemplos de liberação da escrita que aparecem como possibilidade de transformação do horror. Em Wally Salomão o horror é a prisão na ditadura brasileira; em Paranoid Park, um assassinato, tal qual em Burroughs, mas a diferença está em que a personagem Alex não pode contar o ocorrido a ninguém. No escritor beat o assassinato nunca é narrado literariamente, mas no meio de toda a tensão de sua escrita ele parece estar sempre à espreita como esse horror que tem de ser transformado. O prefácio de Queer é o único momento em seus livros que apresenta o fato de alguma forma explícita. Por outro lado, a diferença com Paranoid Park existe pela propagação do acidente e por ele mesmo, hora ou outra, falar sobre o ocorrido em entrevistas.
Passávamos o tempo bebendo naquele apartamento. Eu estava muito bêbado. De repente, disse: ‗é hora do nosso número de Guilherme Tell, coloque o copo na cabeça‘. Apontei na beirada do copo e a seguir houve uma espécie de grande flash58 (BURROUGHS in BOCKRIS, 1998, p.84).
Este é um dos momentos em que Burroughs descreve a cena da morte de Joan, mas se trata de uma entrevista dada a Victor Bockris. Em seus livros, este momento não está narrado. Tem-se então um dos elementos que compõem a escrita burroughsiana, a transformação do horror.
O biógrafo e amigo de Burroughs, Barry Miles, introduz uma imagem potente para a análise de sua vida, a imagem do exterminador. Quando saiu da Universidade de Harvard, Burroughs realizou bicos de todos os tipos, entre eles os de detetive particular (tipos de personagens que também animam as suas histórias) e o de exterminador59 de insetos. As entrevistas concedidas por ele para a realização de suas biografias (escritas por Morgan e Miles) são sempre em um tom empolgante sobre este trabalho, dizia que sempre chegava de forma bem escandalosa no local onde devia prestar o serviço. Gritava bem alto: Tem algum inseto aqui, garota?
Esta imagem do exterminador dá vez ao livro The Exterminator!, uma compilação de textos curtos. Imagens de exterminadores também aparecem em Almoço Nu:
58 ―Llevábamos un rato bebiendo en aquel apartamento. Yo estaba muy borracho. De pronto dije: ‗Es hora
de nuestro número de Guillermo Tell, ponte el vaso en la cabeza‘. Apunté al borde del vaso, y luego hubo una especie de gran fogonazo.‖
59É um dedetizador de insetos. A palavra foi mantida como exterminador para ser mais próxima à imagem
Chamam-me de exterminador. Exerci tal função durante um breve interlúdio e testemunhei a dança do ventre das baratas sufocadas pela poeira amarela do piretro. (―Agora é difícil de achar, minha senhora... com essa guerra e tudo mais. Posso vender-lhe um pouco... Dois dólares.‖) Lavei gordos percevejos do interior de papéis de parede decorados com rosas em decadentes hotéis para artistas em North Clark e envenenei o insistente Rato, devorador ocasional de bebês humanos. Você não faria o mesmo? (BURROUGHS, 2005a, p. 211).
Imagem sempre relacionada a este trabalho que fez e que também pode ser relacionada ao que chamou de desnudamento em Almoço Nu, o escritor que põe as baratas em dança do ventre, expõe uma franqueza sufocante para o Ocidente.
A relação entre Burroughs e o exterminador de insetos é comumente explorada. David Cronemberg, em seu filme Naked Lunch (no Brasil lançado sob o título Mistérios e Paixões), também retrata Burroughs, entrelaçado à personagem William Lee, como um exterminador que se vicia no próprio inseticida. Passa então a ver insetos falantes ou máquinas de escrever se transformando em insetos e em outros seres estranhos. Um ofício que frequenta casas decadentes em busca de ratos e baratas.
