Propomos investigar o modo como são construídas as categorias enunciativas de pessoa-espaço-tempo no texto do aluno e no texto fabular. Essas categorias enunciativas constituem determinadas relações as quais possibilitam o estabelecimento de marcadores léxico-gramaticais. Dentre tais relações, encontramos:
2.5.1 Tematização
A partir da construção de glosas no enunciado, pretendemos chegar ao tema selecionado pelo aluno (ao produzir o texto) e pela fábula (construção do texto). Nossas
análises giram em torno desse tema, ou seja, da apresentação de um enunciado cuja proposição se estende ao longo do texto.
2.5.2 Determinação/Indeterminação
É uma operação que diz respeito à determinação/indeterminação do enunciado predicado pelo sujeito-enunciador. Este serve-se das marcas léxico-gramaticais, que constituem a relação de determinação/indeterminação, para se colocar/não se colocar em determinadas situações enunciativas.
Nesse sentido, podemos observar o movimento entre a determinação e a indeterminação entre os enunciados a partir do modo como o sujeito-enunciador trata o tema proposto e a quem se enuncia.
Tratamos dessa questão por base em valores de maior ou de menor grau de determinação/indeterminação dos enunciados.
2.5.3 Modalização
Deparamo-nos com determinados valores modais sobre os enunciados nos textos dos alunos e nas fábulas. Tais valores dizem respeito ao modo como o tema pretendido nos textos é colocado em perspectiva em uma relação de predicação. Entre os valores modais da teoria culioliana, fazemos referência a:
a) categorias de asserção (afirmação, negação, interrogação);
b) categorias do certo/não certo, provável, necessário, possível, contingente; c) categorias de apreciação – valor que depende do posicionamento do sujeito
enunciador;
d) categorias de injunção - valores que dependem da relação entre sujeitos ao centrar a enunciação sobre estes.
Observamos a construção desses tipos de modalização nos enunciados do aluno e da fábula.
2.5.4 Aspectualização
Procuramos observar nos textos dos alunos e nas fábulas o modo como os enunciados se desenrolam no tempo. Tal procedimento de análise é possível, em razão das
operações aspectuais enunciativas. Estas organizam os acontecimentos em uma determinada situação de enunciação, tendo em vista as referências espaço-temporais.
Desse modo, os enunciados dos textos (espaço construído) situam o jogo dos valores aspectuais que, por sua vez, projetam tal espaço sobre um eixo temporal. Esse movimento entre os enunciados e os valores aspectuais possibilita que o sujeito-enunciador do texto determine a representação pretendida (ou não, uma outra representação).
Para compreendermos a questão dos deslocamentos enunciativos de pessoa- espaço-tempo em produções textuais de aluno, promoveremos uma breve discussão acerca dessa ocorrência em tais textos e, em seguida, realizaremos análises de um destes, tomando por base o referencial metodológico que adotamos.
3 PRODUÇÃO DE TEXTO DO ALUNO: OS DESLOCAMENTOS ENUNCIATIVOS DE PESSOA-ESPAÇO-TEMPO
As páginas que se seguem deste trabalho se referem às análises do corpus que coletamos. Lembramos que nosso corpus consiste em um conjunto de redações coletadas nas escolas de Rede Pública e Particular, entre as séries do Ensino Fundamental e Médio. A determinação desse corpus se deve ao fato de observarmos que as redações apresentam determinados problemas linguístico-discursivos que perpassam essas séries escolares.
Esse conjunto de redações nos levaria a realizar análises exaustivas. Tendo em vista que nosso objetivo é analisar problemas específicos nestas redações e sugerir encaminhamentos, selecionamos algumas delas que nos parecem fornecer o material linguístico necessário para nossa questão de pesquisa.
Tratamos, pois, sobre os deslocamentos das categorias enunciativas que comprometem a intenção de significação do aluno ao produzir os textos. Tais deslocamentos demonstram, segundo Onofre (2007, p. 74), “a dificuldade que os alunos têm de operar com as categorias de sujeito-tempo-espaço”.
Essa dificuldade se relaciona à inadequação dos agenciamentos léxico- gramaticais que o aluno gera nos enunciados em virtude de ele se colocar ora próximo, ora distante do discurso. Isso se dá em diferentes situações enunciativas, tidas nas redações como modos de organização discursiva distinguidos em descrição, narração e dissertação.
As situações enunciativas apresentam determinadas marcas linguísticas que delimitam certa estabilização nos diferentes discursos, caracterizando os planos de enunciação. Essa estabilidade dos planos torna-se aparente no discurso do aluno, pois as marcas que ele gera nos enunciados não estão em consonância com o plano de enunciação em questão.
O jogo entre a estabilidade e a instabilidade linguística nos planos de enunciação produz um movimento entre as categorias enunciativas de pessoa-espaço-tempo. Movimento este que promove o cruzamento de valores semântico-discursivos nos enunciados, levando a significações distorcidas do que o aluno se propõe. Nesse sentido, nossa análise se volta para o movimento entre um plano enunciativo e outro que o aluno gera nos enunciados.
Para tanto, a partir da seleção de uma redação que apresenta os deslocamentos enunciativos de pessoa-espaço-tempo, contemplamos dois aspectos de nossas reflexões:
• análise isolada das ocorrências, com vistas a compreender o modo como o aluno produz as relações léxico-gramaticais de cada uma;
• análise das marcas léxico-gramaticais entre uma ocorrência e outra, a fim de compreender o movimento que o aluno faz entre as categorias enunciativas em jogo.
Consideramos que essas análises nos permitem o estudo acerca dos processos geradores de significação nos textos dos alunos. Interessa-nos, pois, ir além de identificar e descrever os deslocamentos das categorias enunciativas, mas de refletir sobre as operações que subjazem a atividade de linguagem na relação entre reconhecimento e produção de texto no ensino-aprendizagem de língua.