A proposta de Collins (2005) assentará em dois aspetos importantes. O primeiro diz respeito ao Modelo de Princípios e Parâmetros (Chomsky 1981), em que se assume que não deve haver regras específicas para a derivação de passivas ou de qualquer movimento para baixo; o segundo diz respeito a Estruturas Sintáticas (Chomsky 1957). Neste sentido, Collins assume que os argumentos do verbo são gerados do mesmo modo na ativa e na passiva, mas rejeita que haja a absorção de papel temático e absorção de Caso passivo (Jaeggli 1986; Baker Johnson & Roberts 1989).
Segundo o Modelo de Princípios e Parâmetros, não há uma construção passiva: há antes princípios da Gramática Universal (Filtro de Caso, Critério Temático e propriedades de movimento) que determinam as propriedades do particípio passivo. Este modelo tem subjacentes dois princípios essenciais: o sufixo passivo –en absorve o Caso acusativo e o papel temático externo do verbo. Atentemos nas frases seguintes72:
(311) John wrote the book.
(312) The book was written by John.
72 Os exemplos são de Collins (2005: 81).
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Uma vez que o DP [the book] necessita de receber caso, sobe para Spec IP (uma posição de Caso Nominativo). Dado que o sufixo –en absorveu o papel temático externo do verbo, o argumento externo não necessita de subir para Spec IP para obter Caso, deixando então esta posição disponível para a subida do objeto direto.
Collins aponta como problema o facto de, neste modelo, o argumento externo DP [John] ser gerado numa posição diferente na ativa (Spec IP) e na passiva (complemento da preposição by). Collins sugere, em alternativa, uma análise em que a posição subjacente do argumento externo será coincidente, quer na ativa quer na passiva.
Collins (2005) propõe que PRO é o argumento externo nas passivas curtas. Baker et al. (1989) já tinham tentado definir o argumento externo das passivas curtas como sendo do mesmo tipo de PRO. Mas enquanto PRO se pode relacionar com a primeira pessoa nas infinitivas, os argumentos não realizados nas passivas não podem73:
(313) PRO to shave ourselves is fun.
(314) *Love letters were written to ourselves.
Partilham todas as outras propriedades, menos esta, pelo que são diferentes.
Collins assumirá ainda a existência de um nó funcional, VoiceP, que é legitimado pelo particípio passivo. Existindo este nó, a projeção PartP subiria para a posição de [Spec, VoiceP].
Para Collins, a preposição by constitui-se como dummy preposition, sendo formada por traços não interpretáveis. By é então uma requisição sintática específica da passiva.
Como vimos, Collins assume que o sufixo da passiva não é um argumento. Considera que na ativa o caso seria verificado por v, que também atribuiria o papel temático ao argumento externo. Na passiva, v também atribui o papel temático, mas a verificação de caso acusativo será efetuada por [Voice, by]. No caso da passiva curta, assume a categoria PRO em [Spec,vP] e o núcleo de VoiceP torna-se nulo.
Para Collins (2005), na passiva, o argumento externo (PRO), na passiva curta ocupa a posição de [Spec, vP]. A elevação violaria a Relativized Minimality (RM)
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(Rizzi 2001) ou a Minimal Link Condition (MLC) (Chomsky 1995), pelo que a solução passa por smuggle o objeto do verbo para a posição de argumento externo.
Assim, a estrutura correspondente à frase (315) seria a que a seguir se apresenta74:
(315) The book was written by John.
Collins assume que a passiva curta implica o movimento de PartP para Spec VoiceP.
Como vimos, o contributo de Collins (2005) diz respeito à noção de smuggling, que é um processo motivado pelo facto de, numa estrutura do tipo Z [YP XP] W <[YP
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XP]>, W bloquear uma relação sintática entre Z e XP, W, sendo uma barreira, fronteira de fase, ou interveniente no âmbito da MLC ou RM. Assim, smuggling manifesta-se como sendo o movimento de PartP para a posição de [Spec, voiceP], para que o DP (objeto lógico) se possa mover para a posição de sujeito da frase, independentemente da natureza da intervenção (DP pleno ou categoria vazia).
Resumindo, as grandes linhas da proposta de Collins (2005) para a passiva assentam nas seguintes assunções: o argumento externo é merged na passiva do mesmo modo que na ativa (Merge (DP, vP)); verifica-se a existência do núcleo funcional –en, que é composto por traços não interpretáveis, assim como a existência de VoiceP. Toda a variação paramétrica localiza-se na variação de traços não interpretáveis. Assim, numa dada língua sem VoiceP (uma projeção composta apenas por traços não interpretáveis) não haveria a passiva (tal como acontece em algumas línguas).
Para o autor, dizer que uma criança adquiriu a passiva significará que já houve lugar para a fixação do parâmetro (+) voice na língua. Na ausência deste núcleo funcional, a criança tenderá a recorrer a outras estratégias para compreensão da frase, nomeadamente à atribuição, por exemplo, do papel temático de experienciador ao primeiro DP que surge na frase, como sugerem vários autores, entre os quais Rubin (2009).