A imagem de William Burroughs como um exterminador, adotada por jornalistas e críticos, é potente. Um exterminador pode assumir muitas formas: um locutor franco e direto que golpeia a hipocrisia, um desconstrutivista que rompe um texto, um escritor cut-up, um assassino. A Palavra é automaticamente associada à baixeza da vida, pois os apartamentos infestados de insetos estão na parte decadente da cidade, e geralmente os clientes do exterminador são pessoas pobres, habitantes de pensões, guetos e fábricas em decomposição 60 (MILES, 1992, p. 34).
Um exterminador como um homem de fala reta e direta que quebra com a hipocrisia, um desconstrutor do texto, um escritor de cut-up ou um assassino. Estas são expressões que marcam a vida e a escrita de Burroughs. A primeira afirmação marca
60 ―William Burroughs as an exterminator is a potent image, one seized on by journalists and critics. An
exterminator can take many forms: a straight-talker who cuts hypocrisy, a deconstructionist ripping through text, a cut-up writer, an assassin. The Word has automatic low-life associations, since bug-ridden apartments are in the rundown part of the town, and the exterminator´s clients are usually poor people, inhabitants of rooming houses, ghettos and rotting factories.‖
uma fala franca diante da realidade de seu tempo, esta intenção de pôr a nu a sociedade em que vive – mostrada até aqui pelo livro Almoço Nu, mas que pode ser também apontada em Junky.
Neste livro, escrevi o que sei a respeito da droga e das pessoas que a usam. A narrativa é ficcional, porém baseada em fatos da minha própria experiência.
(...) A propaganda oficial se opõe a qualquer dado factual sobre as drogas, portanto quase nada de correto foi escrito sobre o assunto. Quando os jornais, as revistas e os filmes tratam da droga, raramente desviam-se do mito oficialmente patrocinado. Exporei aqui os principais pontos de tal mito (BURROUGHS, 2005, p. 247).
Assim iniciava o manuscrito original de Junky, parte que foi retirado da publicação original pelo próprio escritor, junto com outro capítulo sobre o psicólogo Whihelm Reich. Burroughs retira todo conteúdo pretensamente científico do livro, mas isso não significa que, ao abordar a sua própria vida, ele não realize esta pretensão inicial. Ao decorrer da narrativa, mostra o funcionamento das leis antidrogas nos EUA, a forma de atuação da polícia, da psiquiatria nos tratamentos e, assim, escancara o funcionamento de tudo aquilo que gira em torno das drogas.
Nesta introdução retirada da publicação, um dos mitos patrocinados seria o de que ―A diferença entre o viciado e o traficante é clara. As autoridades têm pena do viciado e estão atrás somente do traficante‖ (Burroughs, 2005, p. 250). Ao longo da narrativa do livro, Burroughs mostra que em sua época a maioria dos traficantes era apenas um ―viciado‖ que vendia a droga (principalmente aqueles que foram presos) para poder sustentar o próprio vício, ele mesmo sendo ―viciado‖ e traficante em vários períodos de sua vida.
Assim, Junky também comporta, embora de modo bem diferente de Almoço Nu, esse desnudamento burroughsiano. A diferença entre estas duas dimensões do desnudamento é que Junky apresenta uma fala reta sobre o assunto, sem muita interferência de quebras na linguagem, e comporta um nível de derrisão muito menor se comparado ao outro livro, que traz uma composição não linear e um deboche muito mais escrachado. Almoço Nu comporta o exterminador do próprio texto.
Outro vínculo entre esta imagem do exterminador e a vida de Burroughs diz respeito ao próprio percurso necessário à realização do ofício: a grande concentração de clientes em guetos, cortiços ou fábricas em decomposição pode ser associada à vida baixa, que circula pelos bairros da droga e envolve também certos tipos de ladrões, como Herbert Huncke. Os caminhos e ambientes pelos quais Burroughs passa se aproximam dos cenários que aparecem em seus livros, principalmente em Junky.
Esta predileção a um tipo de mundo, que passa a ser o ambiente habitado por Burroughs, mostra-se também em textos relacionados a temas políticos ou atividades consideradas oficiais.
