Depois de apresentados os resultados das produções de [a] e de [ɐ] em contextos semelhantes para a fala masculina, apresentar-se-ão, de seguida, na Tabela 27, os valores refe- rentes às realizações de /a/ para a fala feminina nos mesmos contextos de tonicidade: vogal aberta tónica [a] em contexto (oral) labial, palatal, alveodental e alveolar e em contexto (nasal) bilabial [m] de v.v. (apenas em palavras de conteúdo); e vogal semifechada tónica [ɐ] em contexto (oral) alveolar (apenas em palavras funcionais) e em contexto (nasal) alveoden- tal, palatal e em contexto bilabial [m] de v.v. e v.nv. Em seguida, tal como se procede para a análise do falar do sexo masculino, mostramos a dispersão dos valores médios F1 e F2 das vogais tónicas realizadas em contexto oral vs. nasal alveodental, palatal e labial/bilabial. Por fim, lembramos que expomos ainda, numa última subsecção, os gráficos de dispersão das vogais alvo em contexto bilabial [m] de v.v. no Presente e Pretérito Perfeito do Indicativo, tendo em conta a hipótese inicial de que, nestes contextos, os falantes de Braga tendem a rea- lizar somente [a] tónico.
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Tabela 27: Valores médios de F1 e F2 (em Hertz) não normalizados e desvio-padrão (DP) das vogais [a] e [ɐ]
tónicas seguidas de consoantes orais e nasais (em contexto verbal e não verbal), produzidas pelas cinco infor- mantes bracarenses em cinco pares de contextos articulatórios semelhantes
Conforme os dados expostos na Tabela 27, percebemos que, na maioria dos pares contextuais, as vogais [a] e [ɐ] apresentam valores de F1 e/ou F2 discrepantes: os valores de F2 são muito diferentes em todos os pares contextuais, enquanto nos valores de F1 apenas nos contextos oral vs. nasal alveodental e palatal as vogais-alvo apresentam médias muito próxi- mas. É possível perceber também que as informantes bracarenses tendem a apresentar valores maiores em contexto nasal do que contexto oral, tanto em F1 como em F2. Comportamento diferente do observado na fala masculina, que apresenta tendência para apresentar valores formânticos maiores em contexto oral.
Começando pela análise dos valores formânticos das realizações referentes ao par contextual número 1, verificamos que as mulheres bracarenses tendem a mostrar, para o pri- meiro formante (F1), valores médios muito próximos, com uma diferença de apenas de 5, 7 Hz. Todavia, com relação a F2, as vogais apresentam uma diferença de valores consideravel- mente maior, que é de 37, 89 Hz.
Mulheres (cinco falantes) F1 (Hz) F2 (Hz)
Contexto Média D.P. Média D.P.
Par 1
[a] seguida de alveodentais
orais [t] e [ð] 736, 94 86,81 1515, 06 55,68 [ɐ] seguida de alveodental
nasal [n] 742,64 90,02 1552,95 71,16
Par 2
[a] seguida de palatais orais
[ʒ]; [ʃ] e [ʎ] 711,95 82,37 1607,38 34,19 [ɐ] seguida de palatal nasal [ɲ] 712,21 87,75 1743,61 118,38
Par 3
[a] seguida de labiais orais [p];
[β] e [v] 746,86 94,18 1434,09 73,34 [ɐ] seguida de bilabial [m]
(itens não verbais) 720,55 34,73 1523,34 36,34
Par 4
[a] seguida de alveolares orais [l] e [r]; [ɾ]; [z] e [s] (palavras
de conteúdo) 759,08 86,61 1561,64 28,96 [ɐ] seguida de alveolar oral [ɾ]
(palavras funcionais) 570,38 37,53 1487,02 81,00
Par 5
[a] seguida de nasal bilabial [m] - Itens no Pretérito Perfei-
to do Indicativo 743,08 79,527 1445,31 114,47 [ɐ] seguida de nasal bilabial
[m] - Itens no Presente do
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No Par 2, encontramos a mesma situação: valores muito semelhantes em F1, mas muito diferentes em F2. A diferença entre F1 médio da vogal em contexto oral vs. nasal pala- tal é de apenas 0, 26 Hz, enquanto que em F2 temos uma diferença de 136, 23 Hz.
Entretanto, observando as médias apresentadas no Par 3, verificamos, ao contrário dos pares anteriores, que a vogais tónicas, tendem a apresentar valores de F1 diferentes, com uma diferença de 26, 31 Hz. Em F2, a diferença relevante entre os valores médios mantém-se (89, 25 Hz).
As vogais realizadas nos contextos descritos nos Pares 4 e 5 também apresentam um comportamento semelhante ao observado no Par 3: as informantes apresentam diferenças grandes entre os valores de F1 e F2, embora, no último par, não encontremos uma diferença tão relevante como em 4, conforme já era esperado. Assim sendo, verificamos que, no falar das mulheres de Braga, a diferença entre a qualidade vocálica das vogais [a] e [ɐ] em contexto alveolar é de 187, 7 Hz e de 74, 62 Hz para F1 e F2 respetivamente. Em contexto bilabial [m] de vocábulos verbais (Par 5), atestamos uma diferença de 51, 29 Hz em F1 e de 22, 31 Hz em F2.
Em síntese é possível, por agora, afirmar o seguinte: (i) valores médios de F1 e F2 consideravelmente diferentes parecem corroborar a hipótese de que, na fala feminina, [a] e [ɐ] diferem entre si, não só ao nível do grau de abertura como ao nível da anterioridade e poste- rioridade vocálica; (ii) diante dos resultados F1-F2 divergentes em contexto bilabial [m] de v.v. no Presente e Pretérito Perfeito do Indicativo, também somos capazes de assumir que as vogais alvo não apresentam, nestes contextos, o mesmo padrão formântico. Tal facto poderá remeter para a ideia de que este grupo de mulheres de Braga distingue os tempos verbais (Pre- sente do Indicativo vs. Pretérito Perfeito do Indicativo) dos verbos a partir da configuração vocálica distinta.