Para Gehrke & Grillo (2009), esta proposta de Collins resolve aparentemente o problema da localidade, mas acarreta muitos outros, nomeadamente a falta de um estatuto claro na teoria. Para além disso, não dá conta de factos empíricos básicos sobre as passivas (ou seja, a passivização aplica-se em situações em que não há movimento do argumento interno para Spec TP, como em (316):75
(316) There was a man killed.
Smuggling não resolve provavelmente o problema da minimalidade. Esta operação move um subevento (VP) através de outro subevento (vP), o que deve gerar efeitos de minimalidade, segundo o próprio Collins.
Gehrke & Grillo (2009) apresentaram uma nova abordagem sobre a passiva, passando a concentrar-se na estrutura eventiva e não na estrutura argumental. Os autores distinguem o movimento de parte da estrutura de um evento complexo, do movimento de um argumento DP para Spec TP para satisfazer o Princípio de Projeção Alargado.
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Propõem que a promoção de um estado resultante de um subevento de um evento complexo para uma posição acima de VP é o que a caracteriza a passiva. Sugerem que uma exigência semântica, algo do tipo de Topicalização, destaca este estado resultante e atribui-lhe um traço que determina o movimento de um VP mais baixo para uma posição discourse –related na fronteira da fase VP, representada como VoiceP.
De uma maneira geral, a análise de Gehrke & Grillo (2009) retoma Collins (2005), fazendo um tratamento da passiva dentro de uma estrutura de eventos complexa, em que um evento pode ser decomposto em subeventos específicos. Gehrke & Grillo (2009) mostram que existe uma relação estreita entre a disponibilidade de um estado resultante e a possibilidade de passivização. Defendem que a possibilidade de passivizar um predicado dependerá da sua estrutura eventiva. Assim, os tipos de eventos que podem passivizar são os processos culminados e as culminações. No entanto, os autores Gehrke & Grillo (2007: 132) encontram verbos estativos que admitem passivização (know, surround). A explicação surge ligada a uma operação que associaria o predicado BECOME aos verbos que permitissem uma leitura que considerasse um resultado76.
1.7.7. Resumo da secção
Nesta secção, apresentámos as propostas de Chomsky (1981), de Jaeggli (1986), de Levin & Rappaport (1986), de Baker, Johnson & Roberts (1989), de Boeckx (1998) e de Collins (2005) no que diz respeito à sintaxe da passiva. A formulação de Chomsky (1981) baseia-se na ideia de que o particípio passivo perde a capacidade de atribuir Caso ao seu argumento interno e de papel temático ao argumento externo. Assim se explica uma caracterização da passiva através da perda do argumento externo da construção ativa e do movimento do argumento interno do verbo para a posição de sujeito da passiva de modo a cumprir-se a atribuição de Caso.
Já a proposta de Jaeggli (1986) e de Baker, Johnson & Roberts (1989) entende a passiva verbal de modo diferente, defendendo não a perda do argumento externo da ativa, mas a sua realização através do morfema passivo -en. Para os autores, o particípio passivo não perde a capacidade de atribuição de caso ao argumento interno e papel temático ao argumento externo do predicado, sendo antes o próprio sufixo passivo que recebe o Caso e o papel temático externo do predicado.
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As predições dos autores divergem, no entanto, no que diz respeito à caracterização do sintagma-por. Enquanto para Jaeggli, o sintagma-por não constitui um argumento do verbo, mas sim do –en, um elemento com caráter opcional, através de transferência do sufixo passivo; para Baker, Johnson & Roberts (1989) o sintagma-por forma uma cadeia com o sufixo passivo, sendo o papel temático externo atribuído à cadeia. O autor conclui que o sintagma-por tematicamente é um argumento, mas sintaticamente é um adjunto de –en.
O grande ponto de interesse da proposta de Collins (2005) é a assunção de um núcleo funcional voiceP, que permitiria justificar o movimento de toda a projeção de PartP para o seu especificador e o movimento do objeto lógico para a posição de sujeito através de smuggling, independentemente de haver elementos intervenientes.
Para o autor, quando uma criança adquire a passiva já se observou a fixação do parâmetro (+) voice na língua. Quando este núcleo funcional está ausente, a criança recorre a outras estratégias para compreender a frase, nomeadamente à atribuição do papel temático de experienciador ao primeiro DP que surge na frase.
Relativamente à passiva adjetival, Chomsky (1981), Jaeggli (1986) e Levin & Rappaport (1986) defendem que não há um motivo para fazer derivar a passiva adjetival através de uma regra de Mover-α. Esta passiva apresenta um argumento externo em estrutura-P, o que explica que não haja um movimento de NP para essa posição. Contudo, Levin & Rappaport (1986), dado que fazem derivar o particípio adjetival do particípio verbal, falam em exteriorização de um elemento.
Através das diversas sínteses apresentadas, pretendemos ilustrar as abordagens clássicas que representam as principais tendências de análise. Há, porém, outras propostas interessantes que podem ser mencionadas, ainda que não tenham sido desenvolvidas no presente trabalho. É o caso de Borer (1998) e Reinhart (2002). Enquanto o primeiro sugere que o argumento implícito deve ser tratado como um pronome vazio (pro), Reinhart (2002) defende uma representação semântica (e não estrutural) do argumento externo.
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