Minha ambição política era mais simples e menos ilustre. Queria ser comissário dos esgotos, do condado de St. Louis, trezentos dólares por mês com toda possibilidade de conseguir mergulhar em um insignificante fundo de suborno. (...) Ronald Reagan simplesmente ama tudo isso. Nunca quis ser um representante como Nixon, pra ficar apertando mãos ou fazendo discursos o dia inteiro. Quem seria louco para ter um trabalho como aquele? Eu era comissário dos esgotos, não tinha paciência pra alegrar bebês, almoçar com a rainha. Afinal, quanto menos eleitores souberem da minha existência, melhor. Deixo os reis e presidentes serem os protagonistas. Prefiro o cheiro de gás que vem de longe quando os esgotos se rompem. Levei na flauta um negócio que me rendeu uma casa de trinta mil dólares e falam nos jornais que a cultura do sexo, das orgias drogadas, acabou na mesma merda que as tornaram possível. Agitado em cima do telhado do meu rancho com minha hortelã e minha maconha, sua velha glória paira mansa na brisa corrupta.
(...) Vocês dois, prestem atenção. Suas notórias fragilidades são possíveis de serem observadas por um telescópio. Sinto meus sonhos indo para bem longe, para algum lugar do passado. Aquele maldito, lá bem longe, como se fosse uma laranja em um armazém.
Uma História de William S. Burroughs. Há muito tempo que não falo com políticos. Há muito tempo não falo sobre questões políticas, com todo prazer deixei todas muito bem enterradas no longínquo 1930, no jogo de softball.61
Este texto, que faz parte do livro Roosevelt after Inauguration, explicita a atmosfera e o desnudamento burroughsiano. Por um lado, ao falar de política e da atividade dos políticos, inverte seus valores e práticas; de outro, evidencia relações com a corrupção, o suborno, as drogas e o sexo. Burroughs apresenta a perspectiva de um ―submundo‖, de um tipo de vida que é jogado para de baixo dos tapetes, um estilo de vida que é deixado na condição de esgoto. Esgoto entendido como este submundo das drogas, do Harlem, ou da Times Square, ou, neste caso, práticas que compõem o mundo da política, mas não aparecem oficialmente. É o que se mostra nesta inversão em frases como ―Nunca quis ser um representante como Nixon, pra ficar apertando mãos ou fazendo discursos o dia inteiro‖. Não é este um trabalho oficial relacionado à política? Um homem de discursos que faz a sua companha apertando as mãos da população?
A literatura de Burroughs encontra uma chave neste texto: é ele próprio comissário dos esgotos. A atividade-esgoto é aquilo que, em Almoço Nu, Burroughs mostra como o desnudamento da América. Ele é então o homem que prefere ―o cheiro de gás que vem de longe quando os esgotos se rompem‖.
Pode-se aproximar a arte dos esgotos de Burroughs a Michel Foucault em ―A vida dos homens infames‖, aquilo que é baixo no que se mostra digno, ou as vidas destinadas a não deixar rastro.
Quis também que essas personagens fossem elas próprias obscuras; que nada as predispusesse a um clarão qualquer, que não fossem dotadas de nenhuma dessas grandezas estabelecidas e reconhecidas – as do nascimento, da fortuna, da santidade do heroísmo ou do gênio; que pertencessem a esses milhares de existências destinadas a passar sem deixar rastro; que houvesse em suas desgraças, em suas paixões, em seus amores e em seus ódios alguma coisa de cinza e de comum em relação ao que se considera, em geral, digno de ser contado; que no entanto, tivessem sido atravessadas por um certo ardor, que tivessem sido animadas por uma violência, uma energia, um excesso de malvadeza, na vilania, na baixeza, na obstinação ou no azar que lhes dava, aos olhos de seus familiares, e à proporção de sua própria mediocridade, uma espécie de grandeza assustadora ou digna de pena (FOUCAULT, 2006a, p. 207).
É de modo muito similar que Burroughs explode os canos para que o cheiro dos esgotos se libere, mostrando vidas que atravessaram sua existência; homens que
poderiam ser somente mais um corpo arremessado na vala da contagem de corpos gélidos pelo efeito das picadas de heroína ou da temperatura enervante da falta da