• No results found

4.4 Quantitative Analyse

4.4.4 Übungsformen

teologal. Trata-se do amor que vem de Deus e se transmite, com o assentimento do coração humano, ao próximo.538 Sendo que o ser humano é, essencialmente, político e social sua capacidade de agir independentemente é reduzida. “O que existe não é nunca o homem; o homem só existe na pluralidade da relação Eu-Tu-Nós.”539 Esse aspecto antropológico do

amor fraterno-solidário é concebido na teologia latino-americana a partir da ótica do „pobre‟: sua causa, sua existência sacrificada, sua luta, seus interesses por vida, trabalho e dignidade.540

No contexto latino-americano, a partir da segunda metade do século XX, o sentido da morte de Jesus de Nazaré passa por esse marco referencial, o que lhe confere certa originalidade.541 Não se trata de uma nova espiritualidade, pois está em continuidade com a tradição cristã universal que considera igualmente que a morte de Jesus “atinge a todos, especialmente porém àqueles que, por suas vidas, lutam por aquilo que pelo qual o próprio Jesus lutou e morreu.”542

Como Jesus de Nazaré levou a sério a realidade dos pobres do seu tempo, anunciando-lhes em primeiro lugar a mensagem do Reino, a teologia atual deve igualmente levar a sério a realidade do mundo dos pobres e excluídos para não ser acusada de cumplicidade e conivência com as injustiças presentes em nosso mundo. Isso a obriga a pensar no desafio da prática, buscando construir uma sociedade que possa antecipar as marcas do Reino no meio da história.543

A experiência cristã para os latino-americanos é uma intensa busca de significado e, ao mesmo tempo, de libertação dos sofrimentos. “Os pobres serão os que a partir desta visão do mundo e do desígnio de Deus sobre ele, hão de transformar esse mundo que aí está.”544

Contemplando a morte de Jesus de Nazaré, os pobres começam a perceber e alcançar o

538 Cf. SCHILLEBEECKX, Edward. Jesús en nuestra cultura: mística, ética y política. 2. ed. Salamanca: Ediciones Sígueme, 2001, p. 89.

539 KASPER, Walter. Tarefas da cristologia atual. In: SCHILSON, Arno & KASPER, Walter. Cristologia: abordagens contemporâneas. São Paulo: Loyola, 1990, cap. 7, p. 129.

540 Cf. BOFF, Leonardo. Do lugar do pobre. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 9.

541 “Um componente significativo da espiritualidade de muitíssimos cristãos na América Latina é a motivação evangélica da luta pela justiça; pelos direitos dos pobres e oprimidos e para tonar a sociedade mais fraterna e solidária.” GALILEA, Segundo. As raízes da espiritualidade latino-americana: os místicos ibéricos. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 86.

542 BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 162.

543 FERRARO, Benedito. Jesus Cristo libertador: cristologia na América Latina e no Caribe. In: MARIA VIGIL, José. Descer da cruz os pobres: Cristologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 140.

544 AZEVEDO, Marcello. Comunidades eclesiais de base e inculturação da fé: a realidade das CEBs e sua tematização teórica, na perspectiva de uma evangelização inculturada. São Paulo: Loyola, 1986, p. 199.

sentido da sua própria caminhada. A partir do lugar teológico dos pobres se entende melhor quem é Cristo, quem é o ser humano, qual é a essência e a identidade da Igreja e qual é o modo de atuar, de ser, os sentimentos e as prioridades de Deus.545

2.5.1 A compreensão da morte de Jesus como encarnação na vida e na ação dos pobres

No âmbito da cristologia pensada no contexto latino-americano, pretendente de encarnação na vida e na ação dos pobres, está a compreensão da morte de Jesus como ruptura com sua causa: Jesus sente o abandono daquele Deus a quem pregava e sentia próximo, como o seu Pai. O típico desta morte se manifesta quando se considera a mensagem de Jesus a respeito da aproximação do Reino de Deus e o seu clamor na cruz: Deus crucificado assume em si a dor da história e, assim, o “homem encontra a vida, quando se une Àquele que é em si mesmo a vida. Então nele muitas coisas podem ser destruídas; a morte pode tirá-lo da biosfera, mas a vida que a transcende, a verdadeira vida, permanece.”546

A cristologia da libertação que Jon Sobrino elaborou, partindo dos pobres e marginalizados nas terras latino-americanas, lhe permitiu declarar que nesta realidade “não se exige o seguimento de um Messias pensado ortodoxamente, mas o seguimento de Jesus, precisamente em seu caminho para a cruz e com as exigências que tornaram possível e inevitável este caminho para a cruz.”547Este teólogo argumenta que a “repetibilidade da missa

como sacrifício corre o perigo de reduzir a cruz real e histórica de Jesus a uma cruz cultualizada. Com isto ela corre o risco de fazer simplesmente com que a fé se converta em religião com um culto sacrificial.”548

Jon Sobrino afirma que o sentido da morte de Jesus produz uma esperança “que Jesus conquistou para nós na cruz”549 e acrescenta que “a salvação passa também por uma mulher,

Maria, a Virgem da Cruz e do Magnificat.”550 A morte na cruz é, em última análise, a

consequência histórica da práxis de Jesus, por isso, a existência cristã é formalmente seguimento e não união intencional com o sofrimento e a cruz.551

545 Cf. SUSIN, Luiz Carlos. O privilégio e o perigo do “lugar teológico” dos pobres na Igreja. In: MARIA VIGIL, José. Descer da cruz os pobres: Cristologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 328 .

546 RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré, Parte II: da entrada em Jerusalém até a ressurreição. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011, p. 86.

547 SOBRINO, Jon. Cristologia a partir da América Latina: esboço a partir do seguimento do Jesus histórico. Petrópolis: Vozes, 1983, p. 368.

548 Ibid., p. 379.

549 ID. Espiritualidade da libertação: estruturas e conteúdos. São Paulo: Loyola, 1992, p. 167. 550 Ibid., p. 184.

551 Cf. SOBRINO, Jon. Cristologia a partir da América Latina: esboço a partir do seguimento do Jesus histórico. Petrópolis: Vozes, 1983, p. 399.

A fé cristã no contexto latino-americano é concebida como a aceitação do Deus-Amor, sem, contudo, se esquecer do escândalo da cruz, pois é precisamente a cruz de Jesus, a prova máxima de seu amor incondicional. A concretização da fé cristã se faz a partir da cruz, não como mística exclusiva de sofrimento, mas como seguimento que leva à libertação integral de cada pessoa humana.552 A tal ponto que se pode dizer: “quando olhamos para a cruz, vemos nela a paixão do homem e do mundo.”553

Os pobres não são apenas objeto teológico da ética social, mas lugar hermenêutico e teológico da fé, ponto focal para a estruturação de toda a teologia. Na América Latina começa-se a falar dos pobres como um lugar teológico privilegiado para, a partir deles, ler a palavra de Deus e a própria tradição da Igreja.554

A história latino-americana revela uma realidade em conflito entre o Reino de Deus e o anti-reino, entre o Deus-Pai de Jesus que leva à vida e os ídolos que levam à morte. A base dessa concepção remete à tradição judeu-cristã que experimenta Deus sempre em relação com a humanidade: “o que o Lógos assumiu é verdadeiramente uma história humana, através da qual o homem Jesus se vai tornando homem e a revelação do Filho se vai fazendo através da revelação da história humana de Jesus.”555 O mundo e a história humana constitui a esfera da

ação salvadora de Deus. E, neste sentido, fora do mundo humano não há salvação.556

2.6 O sentido da morte de Jesus: morte solidária e assumida livremente