Antes de procedermos à observação e análise dos resultados do teste Wilcoxon, importa considerar a representação gráfica dos valores F1-F2 obtidos nas análises da fala feminina, anteriormente discutidos.
Se observarmos as zonas ocupadas pelos sons vocálicos em análise, produzidos em contexto labial nasal vs. oral, Figura 28, reparamos que as produções são similares em F1, embora apresentem neste eixo zonas de realização bem delimitadas. Pelo contrário, em F2, verifica-se que tanto a vogal em contexto oral como a vogal em contexto nasal apresentam
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zonas de realização muito diferentes: a vogal acentuada [ɐ] encontra-se numa posição ligei- ramente mais anteriorizada e a vogal [a] mais recuada.
Fig. 28: Gráfico de dispersão dos valores médios de F1 e F2 (símbolo fonético) e DP (elipses) das vogais orais
tónicas [a] e [ɐ], em sílaba aberta, seguidas por consoantes labiais orais (linha a cor preta) e nasais (linha a cor cinza), produzidas pelas informantes bracarenses
Nos gráficos de dispersão seguintes, podemos observar uma disposição diferente dessas vogais. Em contexto alveodental nasal vs. oral, Figura 29, as vogais-alvo tónicas apre- sentam valores de F1 muito próximos, daí se encontrarem sobrepostas em relação ao eixo vertical. No que tange aos valores de F2, o ligeiro distanciamento entre [a] e [ɐ] demonstra que a vogal aberta tem uma realização relativamente mais posterior e a vogal semifechada uma realização ligeiramente mais anterior.
Fig. 29: Gráfico de dispersão dos valores médios de F1 e F2 (símbolo fonético) e DP (elipses) das vogais orais
tónicas [a] e [ɐ], em sílaba aberta, seguidas por consoantes alveodentais orais (linha a cor preta) e nasais (linha a cor cinza), produzidas pelas informantes bracarenses
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No que concerne às vogais tónicas [a] e [ɐ] produzidas em contexto palatal oral vs. nasal (Figura 30) à semelhança do que observámos no gráfico anterior, verificamos que os valores de F1 são idênticos. A diferença entre as produções ao nível de F2 também é notada: observamos que a vogal [ɐ] ocupa uma posição mais anterior e a vogal [a] uma posição mais posterior, embora no gráfico da Figura 29 essa diferença não seja tão relevante.
Fig. 30: Gráfico de dispersão dos valores médios de F1 e F2 (símbolo fonético) e DP (elipses) das vogais orais
tónicas [a] e [ɐ], em sílaba aberta, seguidas por consoantes palatais orais (linha a cor preta) e nasais (linha a cor cinza), produzidas pelas informantes bracarenses
Passemos, de imediato, a analisar os resultados obtidos a partir da comparação estabelecida entre os valores das frequências F1 e F2 das vogais tónicas [a] e [ɐ] realizadas pelas informantes em contextos articulatórios vogal-consoante semelhantes, apresentados na Tabela 2876.
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Mais uma vez, não foi possível executar os testes estatísticos para o Par 4, pelo facto de não terem sido encontradas ocorrências suficientes para proceder ao cálculo estatístico.
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Tabela 28: Análise comparativa dos valores médios de F1 e F2 das vogais orais tónicas [a] e [ɐ], em sílaba aber-
ta, realizadas em contexto oral e nasal idêntico, produzidas pelas cinco informantes bracarenses – teste Wilcoxon
MULHERES
F1 F2
Z p Z p
Par 1 [a] seguida de alveodentais orais [t]; e [ð] vs.
[ɐ] seguida de alveodental nasal [n] -405 .686 - 1, 214 .225 Par 2 [a] seguida de palatais orais [ʒ]; [ʃ] e [ʎ] vs.
[ɐ] seguida de palatal nasal [ɲ] .000 1.000 - 1, 461 .144 Par 3 [a] seguida de labiais orais [p]; [β] e [v] vs.
[ɐ] seguida de bilabial [m] em vocábulos não verbais -535 .593 - 1, 604 .109
Par 4
[a] seguida de alveolares orais [l] e [r]; [ɾ]; [z] e [s] em palavras de conteúdo vs.
[ɐ] seguida de alveolar oral [ɾ] em palavras funcionais
-1.826 .068 - 1, 095 .273
Par 5
[ɐ] seguida de bilabial nasal [m] em vocáb. no Presente do Indicativo vs. [ɐ] seguida de nasal bilabial [m] em vocáb . no Pretérito Perfeito do
Indicativo
-1.604 .109 - 535 .593
De acordo com os resultados do teste de Wilcoxon, apresentados na Tabela 28, é possível afirmar que as vogais semifechada e aberta não apresentam diferenças significativas nos valores de F1 e F2 em nenhum dos pares contextuais assinalados. Este é um resultado semelhante ao encontrado na subsecção anterior, quando avaliamos as frequências médias das vogais [a] e [ɐ] produzidas pelos homens bracarenses.
Assim sendo, concluímos que, apesar de termos encontrado diferenças entre as médias das frequências formânticas (cf. Tabela 27), [a] e [ɐ] possuem o mesmo padrão formântico quando realizadas em contextos articulatórios vogal-consoante semelhantes.
Por este motivo, deduzimos que, também no falar do género feminino de Braga, pode haver uma tendência para a realização de [a] nos contextos tónicos em que normalmente é realizado um [ɐ].