Em se tratando de construir o perfil do motorista brasileiro, DaMatta ressalta que qualquer mudança na esfera pública causa reações, e com a Lei Seca não foi diferente, pois quando promulgada foi percebida como uma novidade negativa. O sociólogo assinala que:
Pelo costume, o bêbado era o outro: o vizinho, ou o desconhecido, pois beber sempre esteve associado à comensalidade, aos parentes, amigos e à boa e farta mesa, bem como as pessoas e à gente da casa. O porre jamais ocorre com os nossos, que sabem beber e bebem bem, com compostura; mas sempre com outros, de tal sorte que a quantidade de bebida ingerida segue a
66 Idem. 67 Ibidem.
lógica da relação pessoal: os desconhecidos bebem sempre muito mais que os conhecidos68 (grifo do autor).
Os motoristas que bebem e dirigem parecem estar direcionados a esse pensamento, e a considerarem que são os outros que bebem demais. Essa nossa tendência de crer que nosso comportamento não precisa ser controlado e sim o do outro é decisivo no trânsito. No que tange nossa habilidade entendemos que somos bons motoristas, no entanto essa crença dificulta a percepção da realidade desse espaço. O fato de não receber multas ou de chegar a casa sem ter passado por acidentes, não quer dizer necessariamente que sejamos bons motoristas. Quando estamos no trânsito, não conseguimos ter feedbacks de nosso comportamento e a dificuldade de comunicação nos leva a crer que somos os melhores no volante. Dificilmente ouvimos alguém dizer que dirige mal, exatamente porque é algo extremamente complicado de assumirmos para nós mesmos. No entanto afirmar quem dirige mal é mais fácil; quando estamos no volante prontamente apontamos todos que causam transtorno no trânsito – isso ocorre devido a nossa tendência em condenar o comportamento do outro. Com frequência subestimamos o nosso próprio risco e superestimamos os riscos da sociedade69.
O motorista que bebe e dirige é considerado, portanto, o outro, distante de nós, e o seu perfil socialmente traçado leva a compreensão de que o seu envolvimento em acidente não é resultado de algo aleatório, devido a falhas do ser humano, mas falhas de quem não observou a ordem moral. A construção desse perfil ocorre a partir de uma história social, de modo que ambiguidades criadas em torno de pesquisas científicas se tornam realidade e outras são criadas pela mídia ao transmitir notícias sobre esse assunto70. São as diversas as representações sociais sobre esse assunto, que ao serem compartilhadas criam uma realidade sobre fenômeno de beber e dirigir.
Outra questão que auxilia na construção do perfil diz respeito ao nível alcoólico medido e a incapacidade de dirigir. O bafômetro é uma forma prática de provar se um motorista está sob a influência de álcool, e o fácil acesso a este aparelho como forma de prova material influencia as expectativas e o enrijecimento da Lei71. No entanto o bafômetro não indica exatamente o nível de álcool no sangue – é preciso uma tabela de conversão do teste
68 DAMATTA, Roberto. Fé em Deus e pé na tabua. Ou porque e como o trânsito enlouquece no Brasil. Rio
de Janeiro: Rocco, 2010, p.14.
69 VANDERBILT, Tom. Por que dirigimos assim? E o que isso diz sobre nós. Mitos, Verdades e
Curiosidades sobre o Trânsito. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
70 GUSFIELD, 1981. 71 Idem.
sanguíneo para o bafômetro, que mede a quantidade de álcool por ar exalado. No Brasil, a falta de clareza dessa conversão foi questionada desde o início da Lei Seca, pois esse câmbio estava registrado em Decreto promulgado pelo CONTRAN. Com a reestruturação da Lei essa conversão foi colocada no próprio texto após a Nova Lei Seca, deixando clara que quantidade de álcool permitida no bafômetro (abaixo de 0,3 miligrama de álcool por litro de ar alveolar) e no teste de sangue (abaixo de 6 decigramas de álcool por litro de sangue).
Nas fiscalizações o que se pretende avaliar não é a taxa de álcool no sangue, mas como o álcool afeta a habilidade de dirigir por meio da quantidade de álcool presente no organismo. No entanto sabemos que o efeito do álcool é diferente em cada pessoa, e.g., uma mesma quantidade de álcool pode ter efeitos distintos em cada pessoa, em um homem de meia idade, acima do peso, que é um bebedor habituado, que acabou de terminar sua refeição e que tem dirigido por muitos anos terá um efeito menor na sua direção do que no de uma adolescente magra e com apenas um ano de carteira.
É o caso em que “uma condição fisiológica-química é transformada em comportamental” 72. A existência de álcool no sangue é considerada como uma medida
isométrica do estado de estar sob influência de bebida, i.e., o nível de álcool no sangue é classificado como medida do comprometimento da direção e isso é cristalizado como um conhecimento. Na esfera política os discursos sobre esse fenômeno são elaborados em uma atmosfera de conflito assumido, na qual é declarada uma guerra contra o motorista que bebe e dirige com o fim de eliminarmos os acidentes; de um lado está o motorista e do outro o restante da sociedade73.
Nessa batalha o motorista é percebido como vilão, enquanto os outros que interagem com ele são vítimas do seu comportamento impróprio – todos são ameaçados, inclusive ele mesmo –, a sua moral é defeituosa, pois não compreende os riscos da sua ação. Para a sociedade, a sua representação social é elaborada a partir dessas características que lhe são atribuídas, e a principal é que ele é fator preponderante no envolvimento em acidentes. A partir disso ele é constituído como a personalização dos acidentes de trânsito, o seu comportamento desviante é a causa da desordem que deve ser eliminada. A guerra travada contra ele não deixa espaço para a reflexão de que outras causas podem interferir no resultado
72 Ibidem, p. 64. 73 Ibidem.
dos acidentes, criando um mito sobre o que deve ser o alvo para resolver a questão dos acidentes de trânsito.