5.8 Konklusjoner / anbefalinger
5.8.3 Ørretbestanden
Enfim, se falamos de formação em Nietzsche, falamos necessariamente de uma formação trágica, e como podemos condensar o sentido deste trágico na filosofia do jovem Nietzsche? E como a tragédia salva o homem do aniquilamento? E como contribui com a formação humana? À primeira questão pode-se afirmar que, por um lado, Nietzsche via no trágico o caráter terrificante e absurdo da existência, por outro, Nietzsche versa sobre o efeito da cultura apolínea vencendo ―[...] uma horrível profundeza da consideração do mundo e sobre a mais excitável aptidão ao sofrimento‖ (NIETZSCHE, 2007, p. 35). A possibilidade de aceitação e transfiguração deste trágico por meio da arte é o que o homem grego, aos olhos de Nietzsche, realizou com plenitude através desta arte. Vejamos nas palavras de Nietzsche:
Na consciência da verdade uma vez contemplada, o homem vê agora, por toda a parte, apenas o aspecto horroroso e absurdo do ser, [...] reconhece a sabedoria do deus dos bosques, Sileno: isso o enoja. Aqui neste supremo perigo da vontade, aproxima-se, qual feiticeira da salvação e da cura, a arte; só ela tem o poder de transformar aqueles pensamentos enojados sobre o horror e o absurdo da existência em representações com as quais é possível viver: são elas o sublime, enquanto domesticação artística do horrível, e o cômico, enquanto descarga artística da náusea do absurdo (NIETZSCHE, 2007, p.53).
O conceito de vontade que Nietzsche no início da citação trata, volta-se para a acepção de Schopenhauer onde em O Mundo como Vontade e Como Representação:
(...) a tragédia é a representação da vida em seu aspecto terrificante. É ela que nos apresenta a dor inominável, a aflição da humanidade, o triunfo da perfídia, o escarnecedor domínio do acaso e a fatal ruína dos justos e dos inocentes; por isso, ela constitui um sinal significativo da natureza do mundo e do ser. (2005, p.333).
A admiração de Schopenhauer à tragédia assenta-se sobre a ideia de que o sofrimento leva o homem a um conhecimento que nega o querer, que aniquila a vontade. A dor, que pela tragédia, mostra-se e ocasiona uma verdadeira resignação do homem diante da vida é, segundo o filósofo, uma virtude santificante. Assim, o objetivo da tragédia é despertar no homem um espírito de resignação e de negação da vida a partir do conhecimento puro de
que o mundo é dor, a vida é sofrimento. Neste processo, o que chamamos de felicidade não passa de lapso de duração, uma alegria momentânea que logo é embotada pelo tédio.
Comparando as duas definições de trágico constata-se que pouco se afastam uma da outra, o que soará distinto entre estes dois filósofos é a forma como lidam com o trágico, e, neste âmbito, com o sentido que a tragédia possui e o que ela pode oferecer ao homem no momento em que se depara com esta verdade terrificante que é o trágico. Schopenhauer, como já vimos, admira a tragédia exatamente por possibilitar ao homem um conhecimento que o leva à resignação, à negação do mundo, da vontade. Em Nietzsche, pelo contrário, o homem não deve resignar-se diante desta verdade, porém também não pode fugir dela. Aceitá-la sim, tal qual Schopenhauer, porém transfigurá-la pela arte. E aqui, com Nietzsche, respondo à segunda pergunta:
É nesse coro [satírico] que se reconforta o heleno com o seu profundo sentido das coisas, tão singularmente apto ao mais terno e ao mais pesado sofrimento, ele que mirou com olhar cortante bem no meio da terrível ação destrutiva da assim chamada história universal, assim como da crueldade da natureza, e que corre o perigo de ansiar por uma negação budista do querer. Ele é salvo pela arte, e através da arte salva-se nele a vida. (NIETZSCHE, 2007, p. 52).
Negação budista do querer é a forma como Nietzsche se refere à resignação do homem diante da vontade em Schopenhauer, visto que, no budismo, o monge atinge o estado de nirvana, à medida que aniquila os desejos, assim como na ataraxia estóica a felicidade só é possível pela diminuição da intensidade das paixões e dos anseios. Nietzsche afirma: ―Apolo não podia viver sem Dionísio! O ‗titânico‘ e o ‗bárbaro‘ eram, no fim de contas, precisamente uma necessidade tal como o apolíneo‖ (2007, p.38). Estas duas pulsões naturais tornaram possível a tragédia ática, a tragédia era o consolo metafísico do homem diante do absurdo, do terrífico da existência. Tal consolo elevou o grego acima dos povos, esta forma surpreendente de plastificar o inaudito torná-lo além de suportável, desejável é que atesta a superioridade da formação trágica do homem grego, exatamente por não negar a vida, mas potenciá-la através da arte:
O consolo metafísico – com que [...] toda a verdadeira tragédia nos deixa - de que a vida, no fundo das coisas, apesar de toda mudança das aparências fenomenais, é indestrutivelmente poderosa e cheia de alegria, esse consolo
aparece com nitidez corpórea como coro satírico, como coro de seres naturais, que vivem, por assim dizer, indestrutíveis, por trás de toda civilização, e que, a despeito de toda mudança de gerações e das vicissitudes da historia dos povos, permanecem sempre os mesmos (NIETZSCHE, 2007, p.52).
Aqui entendemos que aceitar o trágico, não é resignação, mas afirmação da vida, de uma vida que, pela tragédia, pode transbordar em alegria, em êxtase, pode ser desejada, fruída em vez de negada, negligenciada, aniquilada. A formação trágica do homem se realiza por este caminho que mesmo diante do abismo, se infla de vida, assume sua humanidade, canta e dança, esta é sua contribuição para a humanidade. E, por fim: que é esta formação que infla de vida o homem? É formação com uma disposição musical, o que significa que ela admite a tensão e é caracterizada pela dissonância; que é a capacidade de permitir a convivência de pulsões díspares.
CAPÍTULO 2 ECCE MUSA
Se para o filósofo só existe na natureza tanto animada, como inanimada um único e mesmo querer que aspira à existência, o músico acrescenta que esse querer procura em todos os seus estágios exprimir-se nos sons. (NIETZSCHE, 2009, p.116, alusão à metafísica da vontade de Schopenhauer).
Da Grécia dos tempos de Sócrates até a modernidade, a cultura alexandrina dominou, e, com ela, um modelo de formação que priorizou a lógica, a dialética em detrimento do mito e das pulsões artísticas. Cabe ao pensador de Röcken apontar outra dimensão da cultura grega, isto é, expor as raízes dionisíacas, de onde brota a tragédia pelo curso da música. É na Grécia arcaica que Nietzsche encontra esta veia dionisíaca que em contato com Apolo gerará a tragédia, este drama que carrega consigo o sentido mais profundo da existência. A modernidade envolta no véu da razão, não percebe como é decadente a consideração teórica do mundo que constitui a hegemônica fonte de sua humanidade. Pela obra de Wagner, Nietzsche espera ver renascer o espírito que vivificou a Hélade em seus idos tempos de tragédia. E este renascimento requer uma reforma cultural plena do homem moderno. Para isto, é necessário pensá-la, no seio da obra wagneriana, para além do simples espetáculo musical; é necessário pensá-la enquanto um projeto de formação humana que está em jogo. É a consideração trágica do mundo que, então, faz frente ao homem teórico moderno. Eis a música, a arte que envolve o homem e é capaz de conduzi-lo para além da frivolidade e superficialidade dos tempos modernos, lança-o ao fundo do mundo e resgata-o na criatividade das pulsões artísticas naturais.
2.1. Nietzsche & Wagner: Ou Anel de Schopenhauer